Terra dos Sonhos

Não sei dizer como isso aconteceu. Na verdade, até hoje eu nem tenho idéia do que exatamente aconteceu, quanto mais o que causou ou o porquê. Tudo o que sei é que para mim começou com um despertar. Foi como acordar de um daqueles sonhos que é tão bom que se fica triste por acordar e descobrir que era só um sonho. Não era algo que me aconteceu muito antes, mas não era nada que chamasse minha atenção. Eu levantei e tomei banho normalmente, como se nada tivesse acontecido, e então fui tomar café. Na verdade enquanto eu estava em casa a única coisa estranha que eu notei foi o fato de todos os canais da tv estarem fora do ar, mas até ai não parecia nada mais alarmante do que um fio solto ou um blecaute na distribuidora do cabo. Eu só fui perceber que havia algo errado quando sai de casa e não vi ninguém. Nenhuma alma viva pelas ruas, a cidade vazia e silenciosa como em um daqueles filmes de zumbis, nas cenas anteriores a aparição de alguma horda canibal aparecer virando uma esquina. De fato isso era o que eu esperava que acontecesse quando eu me dei conta que algo estava acontecendo. Eu via filmes demais na minha juventude. Voltei correndo para casa e fiquei olhando pela janela esperando alguma movimentação. Nada. Depois de algumas horas a curiosidade acabou vencendo meu medo e eu resolvi explorar os arredores. Comecei pela casa dos meus vizinhos, um casal simpático de velhinhos que me deu todo apoio desde que eu havia me mudado e haviam me dado uma copia da chave da casa dele no caso de alguma emergência. Ainda meio paranóico com a história dos zumbis eu entrei na casa com uma barra de ferro em mãos, esperando um ataque sanguinário a cada porta que eu atravessava. No fim, para minha surpresa e alivio eu os encontrei dormindo em seu quarto, ambos com um sorriso de satisfação no rosto como eu nunca havia visto em alguém antes. E o meu alivio logo se tornou preocupação novamente quando eu tentei acorda-los e não consegui de maneira alguma. Voltei para casa e tentei ligar para meus amigos, meus pais, qualquer um, mas ou os telefones não tinham sinal ou tocavam incessantemente sem ninguém atender. Invadi algumas casa na vizinhança e em todas elas a mesma coisa, os moradores dormindo com sorrisos de satisfação extrema nos rostos. Aquele primeiro dia foi terrível. Passei a noite em claro tentando entender o que estava acontecendo, esperando alguma resposta aparecer e temendo o sono, mas nenhum dos dois veio até hoje. Nos primeiros dias eu achei natural não dormir, afinal quem conseguiria dormir com toda aquela tensão? Mas depois não foi ficando mais difícil ficar acordado. O sono simplesmente não vinha e eu deixei as coisas ficarem por isso mesmo. Quanto as respostas… Nessa área eu fui um pouco mais incisivo. Primeiro procurei em todo o lugar alguma pista, por mais insólita que fosse do que havia acontecido e quando isso se provou infrutífero eu me voltei para os que dormiam. Tentei de tudo para acorda-los, mas não importava o que eu fizesse ele nem sentiam e continuavam com aquela expressão de satisfação no rosto. Mesmo quando eu os esbofeteava. Mesmo quando eu os esfaqueava. Mesmo quando eu os queimava vivos. E então eu desisti. Pode ser que esse tenha sido o fim do mundo, um desastre natural, não importa. O que importa é que só me resta esperar, esperar a cada longo dia e cada infinita noite. Sozinho. As vezes, no entanto, eu me pego observando um deles e me perguntando. Me pergunto como eu consegui escapar, o que de tão bom eles sonham e, mais importante de tudo, se algum dia eu poderei me juntar a eles.

