Tarde Qualquer

Ela se senta pesadamente à pequena mesa na cozinha de sua casa, suspirando pesadamente de cansaço. O dia havia sido longo e a dias que as dores nas costas a estavam matando, mas este seu pequeno ritual de repouso, um pouco de chá enquanto observava o sol se pondo atrás de seu belo jardim, fazia com que a vida de algum modo parecesse melhor do que era.

A porta dos fundos se abre.

Ela o vê entrar pela porta aberta, andando com o cuidado de quem se aventura na caverna de um urso, e observa, com um choque profundo e inesperado, o quão diferente ele está. A perturba principalmente o olhar que ele lhe dirige, tão frio como o de um cadáver olhando para seu assassino, não mais cheio daquela inocência que a encantava tanto.

– Então você veio mesmo. – Ela fala, sorrindo cordialmente para esconder a insegurança – Pode se sentar. Quer chá?

Ele puxa uma cadeira e se senta de frente para ela, deixando a mesa e ainda algum espaço entre os dois, ela nota, então puxa um caderninho do bolso, rapidamente rabisca algumas palavras e o entrega.

– “Eu nunca gostei desse troço. Achei que se lembraria.” – Ela lê em voz alta e então responde – Lembro sim. Só que tanta coisa está diferente que eu achei melhor perguntar.

“E quem podemos culpar por isso?”, ele escreve em resposta.

– Desculpa… – Ela fala, olhando fixamente para a imensa cicatriz que cruza o pescoço dele.

Ele sorri, balançando a cabeça do mesmo modo que alguém que acabou de ouvir uma criança de cinco anos de idade dizer que o cachorro comeu seu dever de casa, e então escreve “Claro. Isso com certeza resolve tudo. Devemos agora nos abraçar e tomar chá com torradas enquanto vemos juntos a novela das seis?”.

– Não precisa ser cínico. – Ela responde, visivelmente ofendida – Eu só queria dizer realmente sinto muito. E que eu fui sincera quando disse que te amava.

Novamente ele a fulmina com um olhar gélido. Ela tenta encará-lo, mas acaba sucumbindo e desviando o olhar.

– Só faça logo o que você veio fazer aqui. – Ela diz, olhando para baixo – Antes que o meu marido chegue. Eu mereço o que quer que seja, mas não quero que ele se envolva nisso.

“Não se preocupe”, ele escreve, “ele não vai chegar tão cedo.”.

– O que você fez com ele? – Ela pergunta, exaltada, enquanto ele lhe passa a resposta – “Nada.” Como assim nada?

Ele sorri novamente e então escreve “Pode ligar para ele se quiser. Mas ponha no viva voz. E nada de gracinhas.”.

Quando ele lê, ele saca sua pistola e a coloca sobre a mesa, bem próxima a sua mão.

Ela disca rapidamente o numero, e então coloca o aparelho em cima da mesa.

– Alô, querida? – Diz o marido do outro lado da linha.

– Oi amor. – Ela fala – Tudo bem com você? Estou ligando para saber se você vai demorar.

– Tenho más noticias, querida. – Responde o marido – Roubaram o meu carro hoje. Agora vou ter que ficar aqui preenchendo a papelada da ocorrência na delegacia. Vou acabar me atrasando um bocado.

– Nossa! E esta tudo bem com você? Te machucaram? – Ela pergunta, fingindo surpresa enquanto ele sorri de satisfação do outro lado da mesa.

– Não, foi só o carro. – Fala o marido – Eu estava no trabalho quando levaram. Sorte que nunca deixo nada lá. Agora eu preciso desligar, querida. Te amo.

– Também te amo. – Ela fala antes de desligar e se voltar para ele – Muito esperto. Usou o carro dele para passa pela segurança do condomínio, não foi? Sempre disse para o meu marido que aquele fumê todo não era boa idéia, mas ele me ouve?

Ele escreve “Quem diria, logo você vivendo como dona de casa dondoca, em condomínio fechado, passando o dia só esperando o maridinho para o jantar.”.

– Não é assim. Eu trabalho também, ora. Pago minhas contas e ajudo na casa. Só que agora eu estou de licença. – Ela fala, se mexendo um pouco para mostrar a ele grande barriga de gravidez – Por hora estou cuidando dessa mocinha em tempo integral.

Ele levanta, com a arma em punho, para perto dela.

– Uma pena que não vou poder ver essa pequena crescendo. – Ela fala enquanto acaricia a barriga, mal contendo as lagrimas.

Ele, por sua vez, entrega para ela outro papel, onde está escrito “Não vou te matar.”.

Ela então sorri, aliviada, deixando suas lagrimas de alegria correrem até perceber que mais uma vez ele a encara com o seu olhar frio como uma lapide de mármore. Ele encosta a arma na barriga dela e então tira de seu bolso uma folha de papel, já amarelada e com escrita gasta, onde está escrito:

“Agora estamos quites.”.

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Neon

A chuva caia sobre a cidade, abafando a infernal cacofonia urbana com seu gentil ruído que, para Fernando, lembrava a estática do antigo radio de seu avô. Em outro tempo isso o teria feito sorrir, mas agora apenas o perturbava ainda mais.

Não gostava daquilo que via abaixo de si, uma cidade que mais parecia um monstro de metal, com suas veias brilhando continuamente com os faróis dos carros e seus neurônios de neon pulsando freneticamente com milhões de terabytes por segundo, enquanto em meio a isso tudo se escondia… Não, não havia nada de certo ali. E Fernando sabia que também não havia nada de certo consigo mesmo.

Apenas a chuva destoava desta aquarela de erros, belamente idêntica a cada uma de suas memórias. Ele fechou os olhos, determinado a esquecer de tudo, nem que fosse por um instante, e apenas sentir a sensação da chuva escorrendo pelo seu rosto.

Não adiantava. Nunca adiantava.

Sua mente se inundava com memórias de dias felizes em campinas verdes e belos jardins. Felicidade em seu estado mais puro, como Fernando havia sempre imaginado. Como não deveria existir nesse mundo.

E de fato, nunca existiu.

Nem precisava dos resultados dos testes para dizer que todas aquelas memórias eram falsas. Seus pensamentos bastavam, alarmando-o sobre os males daquele mundo onde o metal impuro devorava a carne dos homens e o guiando para a construir um mundo novo e perfeito, puro, sobre a carcaça corrupta daquele antro de impurezas. Fernando percebeu a muito que não passava de uma marionete sendo guiada para um nefasto fim. E ainda assim continuava.

Fernando ouve a cidade abaixo rugir como uma besta mortalmente ferida, seus nervos luminosos brilhando uma ultima vez como supernovas antes de se apagarem para sempre.

E ali, contemplando a escuridão e o caos que havia criado, Fernando estranhamente se sentiu em paz. Ele finalmente havia encontrado seu lugar.