A Rainha do Palácio de Cristal

– Hora de dormir, princesa. – Ele fala, colocando a menina delicadamente na cama e a cobrindo.

– Mas ainda é tão cedo! – Ela protesta, fazendo um biquinho.

– Cedo também é a hora que você precisa acordar amanhã, princesa. – Ele responde, vendo tanto da mãe dela nessa expressão que mal consegue conter o riso – E você sabe como Alexia fica quando você acorda com sono demais para as lições.

Ele continua fazendo uma careta, da qual os dois riem com alegria e cumplicidade.

– Mas acredito que temos tempo para uma história. – Ele continua, assumindo uma postura teatral – “Quando o mundo ainda era jovem as forças da escuridão reinavam. Neste mundo sombrio nasceu uma jovem…”

– Você já contou essa! – Ela interrompe – Mais de uma vez.

– Huuum… – Ele responde um tanto desconcertado – E que tal da batalha dos ventos leves, quando a Rainha liderou as forças da luz contra o grande dragão das profundezas?

– Também já contou. – Ela fala, com uma expressão desanimada.

– A unificação do reino? A coroa solar? A conquista de Arcádia? – Ele pergunta.

– Já. Já. E já. – Ela diz – Duas vezes. Você já me contou todas as histórias da Rainha.

– Não. Todas não. Ainda falta uma. – Ele fala em um tom sombrio – Pois bem, acho que já é hora de eu te contar.

“Todas as forças da escuridão, que por eras dominaram toda a terra, foram expurgadas. A Rainha então governava em um mundo unido e pôde finalmente cumprir seu juramento de se casar com seu verdadeiro amor. Pela primeira vez desde a aurora dos tempos a humanidade estava verdadeiramente em paz. E por um tempo, foi bom.

Mas a escuridão não havia sido destruída. Derrotada, e enfraquecida ela esperou, até que a paz se tornasse indolência, até que seu perigo fosse esquecido e a vigilância abandonada. Então, insidiosamente ela retornou. Não mais com monstros, lordes poderosos ou feiticeiros que desafiavam as próprias leis da realidade. Agora a escuridão atacava com sussurros e ideias, se aninhando naqueles de coração e espirito fraco. Mesmo a Rainha, com sua infinita sabedoria, não percebeu.

Então em uma fatídica manhã, um homem apareceu às portas do palácio de cristal, exigindo falar com a Rainha. A capitã da guarda teria jogado o homem na prisão, mas a Rainha, em sua bondade, concedeu uma audiência. O homem se identificou como “O mensageiro da luz”, dizendo que havia sido agraciado com uma visão vinda dos reinos divinos. Ele disse que a Rainha havia se corrompido pela escuridão, protegendo em seus domínios bruxos e hereges e que a luz o havia enviado para fazê-la retornar para o caminho certo. Sob sua orientação, ele disse, a Rainha deveria caçar os feiticeiros e destruir aqueles que haviam se desviado do caminho por ele indicado. A Rainha, claro, não concordou com estas loucuras e ordenou a prisão daquele louco. Antes que os guardas pudessem fazer algo o mensageiro a atacou com uma adaga que ele havia escondido em seu manto. A Rainha se defendeu e, pela primeira vez, derramou o sangue de um homem. No dia seguinte as rebeliões começaram.

No início parecia que eram incidentes isolados. Umas poucas cidades e vilas, nada que a guarda real, mesmo uma acostumada com os tempos de paz, não pudesse conter. Mas a cada embate a determinação dos rebeldes aumentava. E a cada momento seus membros realizavam atos mais perversos, até coisas inimagináveis para o mais embrutecido veterano das guerras contra as forças da escuridão, para alcançar a vitória. Em menos de um ano, tudo o que restava dos domínios da Rainha eram sua capital e o palácio.

No dia da ofensiva final a Rainha convocou sua capitã da guarda e o jovem mago real. Ela ainda era uma figura imponente, mas a derrota iminente deixara marcas. A face que antes radiava de alegria agora era marcada pela dor da perda de seu amado rei. Sua armadura trazia marcas e rachaduras. Mas em suas mãos, perfeita e imaculada, estava a pequena princesa, sua herdeira nascida pouco antes do começo da rebelião. “Esta é nossa esperança.”, disse a Rainha, “Cuidem dela. Essa é sua missão. Fujam com ela e a criem para que um dia ela possa fazer a luz voltar a brilhar neste mundo.”. Os dois aceitaram a ordem e fugiram com a herdeira.

Naquela noite a cidade caiu e o próprio palácio de cristal queimou. O mundo se rendeu novamente as trevas. E naquela noite o mundo mudou. Foi como se a Rainha e todos os seus feitos nunca tivessem existido.

Mas ainda há esperança. As forças da escuridão nunca encontraram a herdeira. E um dia ela se erguerá e, assim como sua mãe fez, banirá a escuridão e trará paz ao mundo.”.

– Que triste. – Ela diz, com os olhos cheios de lágrimas.

– Eu sei, querida. – Ele responde – Mas um dia tudo isso vai mudar e a luz retornará. Agora, durma, amanhã será um dia longo.

– Boa noite. – Ela fala, se aconchegando em seu travesseiro.

– Boa noite, princesa. – Ele diz, saindo do quarto.