Ultimo Adeus

Em um pequeno cemitério publico repousa abandonado um caixão bem simples junto a uma cova aberta pela metade, pois os coveiros fizeram uma pausa no serviço devido ao horário de almoço. É uma tarde de verão, daquelas de céu azul e clima ensolarado que convidam a um dia na praia com a família, passeios no parque e outras atividades tão simples e banais quanto prazerosas, e o homem que chega perto do dito caixão destoa absolutamente de tudo isso. Ele está vestido com um elegante terno preto e se porta de maneira formal e educada até mesmo enquanto anda despreocupadamente pelo cemitério vazio e tenta proteger com as mãos seu rosto do sol escaldante.

– Você tem que admitir que o destino tem um enorme senso de humor. – Ele fala, sorrindo debochadamente – Afinal se não fosse ele teria ao menos providenciado um pouco de chuva. Isso é clima para se fazer bebês, não para um enterro.

O homem por um tempo procura algum lugar para se sentar e não encontrando nenhum banco ou ao menos uma lapide em condições razoáveis, se senta sobre o monte de terra deixado pelos coveiros ao lado da cova meio aberta.

– Sabe, esse final pode ser muito irônico, mas de forma alguma é inesperado. – Ele fala novamente – Eu sei que é muito tarde para eu me gabar, mas você não vai me negar o prazer de um “Eu te avisei.”, vai?

O homem então faz uma pausa, como que esperando por uma resposta de seu interlocutor, e depois de um tempo prossegue como se tivesse tido uma resposta.

– Ora, vamos, eles poderiam ter feito bem melhor que isso. Na verdade, – Ele fala olhando em volta – Nem eu poderia ter previsto que seria assim tão ruim. Ser deixado para apodrecer sob o sol do verão por uma dupla de coveiros mal pagos enquanto a única pessoa que vem te visitar sou eu não se encaixa nem nas minhas visões mais pessimistas sobre essa ocasião.

Novamente o homem faz uma pausa, dessa vez olhando distraidamente para a rua alem dos muros do cemitério, onde o transito continua caótico e movimentado como seria de se esperar de uma tarde normal em que nada de extraordinário acontecera.

– Eu aposto que mesmo assim você deve estar dizendo para si mesmo que valeu a pena, não é? Vivia me dizendo que tudo que fez e tudo que sacrificou valia a pena pelos olhares agradecidos daqueles que você salvava. E onde estão as pessoas com olhares agradecidos agora? Onde estão as lagrimas, os cortejos militares e as multidões em pranto? A julgar pelo horário, – Ele diz olhando para seu relógio de pulso – eles devem estar almoçando enquanto vêem televisão. Eu sei, eu sei, você nunca ligou para grandes eventos assim e tudo mais, mas convenhamos que ao menos deveria poder partir com alguma demonstração de gratidão e respeito, não acha? Mas no fim é como eu sempre te falei, eles nunca ligaram para você. Te achavam útil para proteger eles de gente como eu, mas quando você perdeu sua utilidade eles te abandonaram com menos consideração do que teriam a um cachorro vira-latas.

O homem então começa a rir alto e continua assim por um bom tempo, até ter que parar por falta de fôlego.

– Você deve estar se perguntando o que eu estou fazendo aqui, não? – Ele continua – Que pergunta tola, meu velho. Você acha que eu perderia a chance de me vangloriar diante de sua cova? Se bem que isso não é exatamente o que eu esperava. Tira um pouco a graça da ocasião, sabia? Foi como quando eu soube da sua morte.

O olhar do homem em direção do caixão muda instantaneamente do deboche para o mais puro ódio.

– E você nem ao menos me deu o gosto de te matar. – Diz ele com a voz carregada – Nem ao menos me deixou ter esse gostinho. Mais uma vez você me frustrou, e tudo isso para quê? O que você conseguiu, hein, herói? Morrer agonizando, esquecido em um leito sujo em um hospital publico qualquer. Ser deixado as moscas em um cemitério sem ninguém nem ao menos se importar. Pois eu te digo que você teve o que mereceu!

O homem se levanta e furiosamente começa a andar na direção da saída, mas no meio do caminho ele para e volta, parando dessa vez ao lado do caixão, com uma expressão misturando tristeza e um leve arrependimento.

