Caminho do Céu

Vejo uma borboleta entrando pela janela do quarto e isso não deveria acontecer. Não quando chove tanto assim. Não quando se está tão alto. Ainda assim ela está ali, voando na minha frente, e de repente parando no ar, suas asas lentamente deixando de se mover como se fossem metrônomos marcando um solo do Jimmy na velocidade da luz. Eu penso em perguntar a Laila se ela também viu isso, mas desisto quando lembro que a resposta seria não. Ela nem notou e nem notaria nada. Ela apenas fica com os olhos fixos no teto, com aquele olhar vazio. Já não faz nada mais a dias, ou talvez séculos, milênios… Mas não importa. O que é o tempo para alguém que está na velocidade da luz? A borboleta olha diretamente para mim e isso me assusta como nada coisa na minha vida. Talvez seja porque ela pareça com um ponto de luz em vez de uma coisa viva, como um anjo. Ou talvez porque ela me olhe, em vez de com pequeninos olhos compostos e uma cabecinha de inseto, com o rosto de Laila. Será que estamos alto tão assim para chegar perto do céu, perto o suficiente para os anjos nos visitarem? Eu sinto como se fosse o céu, mas por toda a parte existe um cheiro de vômito, parecendo um banheiro público em dia de show. O céu não deveria ser assim, a menos que isso não seja ele. O anjo sorri ao notar que eu percebi isso. “Onde estamos?” eu pergunto. “No purgatório.”, ela me responde com a voz da Laila. “Como eu faço para chegar no céu?” eu pergunto novamente, mas dessa vez ela apenas sorri, como se dissesse que eu sei o que fazer. Eu não entendo. Eu a agarro com as duas mãos, sua luz queimando meus dedos, e pergunto de novo, mas ela apenas continua sorrindo, mesmo quando eu a aperto e sinto seu sangue quente pulsando por entre meus dedos, mesmo quando eu a devoro inteira. E depois disso eu compreendo. Me volto para Laila, com seu olhar vazio fixo no céu, mas sem conseguir alcança-lo. “Eu te levo para lá, querida.”, eu sussurro no ouvido dela e então começo a beijar ela tão forte que sinto o gosto do seu sangue em minha boca. Mas não é como deveria ser. Em vez de fluir quente e pulsante ele flui frio e estagnado. Eu me afasto e olho para ela com pena. É isso que a segura aqui, no purgatório? É algo fácil de remediar. Eu pego álcool e espalho em cima de nós e então acendo um fósforo. Quase de imediato as chamas levam embora o cheiro de vomito e trazem seu calor, o calor que faltava a tanto tempo para Laila. Existe dor, mas ninguém disse que o caminho para o céu era fácil.

Canção de Ninar

– Que triste, papai… – A menina fala enquanto tenta achar alguma esperança de final feliz no rosto sombrio de seu pai – Mas tudo terminou bem para eles, não foi? Orfeu conseguiu outro jeito de salvar Eurídice, não é?

– Não, não tinha outro jeito. – Responde o pai – Nem houve outra chance.

– Mas porque não teve um final feliz? – Ela pergunta, quase como em uma suplica – Eles não podiam ser felizes para sempre?

– As vezes as coisas são assim, minha pequena… – Ele dia afagando a cabeça da menina – Nem sempre podemos ter um final feliz. As coisas são como são, não como deveriam ser.

Há um momento de silencio enquanto a menina tenta digerir o que seu pai acabou de falar.

– Mas… – Ela finalmente pergunta, hesitante – O que aconteceu com Orfeu depois?

– Bem… – O pai responde – Muitos dizem que ele morreu por amor pouco tempo depois, incapaz de esquecer Eurídice. Mas…

– O quê, papai? – Ela pergunta com uma centelha de esperança no olhar.

– Os mais bem informados tem outra versão. – Ele diz esboçando um sorriso – Dizem que ele para encontrar paz causou sua própria morte, mas não a morte do homem, mas sim a morte da lenda. Dizem que ele criou o fim da sua própria história, deixou sua vida como o grande Orfeu para trás e passou a viver como um simples homem comum.

– E ele viveu feliz depois disso? – Ela pergunta.

