Dia de Chuva

Maria acordou confusa. Tinha a sensação de que algo de errado estava acontecendo, mas não conseguia se lembrar o que era. Era como se estivesse anestesiada, tendo apenas aquele sentimento de anormalidade enquanto ela sentia os pingos grossos de chuva caindo sobre si e os ouvia bater com força sobre o chão áspero em que estava deitada. “Onde está o carro?” ela se pergunta, e a resposta a atinge como um raio. Um acidente, e agora ela estava deitada em alguma estrada. Ela tenta se levantar, mas uma fisgada de dor a impede de levar esse plano adiante.

– Ei, melhor parar de tentar se mexer. – Soa uma voz um pouco distante vinda da estrada atrás dela.

– O quê? – responde Maria ouvindo o som de passos sobre vidro quebrado ficar cada vez mais próximo.

– Você tem que ficar parada quando sofre um acidente desse tipo. – Fala Marco, se abaixando próximo a ela e tirando delicadamente o seu cabelo de cima do rosto. – Você foi jogada pra fora do carro. Se tentar se mexer pode acabar piorando alguma fratura na coluna ou algo do tipo. Por isso que eles colocam aqueles coletes no seu pescoço, saca? Alias, você está bem? Quero dizer, relativamente falando.

– Acho que eu quebrei o braço. – Maria responde com uma voz fraca – E o resto tá doendo muito.

– Isso é bom, sabia? – Fala Marco se encostando no barranco próximo de onde ela estava deitada – Pelo menos prova que os seus nervos tão funcionando bem. Ruim seria se você não tivesse sentindo nada.

– A gente não devia sair daqui? – Pergunta Maria – Se passar algum carro…

– Relaxa. Nós estamos no acostamento. Alem disso, nada de se mexer, lembra? Eu não quero ser o responsável por você ficar numa cadeira de rodas.

– Mas você tá andando por ai como se não fizesse diferença!

– Porque no meu caso não faz mesmo. Já to morto de qualquer modo. – Fala Marco, mostrando o pulso esquerdo com um corte bastante fundo de onde jorrava muito sangue – Um pedaço do para brisa… Muita sorte, não acha?

– Para de falar assim e vai estancar logo isso, senão você vai morrer mesmo!

– Não adianta. Acertou a veia. Alem do mais eu acho que é melhor tentar aproveitar meus últimos momentos do que ficar tentando evitar o inevitável.

– Então porque você está aqui?

– Que raio de homem eu seria deixando você sozinha numa situação dessas? Alem do mais agora eu estou fraco demais para me levantar daqui…

Ambos ficam em silencio por alguns instantes, Maria percebendo o olhar de Marco ficar lentamente mais e mais perdido.

– Ei, Marco! Fala comigo! – Grita ela desesperada.

– Um belo dia esse, não acha? – Fala ele com uma voz baixa, dirigindo seu olhar perdido para cima – Uma boa chuva… E está dando até pra ver a lua… Com certeza um ótimo dia pra se morrer.

– Para de falar assim, droga! A gente vai sair dessa, o resgate chega logo, você vai ver!

Marco se vira lentamente e olha para Maria com seus olhos sem mais foco algum.

– Não fica assim, vai. – Diz ele esboçando um sorriso tranqüilizador, do tipo que os que os pais usam para acalmar seus filhos – No fim tá até bem melhor do que eu imaginei. Sempre pensei que fosse morrer sozinho, sabe? Tá ai… Também nunca pensei que fosse morrer sorrindo…

Maria não disse mais nada, apenas fechou os olhos e começou a esperar enquanto que a chuva continuava a cair, sem promessa de parar.

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