– Me desculpe, sim? Eu não deveria ter dito aquilo, mesmo sendo verdade. – Ele fala com a voz embargada – É que depois de um tempo, depois de tantas lutas, a única coisa que importava era tirar você do caminho. Mas agora que finalmente tenho isso… É tão vazio, sabe? Sem você para tentar me deter a coisa toda perde um pouco o sentido. Não é engraçado isso? No fim a pessoa que vai sentir mais falta de você, e a única, ouso dizer, sou eu, seu pior inimigo.

Nesse momento os coveiros começam a retornar do almoço e o homem ao perceber isso recompõe sua expressão de deboche.

– Bem, bem, foi uma cerimônia muito bonita, mas agora é hora de eu me despedir. E não se preocupe quanto a os seus protegidos que agora estão órfãos. Eu irei cuidar muito bem deles. – Ele fala, se abaixando para próximo do caixão e sorrindo malignamente – Não vou descansar até garantir que cada um deles receba o que merece.

O Colecionador de Borboletas

Isabel tentava se distrair enquanto esperava impacientemente para terminar aquele trabalho e ir embora. Não que aquele homem fosse insuportavelmente feio, ou que a houvesse tratado mal, longe disso, pois ele era um amante gentil, atencioso e com certeza sabia muito bem o que fazia, pois a havia feito ter o que ela relutantemente considerava o melhor orgasmo de sua vida. Ela riu para si mesma ao pensar que seu namorado nunca conseguiu agrada-la tanto assim, nem ele nem nenhum dos anteriores. “Foi uma boa idéia ter esse trabalho, afinal.”, ela pensou enquanto mordia os lábios lascivamente e acariciava seu pescoço que doía levemente por causa de uma mordida de seu cliente, admitindo para si mesma que entrara naquela vida por diversão ao invés de ser para pagar a faculdade como insistia em dizer. Mas mesmo assim não conseguia relaxar. Ela rola na cama pensando no que poderia ser que a incomodava. Talvez fosse pela aparência dele, que era um homem alto e esguio, com dedos compridos e leves e um olhar que por algum motivo a fazia lembrar de uma aranha observando um inseto preso em sua teia. Talvez fora o fato dele ter percebido que um de seus olhos era verde e o outro era azul, pois ela estava usando lentes de contato pretas, e os elogiado como sendo “Uma beleza muito rara e preciosa.”. Isabel por mais de uma vez pensou em sair correndo daquela casa, mas abandonou esses pensamentos ao racionalizar o que sentia como simples nervosismo, pois ela nunca havia estado em uma casa tão grande e luxuosa. Apenas o quarto onde estava era pelo menos o dobro do tamanho de seu apartamento. Ela, para afastar seus pensamentos preocupados e matar o tempo enquanto seu cliente está no banheiro, resolve explorar o lugar para ver que tipo de decoração aquele ricaço excêntrico mantinha em seu quarto. Assim ela começou a perambular pelo quarto, nua e com o andar sensual de uma pantera mas com o olhar curioso como de uma menina. De inicio ela não viu nada de diferente ou que lhe chamasse atenção, apenas as coisas de sempre: Antiguidades, quadros feios mas que provavelmente valiam mais do que ela ganharia a sua vida toda… Então, na parede mais afastada de onde ela estava deitada, ela se deparou com algo que nunca havia visto antes. A parede toda estava coberta por borboletas, de todos os tipos, tamanhos e cores, todas organizadas e alfinetadas com precisão milimetrica. Isabel ficou deslumbrada com toda aquela beleza, mas também sentiu aquela sensação de desconforto voltando mais forte do que nunca. Havia algo muito errado ali, apesar dela não conseguir de forma alguma determinar o que é. Então ela percebeu. As borboletas, todas elas que cobriam aquela enorme parede, se mexiam, se debatiam levemente em uma agonia imensuravel e praticamente imperceptível contra o alfinete que as transfixava.

– Lindas, não é mesmo? – Soou uma voz detrás de Isabel.

