Identidade

Ele verifica a rua uma ultima vez antes de lacrar a janela com tábuas. Nunca havia ninguém nessa parte da cidade, mas na situação em que se encontrava, qualquer precaução era pouca. Sua atenção então se volta para seu prisioneiro, um homem que se encontra desacordado e amarrado em uma cadeira. Ele tenta reanima-lo com tapas em seu rosto e, tendo falhado, resolve então jogar água nele, o que acaba por acordar o prisioneiro.

– O quê? – Diz o prisioneiro, atordoado.

– Hora de acordar, detetive. – Fala ele, enquanto puxa uma cadeira e se senta na frente do prisioneiro – Você tem muitas respostas a me dar.

– O quê? Onde?.. Como você?.. – Pergunta o detetive, ainda confuso.

Ele suspira, se lamentando por ter batido tão forte na cabeça do outro quando o capturou. Agora precisaria dar mais cedo um incentivo para que pudesse ter alguma resposta coerente. Assim ele calmamente pega um pesado martelo e, usando toda a sua força, acerta um dos pés do detetive. O nauseante barulho de ossos sendo quebrados só é superado pelo berro de agonia do cativo.

– Acredito que agora tenho sua total atenção, detetive. – Ele fala quando os gritos diminuem – Se você responder minhas perguntas isso não precisa voltar a acontecer. Então me diga, o que vocês fizeram com a minha família?

– Você está louco! – Fala o detetive, ainda se recuperando da dor – O departamento deve estar me rastreando agora mesmo e quando eles te encontrarem…

Outra martelada interrompe o detetive, fazendo-o novamente urrar de dor.

– Resposta errada, detetive. – Ele fala calmamente – Sabe, antes de vocês roubarem minha família eu era engenheiro da prefeitura. Conheço cada ponto cego do sistema. Ninguém pode te salvar além de você mesmo. Diga onde está a minha família e eu não vou precisar te machucar mais.

– Não… Você não entende… – Responde o detetive, quase chorando.

Ele suspira e levanta mais uma vez o martelo.

– Não! – Grita o detetive, interrompendo o golpe – Eu conto tudo! Só não faz isso de novo. Sua família não existe. Nunca existiu.

Ele responde a isso martelando várias vezes os pés do detetive.

– Vocês acham que eu sou idiota? – Ele pergunta, enfurecido – Todos vocês tentando me convencer de que minha esposa e minha filha não existem! Eu vim trabalhar nessa porcaria de cidade para juntar dinheiro para elas! Todos os dias eu ligava e falava com as duas! E vocês dizem que elas nunca existiram! Eu não sei por que vocês estão fazendo isso, nem me importo. Tudo o que eu quero é minha família de volta!

– Você foi uma vitima nisso tudo. – Fala o detetive, já desesperado – Nós não sabemos ao certo quem foi, mas mexeram com sua cabeça. Alteraram sua memória. Você sempre viveu sozinho. As investigações ainda são preliminares, mas tudo indica que as ligações que você passou a fazer eram o gatilho para os ataques terroristas na cidade. Por favor, me solte, eu posso te ajudar.

– Você espera que eu acredite nisso? – Ele fala, tirando uma foto do bolso e mostrando para o detetive – Veja aqui minha mulher e filha que você diz que não existem!

O detetive olha para o foto e então, com um riso insano nos lábios, diz:

– Mas isso ai é só a foto de um sofá vazio.

Ele então golpeia novamente com o martelo, dessa vez tendo como alvo a cabeça do detetive. Ele o acerta uma, duas, incontáveis vezes, até que tudo o que sobra é apenas uma massa disforme de sangue e fragmentos de ossos.

– Isso não deveria ter acontecido… – Ele fala para si mesmo – Eu preciso de uma bebida.

Antes que ele possa sequer sair do lado do corpo do detetive, as janelas do galpão são explodidas e pelas aberturas entra um grande número de policiais, todos pesadamente armados. Ele, por instinto, tenta correr, mas os policiais o fuzilam sem hesitar.

Nos seus últimos instantes de consciência ele vê caída no chão a sua frente a foto de sua família que foi zelosamente carregada como um tesouro.

Na foto, há apenas um sofá vazio.

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