Consequencias

– Acorde, cabra! – Grita Firmino enquanto joga um balde de água em Emanuel, que acorda desesperado ao se dar conta que que está acorrentado a uma cadeira.

– Que é isso, home? – Fala Emanuel enquanto tenta em vão se soltar – Que brincadeira é essa?

– Né brincadeira, não. É cuidado profissional, sabe? – Responde Firmino, que calmamente puxa um banquinho para frente do seu interlocutor – Fazia muito tempo que eu tive de trazer alguém vivo aqui. Você não acordava de jeito nenhum, achei que tinha batido muito forte na sua cabeça. Se eu tivesse rachado seu coco o patrão ia ficar brabo. Pra falar a verdade foi sorte sua acordar com a água, porque senão eu ia ter de usar meu outro truque: pegar esses jacarés aqui, ligar um na bateria do carro e outro no seus ovos. Home, juro pelo nosso senhor, teve um cabra que eu fiz isso que deu um pinote tão grande que eu achei que fosse pocar as correntes.

– Que loucura é essa, Firmino? – Insiste Emanuel, agora pálido – Por que que eu tô aqui amarrado?

– Ah, não se faz de besta, Emanuel! – Fala Firmino – O patrão já sabe que você tá se engraçando com a mulé dele. Contratou até um detetive da capital pra tirar foto.

– Ah… – Diz Emanuel.

– Se fosse uma ocasião normal ele só me mandava meter uma bala na cabeça e resolvia tudo. – Diz Firmino, friamente casual – Mas se tem uma coisa que deixa um sujeito doido é gaia. O home tava espumando, os zóio pareciam que iam explodir. Disse que era preu te pegar vivo, que ele queria te capar pessoalmente. Agora me diga, Emanuel. Você é um sujeito inteligente, estudado, fez universidade lá na capital, todas as novinhas daqui desse interior todo… Então pra quê diabo você foi bulir com a mulé do coronel?

– E se eu lhe disser que foi amor? – Pergunta Emanuel.

– Amor? – Responde Firmino em meio a gargalhadas – Pois bem. Lhe digo uma coisa: se você conseguir provar que ama mesmo a dona Flavia eu lhe solto e te deixo ir.

– Oxe! – Exclama Emanuel – E como eu posso te provar?

– Fácil. Você só vai ter explicar uma coisa. – Fala Firmino – Nesse amor todo, onde entra você comendo a Lucinha toda quarta à noite, quando o marido dela vai ver o jogo no bar?

– Ok, você me pegou. – Responde Emanuel, rindo – É só um jogo, cara. Você vê esses cabras, tudo rico, poderoso, tem tudo. Então eles catam umas moças bonitas, prendadas, só como troféu pra esfregar na cara da gente. E do mesmo jeito que um troféu, deixam as bixinhas num canto pegando poeira. Me diga se não vale dar uma alegria pra elas?

– Você que me diz. – Fala Firmino – Não vou eu que vou ser capado por isso.

– Ele pode fazer o que quiser. – Continua Emanuel, desafiador – Sempre soube que ia terminar assim. Ele pode me capar, me matar, mas vai ser sempre o corno. Até o ultimo dia dele nessa terra, quando ele fechar os olhos vai ver minha cara rindo dele.

– Bom, já já você vai poder testar se tá certo. – Diz Firmino – Olha o carro do patrão ali. E o home deve estar possesso para dirigir desse jeito.

O carro para subitamente próximo aos dois e do lado do motorista desce sua única ocupante: Flavia, que se aproveita da surpresa de Firmino para crivá-lo de balas.

– Você está bem, meu amor? – Pergunta Flavia se aproximando de Emanuel o suficiente para que ele veja seu olhar perturbado – Ele te machucou?

– Não, amor. – Responde Emanuel – Agora me solta, por favor.

– Daqui a pouco, meu amor. – Fala Flavia, pegando os jacarés e ligando uma das pontas na bateria do carro – Antes você vai ter que me explicar o que fazia com a Lucinha nas noites de quarta?

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