Ela se virou e viu seu cliente de pé sorrindo docemente para ela. Ele vestia um jaleco impecavelmente branco, usava luvas de látex e brincava distraidamente com um alfinete entomológico em uma das mãos. Isabel tentou gritar mas percebeu que sua voz não respondia e que seu corpo todo tinha uma estranha dormência que parecia emanar do seu pescoço.

– Não precisa ficar tão exaltada, querida. – Fala o cliente, acariciando o rosto de Isabel, que não conseguia mais mexer nem um músculo de seu corpo – Você está nas mãos de um amante da beleza, afinal. E a sua, minha querida, é uma beleza rara e muito, muito preciosa. Assim como a de cada uma delas.

Shirley observa encantada a imensa coleção de borboletas que ocupa toda uma parede do imenso quarto do seu cliente, especialmente entretida por uma pequena borboleta com uma asa verde e outra azul.

– Lindas, não é mesmo, minha querida? – Fala o cliente depois de lhe dar uma mordida no pescoço que lhe arranca um gemido de dor e prazer – Belas e preciosas, cada uma delas. Assim como você.

Como um Gato com Listras de Tigre

Alex bebia, tão perdido em seus pensamentos que nem percebia que era o ultimo cliente do bar, ou se percebia não dava a mínima para isso. O barman o observava com um misto de cautela e pena, como ele sempre observava aqueles que ficavam pelo bar depois sozinhos que todos foram embora. Sua experiência dizia que sempre havia uma razão para isso e ela nunca era boa.

– Ontem foi um dia difícil, companheiro? – Pergunta o barman sorrindo com simpatia.

– Foi sim. – Alex responde sem tirar os olhos do seu copo cheio de bebida – Mas hoje as coisas vão ser bem mais fáceis.

– Que bom. Posso perguntar quais são as boas novas de hoje, companheiro? – Continua o barman forçando um tom de entusiasmo.

– É que hoje eu vou morrer. – Fala Alex finalmente olhando para o barman e sorrindo um sorriso feroz.

O barman recua diante daquela resposta e antes que possa retomar a conversa ele vê um homem entrando no bar. Ele esboça uma menção de dizer que o bar está fechando mas para ao reconhecer o homem que acabou de entrar. Não que o barman possa dizer que conhece aquele homem, mas em seu ramo é impossível não ter ouvido histórias e conhecer a reputação de alguns sujeitos e aquele é um dos que se quiser beber quando o bar estiver fechado ele irá beber. O homem no entanto parece ignorar o barman e vai na direção de Alex, chegando bem perto de onde ele esta sentado.

– Olá Cid. – Fala Alex, sem fazer menção em se virar – Já ouviu a história do gato com listras de tigre?

– Já sim. – Responde Cid com um sorriso que gelou o sangue do barman e o fez recuar ainda mais – É uma história muito bonita.

– Eu odeio ela. – Fala Alex em um tom ríspido.

– Provavelmente porque você nunca consegue escapar dela… – Continua Cid, até perceber o barman se movendo na direção do botão do alarme silencioso.

O pobre barman nem consegue o ver sacando a arma e disparando o tiro fatal, mas Alex aproveita a deixa para se levantar rapidamente e empurrar sua cadeira para cima de Cid no processo, o que o faz perder o equilíbrio por alguns instantes e quando o recobra e consegue apontar a arma para Alex ele o vê apontando sua arma de volta. Assim os dois se observam, um sob a mira do outro a menos de um metro de distancia, e esperam, como que precisassem de uma deixa para atirar.

– Por que não atirou em mim pelas costas quando pode? – Pergunta Alex.

– Porque eu quero te matar te olhando nos olhos, “amigo”. – Responde Cid – E você, por que faz essa cena toda? Sabe que não vai chegar vivo ao nascer do sol. Isso tudo é pela mulher?

Por um momento Alex apenas olha nos olhos de Cid e então deixa surgir um sorriso em seus lábios. Um sorriso muito mais assustador que o gélido sorrido de Cid. Um sorriso desafiador e selvagem, um sorriso de alguém que não teme a morte.

– E o que eu poderia querer fazer por uma mulher morta, hein, “amigo”? – Responde Alex.