– Isso só ele poderia dizer… – O pai responde, sorrindo – Pode ser que ele tenha encontrado um novo amor nessa nova vida dele e tenha tido com ela uma menina que é tão linda quanto o nascer do sol.

– Eu gostei desse final. – Ela fala, também sorrindo – Aconteceu mesmo assim?

– Ninguém pode saber com certeza. – Ele fala, dando os ombros – Mas você pode acreditar nisso se quiser.

Ela assente com a cabeça e ele responde acariciando seu rosto e então saindo do quarto.

– Agora vá dormir antes que sua mão brigue comigo por ficar te contando histórias até tarde da noite… – Ele fala já quase na porta.

– Antes me diz uma coisa, papai… – Ela fala.

– O que? – Ele responde.

– Por que seus dedos tem tantos calos assim? – A menina pergunta com seu ar curioso de criança.

– É um dos inconvenientes de se tocar harpa, minha pequena. – Ele responde com um ar saudoso.

– Mas eu nunca vi você tocando, papai! – Ela continua, no mesmo tom curioso.

– É porque isso foi em outra vida… – O pai fala antes de sair do quarto.

Suspiros

– Deveria doer.

– Deveria fazer sentido.

– Quantas estrelas existem no céu?

– Sou o que quero ser ou o que fui feito para ser?

– Será que tudo é um sonho?

– Será que eu sou só um sonho?

– E de onde vem os sonhos, afinal?

– Eles precisam vir de algum lugar?

– Tudo precisa vir de algum lugar.

– E tudo precisa ir para algum lugar.

– Para onde eu vou, é bom?

– A esperança é algo muito perigoso. É como se fosse um tratamento que não cura um doente terminal, mas o faz continuar vivendo até ele desistir…

– Talvez por isso todos acabam vindo para cá.

– Aqui não há esperança.

– E o que há então?

– O que deveria haver?

– Respostas. Um sentido.

– Não há sentido.

– Nunca houve.

– Há apenas o caos.

– Caos.

– Caos…

– Caos?

– Caos!

– Existem probabilidades.

– Existem escolhas.

– Eu fiz as certas?

– O que é o certo?

– Deveria ser claro.

– Deveria ser fácil.

– Deveria ser lógico.

– Deveria doer.

– Não.

– A vida dói.

– Não a morte.

– Faz sentido…

Cansaço

Aquele dia não tinha começado bem. Acordei com o barulho dos malditos cachorros da minha vizinha, aquela bruxa velha. Já tinha tentado resolver esse problema falando com o pessoal da central, mas a vadia era mãe de um juiz, o que tornava as coisas bem complicadas pra mim, que não tinha dinheiro pra me mudar. Morando ali eu nem consegui descansar direito. Varias vezes eu acordava todo quebrado, como se tivesse passado a noite toda zanzando ou bebendo por ai, talvez até os dois. Eu tinha acordado desse jeito naquele dia.

Fiquei na cama por alguns minutos, tentando não enlouquecer, e depois me levantei devagar, aproveitando pra olhar as horas no relógio que ficava pendurado em cima da cama. Eram menos de cinco horas. Fui ao banheiro e joguei um pouco de água no rosto antes de parar pra me olhar no espelho. Quase tomei um susto. Eu tava bem pior do que eu achava que estivesse, com um olhar de peixe morto e umas olheiras que bem que poderia ser de um figurante daqueles filmes b que passavam de madrugada. Enfim, uma cara de quem teve uma noitada memorável, daquelas que você conta pros seus netos, mas só quando eles tem idade pra ver filme de sacanagem, eu pensei. A idéia foi tão irônica que eu não pude conter uma gargalhada. Eu tinha vindo direto do meu turno na central pra casa e dormi assim que cheguei, o que foi antes do jornal. Tinha sido assim por mais de um mês, mas eu nunca consegui descansar, nunca.

