Mácula

Na manhã após a casa da bruxa ser queimada, todos os cidadãos proeminentes da cidade se reuniram frente às ruínas. Eram homens importantes, ostentando títulos como chefe da guarda, prefeito e até mesmo o bispo do mosteiro da colina. A ilustre exceção era a viúva, que ainda trazia consigo a autoridade do título de barão do seu finado marido.

– Precisamos achar o culpado. – Disse o chefe da guarda, mais para si mesmo do que para os outros. O incêndio acabara queimando também boa parte do bosque na qual a casa se encontrava. Aqueles que dependiam da caça teriam um inverno difícil. Para a guarda isso significava vários homens armados e sem muito a perder criando problemas pela cidade.

– Sim, sim. Sem dúvida a justiça precisa ser feita… – Comentou o prefeito. Achava uma pena o que acontecera. Alem de ser uma bela mulher, a bruxa havia prestado um serviço quando cuidou da indesejada gravidez de uma de suas amantes.

– Justiça? A justiça já foi feita! – Berrou o bispo. – A justiça de deus puniu essa pecadora! Foi pela mão dele que a bruxa foi destruída.

Seguiram-se longos instantes de um desconfortável silêncio, cortado apenas por leves murmúrios afirmativos, até que a viúva se pronuncia.

– Mão de deus? – Falou ela sem esconder o desdém na voz – Me parece mais a mão de algum camponês idiota que levou a sério os seus sermões.

Seguiu-se outro longo e desconfortável silêncio, onde o bispo encarava a viúva com um misto de surpresa e ódio. Pareceu prestes a atacá-la, mas recuou ao vê-la flanqueada por seus filhos, homens enormes com os olhares frios de soldados veteranos, um deles o atual barão. A viúva sorriu satisfeita com essa pequena vitória.

Então que o silencio foi por um choro de criança.

Após o choque inicial os homens agiram rapidamente, revirando os escombros até descobrirem um bebê, sujo e assustado, mas milagrosamente ileso.

– Então, a bruxa tinha um filho? – Perguntou o prefeito, surpreso.

– Sim… É claro. – Falou o bispo, lambendo os lábios enquanto transfixava o bebê com o olhar – A bruxa entregava seu corpo às criaturas das trevas! Esta é uma cria do próprio demônio. Dêem-me…

– Vocês deveriam ter vergonha! – Ralhou a viúva – Um bebê chorando desse jeito e nenhum de vocês faz nada. Vamos, me entreguem ele aqui.

Desajeitadamente, o chefe da guarda pegou a criança do chão e a entregou para a viúva, que segurou o bebê com a segurança de anos de prática.

– Pronto pequeno, está tudo bem. – Falou a viúva em um tom tranqüilizador – Vamos te dar comida e um bom banho. Logo você vai estar em uma cama quentinha.

– Como ousa? Essa criança é fruto do pecado! – Berrou o bispo – Uma cria do próprio demônio! Somente a santa igreja pode salvar a todos nós de sua mácula. Me entregue ele agora, sua…

– Escolha suas próximas palavras com muito cuidado, bispo. – Falou o barão em um tom baixo e ameaçador, como uma fera rosnando – Se minha mãe deseja cuidar dessa criança não vejo motivo para não deixá-la. Será um órfão a menos para vocês alimentarem.

– Está decidido então. Me retirarei agora, senhores. – Falou a viúva, sem esconder um jocoso tom de triunfo em sua voz. Os homens murmuraram suas despedidas e também se retiraram.

– Isso era realmente necessário, mãe? – Perguntou o barão depois de se distanciarem dos demais.

– E você queria que eu deixasse esse pequeno ali no chão? – Respondeu indignada a viúva.

– Não… Apenas… Por que enfrentar assim o bispo. – Falou o barão – Nós fizemos um inimigo hoje, você sabe.

– Aquele canalha de vestido é nosso inimigo a muito tempo,filho. Insuflar os camponeses para matar aquela pobre mulher… Isso é um desafio a sua autoridade! Não é de hoje que ele quer ser o senhor dessa cidade. – Falou a viúva, hesitando como que se temendo continuar a falar em voz alta – Você viu o olhar faminto dele para essa criança? Nada de bom aconteceria com esse pequeno nas mãos daqueles lunáticos. Além disso, estava sentindo falta de uma criança correndo pela casa. Veremos se eu consigo ensinar bons modos para este aqui.

O barão e seus irmãos riram do comentário de sua mãe enquanto seguiam de volta para sua mansão. O chefe da guarda nunca descobriu o culpado pelo incêndio e nem ao menos o cadáver da bruxa fora encontrado. No entanto, conforme havida decidido, a viúva passou a criar o bebê como se fosse um dos seus. Com o passar dos anos o bebê se tornou um menino, o mais belo de toda a região. Por dez anos teve a vida mais feliz que uma criança poderia ter. Até que a guerra veio.

