Pactos

Elina tenta manter a calma enquanto recita o ritual, tentando ignorar os sinistros efeitos no ambiente que com certeza são seus subprodutos, como sombras se mexendo independentemente ou os agonizantes sussurros que parecem fazer coro as suas recitações. “Não importa.”, ela repete em pensamento, enquanto sua boca parece seguir um ímpeto próprio, dando cada vez mais força às palavras do ritual. Nada importava desde que ela conseguisse o que veio buscar.

O ritual chega ao ápice, as recitações se tornando gritos. Elina saca sua adaga e, com um único movimento fluido corta a palma de sua mão, derramando o sangue pelo chão como uma oferenda. E então silencio. Todo o lugar é tomado por um silencio sepulcral, que Elina consegue ouvir as batidas descompassadas de seu coração. “Será que falhou?”, se pergunta Elina. Então ela ouve os uivos.

***

– Mais chá, senhorita? – Perguntou o mordomo.

– Não… – Respondeu Elina, sem saber exatamente o que dizer ao esqueleto ricamente vestido que a servia – Por favor, chame seu mestre.

Para Elina parecia que a espera já durava uma eternidade. Sua ansiedade não a deixava aproveitar os confortos da luxuosa sala de espera em que se encontrava. No entanto isso também impedia o fato de todos os serviçais serem mortos-vivos de incomodá-la.

– Desculpe o atraso, pequena Elina. – Falou um homem entrando na sala acompanhado por uma estranha mulher, a qual ele cuidadosamente instalou próxima ao grande piano de cauda que dominava a sala. Ela começou a tocar um pequeno trecho de uma canção popular, repetidamente.

– De modo algum, lorde Giorgios. – Falou Elina, polidamente – É uma honra que tenha me recebido.

– Por favor, podemos dispensar essas formalidades e ir direto ao ponto. – Disse Giorgios, sorrindo – Afinal sou um… velho companheiro de sua mãe. Então, o que você quer de mim, pequena?

– Poder. – Respondeu Elina.

Em resposta apenas Giorgios gargalhou.

– Qual a graça? – Perguntou Elina, bastante séria.

– Desculpe, criança. – Falou Giorgios, lutando para retomar a compostura – É só que a ironia de você buscando, e aqui eu vou citar as palavras da sua mãe, minha “magia impura” para ganhar poder para vinga-la.

– Então você sabe. – Disse Elina, lutando para se manter calma diante da menção a sua mãe – Posso entender que isso significa que você aceita me ajudar?

– Claro que eu sabia. Que outro motivo você teria para me procurar? – Respondeu Giorgios – Mas isso não significa que eu vou te ajudar. Não de graça, pelo menos. Só significa que eu estou disposto a ouvir sua proposta.

Elina suspirou e alcançou um objeto em sua sacola, uma pequena bola de vidro enegrecido.

– A orbe de Shandul! – Exclamou Giorgius, esticando institivamente as suas mãos para alcançar o objeto.

– Não tão rápido. – Falou Elina, guardando a orbe – Temos um acordo?

– O seu preço é mais que justo. – Respondeu Giorgios, de bom humor – Tanto que eu irei adicionar um aviso ao acordo. Vê aquela linda senhorita ao piano? Aquela tocando a mesma melodia sem parar.

– Uma das suas criadas que não saiu certo? – Falou Elina, secamente.

– Não, não. – Disse Giorgios – Essa é minha irmã. Ou melhor o que restou dela após seguir o mesmo caminho que você está buscando. E ela ainda teve sorte. Meu outro irmão teve um destino bem pior. E então, você tem certeza de que quer fazer isso?

Elina hesitou por alguns instantes e então respondeu, cheia de convicção:

– Eu tenho.

***

A última das criaturas ainda gorgoleja com a graganta cortada quando Elina cai no chão devido aos ferimentos. “Cães negros!”, pensa ela, “Atraídos pelo cheiro de sangue, aposto. Que fim estupido.”. Nem o fato de tê-los levado consigo parece servir como consolo.

– Meus parabéns. – Diz uma voz próxima a Elina – Estou sinceramente impressionado, criança.

Elina usa suas últimas forças para se virar, e o que vê é algo que a primeira vista parece um ser humano, mas com buracos negros no lugar dos olhos e uma boca assustadoramente cheia de dentes. Se trata, sem sombra de dúvida, daquele que ela convocou, O Mestre da Escuridão.

– E então, criança? – Pergunta O Mestre – O que eu posso fazer por você? Quer viver?

– Não. – Responde Elina – Quero vingança.

Anúncios