O barulho no apartamento ao lado continuava, agora somado com o barulho vindo das ruas começando a ficar movimentadas, então enchi a banheira e me deitei lá, embaixo d’água e com o olhos fechados, onde havia tranqüilidade. O silencio e a escuridão eram tão estranhamente aconchegantes que tudo parecia não passar de um sonho. Me senti como se estivesse flutuando em uma rede na varanda da casa de campo, em uma daquelas tardes chuvosas de junho. E como acontecia lá, eu ouvi a Lucia sussurrar no meu ouvido, com aquelas voz suave que ela sempre fazia. Ela disse “Hora de acordar, moço”. Eu me levantei de sopetão, arfando, sem fôlego e meio confuso, olhando pra todos os lados tentado achar ela. Demorou um pouco pra cair a ficha e eu voltar pra realidade. Fiquei me perguntando porque eu me lembrei disso, até que percebi o telefone tocando.

Era o delegado, dizendo que precisavam de mim urgentemente em uma cena de crime. Pensei por um instante em dizer que estava doente e ficar em casa, mas resolvi ir. Me vesti rápido e fui pro endereço que ele me passou. Enquanto dirigia pra lá voltei a pensar na Lucia, nos bons tempos, nas tardes na casa de campo… Tentei ligar o radio pra tirar aquilo da cabeça, o que até que foi uma boa idéia, mesmo considerando a qualidade da programação das rádios. Cheguei no lugar, um daqueles prédios de conjunto habitacional. Era uma vizinhança daquelas bem tranqüilas, onde o pior que te acontece em um dia normal é uma vizinha desocupada começar a falar da sua vida. Entrei em um apartamento, depois de passar por uma pequena multidão aglomerada próxima a entrada, com certeza esperando alguma equipe de filmagem aparecer. Eu ainda estava rindo desse pensamento, quando eu vi a vitima. Lucia.

Ela tava lá sentada numa poltrona no meio da sala, vestida em um pijama rosa, bem típico dela, com o braço esquerdo pendendo em cima de uma poça de sangue enorme e a cabeça caída pro lado. E ela olhava pra mim. Pode parecer delírio meu, e talvez até seja, mas ela não tinha aquele olhar vazio que vem com a morte. Ela me olhava fixo, e tinha aquela expressão no rosto como se quisesse me dizer, me perguntar alguma coisa. Naquele momento, olhando pra ela desse jeito, eu me senti como um daqueles coelhos que ficam hipnotizados com os faróis de um caminhão vindo pra cima dele a mais de 100 por hora. Fiquei assim até o legista conseguir chamar minha atenção. Ele me perguntou se eu tava bem e eu disse que só tava um pouco distraído, e fui ver o que já tinham descoberto por lá. Ele me disse para eu nem perder tempo com isso, apontando pruma mesinha onde tinha colocado os sacos plásticos com as evidencias. Lá estavam uma faca e um punhado de ampolas de morfina. O legista me disse que era só mais uma drogada que acabou se matando, e pela quantidade de morfina nem deve ter notado que fez isso. Ele me pediu pra assinar os papeis e dar o caso por encerrado, mas eu senti que tinha algo de errado, não só por causa da investigação superficial, que naquele tempo tava virando rotina em casos assim porque toda atenção da mídia e, consequentemente, da policia estavam voltadas pro maníaco do martelo, que já tinha matado quinze em menos de um mês, o que negligenciava os outros casos, mas porque eu senti que algo tava errado. Era como se fosse uma voz me dizendo que tinha algo mais ali.

Liguei pro delegado pedindo pra assumir o caso. Ele ficou um pouco irritado, mas no final acabou deixando, afinal ele sabia que eu não tava em condições pra ser útil no caso do maníaco, com a condição de eu ter investigar sozinho, porque ele não podia “desperdiçar” mais nenhum homem. Eu concordei. Logo levaram o corpo embora e essa foi a ultima vez que eu vi a Lucia. Ver ela indo embora assim me lembrou quando ela se foi pela primeira vez, um pouco antes do meu velho ficar doente. Tratei de esquecer isso e me concentrar no trabalho.

