Impulso

Nunca fui um magico. Essa era a profissão do meu avô, mas com ele que aprendi alguns truques, razão pela qual esse foi meu apelido durante muito tempo, especialmente enquanto eu estava no exercito. A ultima vez que respondi por esta alcunha foi durante a guerra. Era inverno e havia neve por todo o lado. Eu fazia parte do que o comando chamava “destacamento tático avançado”, um nome muito pomposo para um bando de assassinos soltos em território inimigo para queimar vilas, matar civis e eventualmente emboscar alguma patrulha inimiga descuidada.

Havíamos sido enviados para esta missão cerca de um mês antes. O comando recrutara doze dos seus matadores mais brutais e lançara sobre as costas do inimigo. As vezes, quando penso nisso fico um pouco sentido. Não que eu guarde quaisquer ilusões sobre o tipo de homem que eu sou, longe disso. Mas ser comparado com os outros, todos cheios daquele entusiasmo juvenil idiota e nenhum profissionalismo sempre foi para mim um insulto. De qualquer modo, cumprimos nossa missão de maneira exemplar, mas não sem incidentes. Depois de um mês sobraram apenas quatro homens: Eu, Stephen, Magrelo e Gregor. Naquele dia eu estava de guarda, vigiando o terreno de cima de uma arvore, quando vi o Magrelo se aproximar.

– Ei, Magico! – Magrelo me chamou – Desce ai que o Gregor achou mais uma especial!

Gregor era um homem perigoso. Já tinha ouvido muitas histórias sobre ele, mesmo antes de sermos jogados juntos naquela lata de lixo. Diziam que ele era filho bastardo de um mafioso com uma puta e que com quatorze anos estrangulou o pai com as próprias mãos. Diziam que em mais de uma ocasião havia feito um homem engolir as próprias tripas. Havia até quem dissesse que ele na verdade era cria do próprio demônio. Lendas urbanas a parte, tratava-se de um homem que merecia tal reputação. Gregor era um sujeito imenso, um colosso de mais de dois metros de altura e uns cento e poucos quilos de puro musculo. Tudo isso impulsionado pela mente mais sádica que eu já tinha visto, o tipo de sujeito que anda entre as pessoas da mesma forma que um tubarão nadando entre um cardume de peixinhos. Era procedimento padrão seu desmembrar crianças na frente de suas mães, para depois estuprar as infelizes até a morte. Isso o tornou muito popular entre nossos colegas de esquadrão. Como eu disse antes, nenhum profissionalismo.

Haviam também as especiais. Era como ele chamava as combatentes inimigas que por algum infortúnio caiam em nossas mãos. Para essas ele organizava um espetáculo. Primeiro ele se divertia, lutando de mãos nuas com a prisioneira. E então, quando acabava, todos os outros se juntavam a “festa”. Para mim era um desperdício, o tipo de estupidez que faz com que você seja morto. Uma bala na cabeça, uma morte limpa e teríamos tempo de sobra para procurar um abrigo melhor, mais mantimentos ou qualquer coisa do gênero. Mas a verdade é que eu precisava me enturmar. Graças a seus interesses em comum, Gregor tinha a lealdade dos outros dois e ignorar isso poderia acabar me rendendo uma facada na garganta enquanto eu dormia. Assim eu desci da arvore e fui me juntar ao espetáculo.

Quando cheguei no lugar, uma clareira na floresta, Stephen terminava de desamarrar a prisioneira, com Gregor de pé a pouco mais de um metro de distancia dela. Rapidamente nós três formamos um circulo em volta dos combatentes, armas a postos para coibir qualquer tentativa de fuga. Ele estava completamente concentrado em seu alvo, mas ela deixou seu olhar escorregar para nós por um instante. Um grande erro.

Ele atacou rapidamente com um cruzado de esquerda que mais parecia um trem descarrilhado. Ela ainda conseguiu aparar o golpe, mas mesmo assim foi jogada para trás e caiu no chão. Gregor aproveitou e tentou pisar um de seus tornozelos, mas a resposta foi rápida demais. No que pareceu para mim um único movimento fluido, do qual eu só captei um borrão de movimento e um brilho metálico, a prisioneira sacou uma faca de uma das botas, atacou a perna dele e pôs-se de pé.

– Parece que a ratinha tem uma garra afiada. – Comentou Gregor jocosamente.

Ele ficou parado alguns instantes, testando o equilíbrio com a perna ferida, enquanto ela esperava em posição de guarda, parecendo inabalável como uma estatua de aço. Gregor então avançou com um chute rápido na direção das pernas da prisioneira, como que desafiando o ferimento, enquanto mantinha os braços em guarda, prontos para aparar qualquer golpe. Ela conseguia apenas se defender, só a duras penas evitando os chutes de quebrarem uma de suas pernas. Mesmo os longos arcos que descrevia com a faca eram apenas movimentos desesperados que buscavam antes de mais nada gerar algum espaço.

Então Gregor deu o bote. Se movendo mais rápido do que um gigante como ele tinha direito de ser, ele atravessou as defesas dela e agarrou seu pescoço com uma de suas mãos e a ergueu como se fosse uma boneca de pano. Nessa hora o Magrelo já salivava, certo de que teria um cadáver fresquinho e ainda cheirando a sangue para saciar suas perversões, e Stephen sorria. Todos sabiam que havia terminado. Menos ela. A prisioneira se debatia, tentando cravar sua lamina no braço de Gregor, só conseguindo cortes superficiais. E não desistia. Em meio a esses instantes de agonia nossos olhares se cruzaram.

E eu atirei.

Eu poderia dizer que foi nessa hora que eu decidi atirar, mas eu estaria mentindo. Não houve nenhum pensamento, nenhuma decisão consciente. Eu simplesmente atirei e coloquei uma bala na nuca do Gregor. E já sabia o que tinha de fazer em seguida. Atirei no Magrelo enquanto ele ainda estava paralisado com a surpresa. Pelo canto da vista pude perceber que Stephen já mirava em mim então joguei o meu rifle pra cima dele. Isso fez com que o seu tiro explodisse em uma arvore a alguns metros de mim e me deu tempo suficiente para sacar minha pistola e acertá-lo com três tiros no peito.

Instantes depois a prisioneira acabava de sair debaixo do cadáver do Gregor. Se recostava contra uma arvore e olhava para mim com uma expressão que misturava surpresa e medo, tudo isso coberto pelos restos dos miolos do meu antigo colega.

– Vai, corre! – Eu falei. E não precisei repetir.

Depois disso tomei algumas decisões. Vi que havia chegado a hora do Magico desaparecer. Voltar sozinho significava ter de responder a muitas perguntas às quais simplesmente não valeria a pena me esforçar para responder. Aquela guerra estava perdida mesmo antes da OTAN se meter. Além do mais, eu precisava de um lugar onde pudesse trabalhar com profissionais.

Mas até hoje eu não vou saber te responder porque atirei.

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