Frente Fria

Chovia naquele dia.

Dias de chuva sempre tiveram esse efeito quase hipnótico sobre mim, desde quando eu consigo me lembrar. As luzes de neon, já onipresentes em noites normais, agora parecem pintar a cidade com suas cores berrantes e promessas descartáveis, contrastando com o opressivo cinza do céu e do mundo. Uma imagem que me vem à cabeça é a do final de um filme que eu vi a muito tempo: Um palhaço fazendo sua apresentação e rindo, enquanto suas lagrimas borram toda a sua maquiagem, a única coisa colorida em um filme preto e branco. Era exatamente nisso que eu pensava enquanto dirigia para o local da chamada.

Como de costume cheguei no meio de um circo, com os personagens de sempre no picadeiro: os mestres de picadeiro uniformizados tentando pôr ordem no pardieiro, sendo importunados pelos abutres amestrados da imprensa, todos sem exceção tentando entreter o público que olha curioso. E ei que surge o magico, para desvendar o grande mistério com suas habilidades sobrenaturais? Eu disse magico? Muita pretensão da minha parte. Na verdade sou só mais um palhaço.

O lugar era uma casa pobre, um apartamento para ser mais especifico. Um daqueles prédios de conjunto habitacionais que eu visito dia sim, dia não. Ítalo lia o relatório e eu ouvia sem prestar muita atenção. Era o de sempre: Uma moça morta, prostituta, provável homicídio… O de sempre. Isso até eu encontrar ela.

Ela era linda. Talvez ao ouvir isso você comece a fazer piadinhas sobre as preferencias da minha profissão. Eu apoio em absoluto esse tipo de senso de humor, mas ao fazer isso você perderia o foco da história. Ela não era bonita no sentido clássico da palavra, pois era magra demais, emaciada mesmo, e mal cuidada. A beleza, contudo, estava em seu olhar. Não era vazio como todos os outros que eu tinha visto antes. Não, este era cheio de tristeza e resignação, como a imagem de um mártir em um ícone bizantino. Você tinha de ver como o sangue se espalhou pela parede onde ela estava encostada, como se fosse asas de um anjo abatido. E a chuva, defletindo as luzes de neon, emoldurava tudo com um ar divino.

Depois desse dia não consegui parar de pensar nela. Fiquei obcecado, admito. Não com a garota, mas sim com a cena. Tudo tão perfeito! Pena que nunca conseguimos descobrir o autor. Era o tipo de caso com que ninguém se importa e acabou sendo perdido entre caixas e mais caixas de arquivos empoeirados. Passei muito tempo arrasado, até que finalmente percebi que, seguindo uma citação famosa, a imitação de fato é a forma mais sincera de elogio. E é por isso que estamos aqui, querida.

Agora fique quieta, por favor. Prometo que não vai doer por muito tempo.

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