Fiquei sozinho o resto do dia revirando a casa procurando por alguma coisa que a perícia pudesse ter deixado passar. Nada. Na verdade essa foi a primeira coisa que confirmou minhas suspeitas de que tinha algo errado ali. Estava tudo limpo, sem nenhuma marca ou digital. A única coisa que havia fora de lugar era um espelho quebrado no banheiro, mas fora isso era como se ninguém vivesse ali, ou então alguém tivesse limpado bem demais seus rastros. Também tentei descobrir algo sobre a vida dela, com um pouco de esperança de achar alguma foto minha guardada em alguma gaveta, mas não tive muito sucesso nisso também. Sai da minha busca com nada mais que suspeitas e eu precisava de alguma coisa bem mais concreta se quisesse levar esse caso adiante. Pensei em interrogar os vizinhos, mas era muito tarde pra isso então ia ter que esperar até o outro dia.

Quando estava saindo dei de cara com uma velha vestindo um robe e que parecia estar encostada na porta tentando ouvir o que acontecia lá dentro. Ela deu um pulo pra trás quando eu abri a porta, o que teria me feito gargalhar se meu humor não estivesse tão sombrio, e eu perguntei rispidamente o que ela queria ali. A velha tratou de se recompor, assumindo uma postura bem arrogante, em uma tentativa de parecer digna naquela situação e disse que tinha informações valiosíssimas para a minha investigação, o que, mesmo que eu odeie admitir, era verdade. A senhora Torres, ou Hermeciana Castro Torres, como ela orgulhosamente se apresentou, havia achado naquela tarde, enquanto revirava a caixa de correio da Lucia sob o pretexto de enviar os pêsames pros remetentes das cartas, uma caixinha de madeira trancada por um cadeado e achou que poderia ter algo importante pra minha investigação. Agradeci friamente pela solicita colaboração e segui meu caminho levando comigo a caixa, o que deve ter deixado ela bem irritada.

No carro eu examinei a caixa. Era bem simples, mas parecia bastante resistente, assim como o pequeno cadeado, que tinha algumas marcas indicando que a curiosidade da senhora torres era muita, mas o talento pra arrombadora era pouco. Era realmente um cadeadozinho bem difícil de abrir e eu, sem mais paciência, usei o alicate que tinha no porta luvas. Dentro da caixa tinha um pequeno álbum recheado de fotos da Lucia. A maioria parecia ter sido tirada em alguma excursão pelo nordeste, mas as fotos finais do álbum tinham a casa dela como cenário e em varias dessas aparecia junto dela um homem cujo rosto estava cuidadosamente recortado. Fui até a central pra poder examinar tudo com mais calma. Agora eu tinha um suspeito e com um pouco de sorte ele poderia ter deixado escapar alguma foto intacta, mas não havia nenhuma. Ele havia sido bastante meticuloso, mas deixou as fotos em um lugar que mais cedo ou mais tarde alguém iria encontrar, o que só podia significar uma coisa: ele tava me desafiando.

Comecei a pensar no que eu faria se quando encontrasse o infeliz e sorria imaginando coisas que fariam o Saddan chamar o pessoal dos direitos humanos. Também pensei no que faria se tivesse encontrado a Lucia viva. Talvez diria muita coisa, talvez deixaria o silencio falar por mim… E assim enquanto eu viajava o tempo passou e logo era de manhã. Comi alguma coisa no botiquim da esquina e voltei pro prédio da Lucia.

Era uma manhã de sábado então todos provavelmente estariam em casa, e de fato estavam. Interroguei minuciosamente todos os moradores do prédio, onze pessoas no total, e o porteiro, esse que cochilava quando eu cheguei. As respostas foram sempre as mesmas: Lucia era uma boa vizinha, simpática mas muito reservada e ninguém notou nada de estranho na noite da sua morte. Quanto ao sujeito das fotos alguns haviam visto ele freqüentando o prédio fazia mais ou menos um mês, mas ninguém reparou no sujeito. O porteiro disse que era daquelas pessoas tão comuns que não se tem como se guardar na memória.

