O Flautista de Marfim

As crianças descobriram o Flautista no sótão, entre as inúmeras caixas de lembranças de seu bisavô, que havia sido um viajante e explorador que conheceu as partes mais misteriosas do mundo. Tratava-se de uma elegante estatua de marfim representando um jovem de porte nobre e de aparência estrangeira, eternizado enquanto tocava uma exótica flauta. As crianças se divertiram tentando descobrir quem seria o flautista, inventando inúmeras histórias sobre  sua origem: Ele teria sido um presente de um príncipe de um reino distante, a estatua de um deus esquecido que adornava um templo que o bisavô descobrira, a ultima e esquecida obre de um grande mestre escultor… E assim as crianças se entreteram em uma alegre tarde de verão.

Em circunstancias normais o Flautista seria apenas uma boa memória de infância, uma lembrança agradável em meio a tardes de verão de um tempo em que a vida era menos complicada. Infelizmente, estas não eram condições normais.

Joaquim foi o primeiro. Um dia, pouco tempo depois das tardes de verão na casa da família, durante um café de manhã comum, o menino simplesmente agarrou uma faca e abriu a própria garganta. Tudo isso enquanto sorria. Pouco tempo depois as gêmeas foram encontradas pelos pais assim que eles chegaram do trabalho, ambas com pregos enfiados nos olhos e o mesmo sorriso. E assim foi, loucura e morte se espalhando por entre as crianças como fogo em um rastilho de pólvora.

Cristina, a mais nova, foi encontrada por seu pai quando estava prestes a se jogar da janela do apartamento de sua família. Ela foi salva por pouco e começou então a falar dos sonhos que tinha noite após noite. Começavam com uma musica suave, que vinha como um gentil chamado vindo de algum lugar distante no céu. Ela então a seguia, flutuando em direção a um ponto branco muito distante, que no começo parecia ser uma estrela, mas que se revelava como sendo um homem muito branco, como se fosse feito de marfim. De sua flauta vinha a musica que a chamava. Quando ela chegava perto seu rosto, antes uma perfeita mascara complacente, se alargava em um terrível sorriso revelando dentes pontiagudos feitos do mais puro marfim. Cristina disse que entre as notas da musica haviam sussurros que a chamavam, que lhe davam ordens, e que eles continuavam até mesmo quando estava acordada.

Das doze crianças que se reuniram naquela fatídica tarde de verão, apenas três foram salvas a tempo de serem internadas. Destas, apenas uma não cometeu suicídio durante sua estadia em manicômios. Samuel foi mantido sob observação por cinco anos, até que desapareceu misteriosamente de sua cela. Nenhum dos investigadores jamais conseguiu achar nenhuma pista sobre sua fuga ou sobre seu paradeiro. O único acontecimento estranho é uma figura que foi capitada por uma das câmeras de segurança do manicômio por menos de um segundo.

Era a imagem de um homem muito branco, cujo o sorriso revelava dentes pontiagudos como se fossem feitos de marfim.