O barão e suas tropas partiram para lutar, deixando apenas uma pequena guarda para proteger a cidade. Logo bandidos se esgueiravam pelas estradas e assassinos andavam pelas ruas. E haviam perigos que nenhum soldado poderia combater. Pois com a guerra veio a fome. E com a fome veio a praga.

Os camponeses em pânico se voltaram para igreja. Foi aí que o bispo viu sua chance. Após anos fermentando sua raiva contra a viúva, ele teria sua vingança. Com o barão fora do caminho controlaria a cidade. E finalmente teria o belo filho da bruxa em suas mãos. Seus sermões eram furiosos. Dizia que a viúva duvidou da justiça divina, que zombou da fé e da santa igreja e, pior, acolheu o fruto do pecado. Somente quando o filho da bruxa fosse entregue a igreja que o castigo divino cessaria. Somente assim a mácula seria limpa.

A turba não demorou a atacar a mansão do barão. A pequena guarnição lutou bravamente, mas não pôde fazer nada. A viúva, acamada pela praga, foi morta na sua cama. A mansão foi queimada até os alicerces. E o menino foi levado ao mosteiro. Dizem que naquela noite seus gritos puderam ser ouvidos por quilômetros. O bispo saciara todos os seus terríveis desejos que possuía desde que vira aquele bebê nas ruínas da casa da bruxa. Na manhã seguinte o corpo quebrado da criança fora enterrado em uma vala comum.

O bispo agora estava satisfeito. Sua vingança era completa, a cidade era sua e as lembranças daquela noite o manteriam aquecido até o fim de seus dias, ele tinha certeza. Mas ao dormir, ao invés do sono dos justos que esperava, ele recebeu uma visita. Uma mulher jovem e bela, com as mãos cobertas de lama e terra, o observava aos pés da sua cama.

– Quem é você? – Perguntou o bispo aos gritos.

– Meus parabéns, meu caro bispo. – Sussurrou a mulher – Conseguiu tudo que queria. Até mesmo meu filho, que escapou por entre seus dedos tantos anos atrás finalmente foi seu, não é mesmo?

– Você? – Bradou o bispo – Impossível! Você está…

– Morta? – Interrompeu a bruxa, sem conter o riso – Ora, o que é a morte para uma bruxa?

– O que você quer de mim? – Perguntou o bispo.

– Apenas lhe dar um presente, meu caro bispo. Pelo modo como tratou meu filho. – Respondeu a bruxa – Ah, sim. Ele também gostaria de lhe dar uma coisa. Disse que nunca vai esquecer o que aconteceu naquela noite. E que quer retribuir o favor.

Ao ouvir essas palavras o bispo sentiu uma mão gelada agarrar-lhe o pé. O menino escalava a cama com seu corpo quebrado. Seu rosto, coberto de sangue e terra, ainda mostrava sua grande beleza, agora distorcida por uma expressão de ódio. O bispo acordou gritando, bem a tempo de ver as pústulas tomando sua carne.

Uma doença tomou conta do mosteiro, desfigurando e incapacitando todos que lá habitavam. Tão horrível era essa nova moléstia que os camponeses barraram as portas do lugar para impedir que esta se espalhasse. Abandonados, os monges sofreram ainda mais, mas nenhum deles teve o alívio da morte. Os camponeses começaram a sussurrar que o lugar estava amaldiçoado. Que precisava ser queimado. Que somente assim a mácula seria limpa. E assim o fizeram.

Dizem que as chamas arderam sobre o antigo monastério por dias. Também dizem, mas apenas em sussurros assustados, que os gritos só pararam depois de as chamas morrerem.

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One Response to Mácula

  1. Nelson Netto says:

    gostei da ambientação e dos personagens serem apresentados por características: a viúva, a bruxa, o bispo, o barão.. gosto dos efeitos que esse tipo de escolha causam.

    achei foda o segundo parágrafo. o pesar do chefe da guarda ao refletir em como a queimada no bosque influenciaria a caça e o comportamento dos habitantes, como algo que ele já vivenciara. passou um certo cansaço ao personagem sem usar, de fato, qualquer descrição de aparência.

    e aí a história não é sobre ele! muito bom como tudo isso era uma ambientação!

    talvez o bispo tenha sido um tanto caricato. entendo que, por ser um conto, talvez tenha sido uma escolha pra desenvolvê-lo mais brevemente. sei lá, tô divagando kkkkk

    depois do time skip, o ritmo do texto dá uma acelerada bem natural até a ponto alto dele. gostei (foda a aparição da bruxa) e também, do desfecho.

    o final ficou muito bom também.

    ainda falta uma revisada e eu faria uma segunda leitura agora, mas são 5 da matina heh

    continue escrevendo, man!

    FH

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