No fim da tarde só havia uma moradora que eu não havia interrogado, e que eu deixei por ultimo tanto por ter certeza que seria uma conversa muito desagradável, que de fato foi.Ela me recebeu de cara fechada e eu tive que ameaçar prender ela por obstruir uma investigação pra ela começar a responder minhas perguntas, mas as respostas dela compensaram o esforço. Embora a parte sobre Lucia tenha sido um desperdício de tempo, pois a velha insistia em dizer que ela devia ser alguma criminosa foragida, porque não trabalhava e mal saia de casa mas tinha sempre dinheiro, ela disse que observara bem o sujeito da foto. Ela disse que ele apareceu um dia a cerca de um mês e que foi recebido pela Lucia como se fosse um velho conhecido, “Provavelmente um velho comparsa”, e que ele aparecia regularmente desde então, sempre de noite, depois das oito. E o mais importante, ela disse que lembrava do sujeito nos mínimos detalhes. Eu disse que voltaria no outro dia de manhã com um desenhista da policia pra fazer o retrato falado e ela ficou ainda mais irritada, pois iria perder a missa dominical. Eu disse que havia outro jeito e que de qualquer modo uma boa ação como essa ia garantir o pedacinho dela no céu. Assim eu liguei pro desenhista, marquei com ele pra fazer o retrato falado pela manhã e fui pra casa.

Eu tava morto, mas satisfeito porque achava que tava na pista certa, e assim que cheguei me joguei na cama e apaguei, sem nem ao menos trocar de roupa. Fui acordado de manhã pelo telefone tocando. Eu me sentia ainda mais cansado, como se não tivesse dormido nada, e tinha uma estranha dor no braço. Atendi o telefone e era o pessoal da perícia, me avisando que a senhora Torres foi encontrada morta.

Nem perdi tempo trocando de roupa e fui direto pra lá. Logo quando eu cheguei notei a mesma aglomeração de dois dias antes, mas dessa vez todos muito mais tensos com a possibilidade de alguém mais ser vitima desse misterioso assassino. Dentro da casa da velha haviam claros sinais de luta e uma corda sinistramente pendurada na varanda. Os peritos me disseram o que era obvio: que ela havia sido assassinada. Ao que parecia, no entanto é que ela tinha marcas nos dentes que indicavam que ela conseguiu morder o agressor antes de ser morta por ele e que possivelmente iriam ter Algumas amostras de DNA, mas eu duvidei. Ele era muito meticuloso pra isso. Deixei eles cuidando da casa da senhora Torres e fui ver se o assassino tinha voltado pra casa da Lucia. Lá não havia nada de diferente, mas por alguma razão eu achei que havia algo de errado com o espelho quebrado no banheiro.

Verifiquei ele com cuidado, e quando tirei do lugar um pedaço dele encontrei vários pedaços de fotos cuidadosamente recortados. Todos com o meu rosto. E todos batendo perfeitamente com as fotos recortadas do álbum. Eu fiquei ali horrorizado, me recusando a acreditar, até que varias memórias inundaram minha mente, como se fossem invasores de algum outro mundo. Era memórias de noites insones andando pela cidade, do reencontro com Lucia, de noites com nós dois juntos naquele apartamento e da sua morte. Então eu puxei a manga da camisa que cobria meu braço que doía e lá estava uma marca bastante profunda de uma mordida. Me desesperei, joguei os recortes na privada, dei a descarga e então sai apressado.

Fui direto pro meu carro e dirigi a toda pra casa, sem conseguir esboçar um pensamento racional, só o mais puro e completo pavor. Aquilo mais parecia um pesadelo. Só podia ser um pesadelo. Tinha que ser. Mas não era. Quando cheguei em casa, me tranquei no quarto e comecei a pensar no que fazer. Foi quando eu percebi duas coisas: primeiro, o silencio que pairava naquele apartamento, como nunca aconteceu antes, e segundo, uma mensagem escrita na parede, acima da cabeceira da cama. Essa mensagem estava escrita em sangue, com três línguas pregadas na parede ao lada dela, uma delas humana e as outras de cachorros. A mensagem dizia “BOM DESCANÇO”. Então eu percebi que só havia realmente uma coisa que eu poderia fazer. Fui ao banheiro, enchi a banheira até a borda e então me deitei lá, de olhos fechados. Flutuando naquela aconchegante escuridão sem som me senti como se estivesse na casa de campo, deitado com a cabeça no colo da Lucia, assim como nas tardes tranqüilas dos tempos felizes e ali eu fiquei. E enfim pude descansar.