O Falcão e a Lua

A muito, muito tempo atrás, quando a terra já era velha mas os reinos dos homens ainda eram apenas uma promessa, vivia um falcão com uma sina singular: Ele havia se apaixonado pela Lua. Ela havia sido que ele viu quando filhote e desde então todas as noites se perdia observando sua amada dançar pelos céus. Quando finalmente cresceu para abandonar o ninho e ganhar os céus ele tentou alcançá-la, todas as noites por anos e anos a fio, mas nunca a conseguia alcançar. O falcão então partiu em busca de ajuda, alguém que pudesse lhe indicar o caminho para chegar até a Lua, e para tal ele viajou longas distancias carregado pelo vento, até finalmente encontrar, em uma grande montanha acima das nuvens, um velho e sábio lobo, venerado pelos seus como o mais sábio filho da lua. Ao chegar na montanha o falcão vê o velho lobo, aparentemente frágil com seu pelo outrora prateado mas agora cinzento mas ainda dono de um espantoso brilho no olhar, descansando deitado sob uma grande arvore seca, enquanto a Lua cheia pairava sobre o mundo, iluminando aquela noite.

– Seja bem vindo, jovem pássaro, eu o estava esperando. – Fala o lobo, levantando a cabeça e saudando o recém chegado – O vento me contou sobre você. Ele conta tudo para aqueles que estão dispostos a ouvir.

– Então você já deve saber por que eu vim. – Fala o falcão enquanto se empoleirava na arvore seca – Me diga, sábio, qual o caminho para que eu chegue até a minha amada?

– Não existe tal caminho. – Responde o lobo com uma voz embargada e cheia de tristeza – Ela é caprichosa. Mesmo meu povo, que a conhece como ninguém e que desde a primeira matilha a ama como a mais nada, pode esperar mais do que viver e torcer que algum dia ela ouça nosso chamado.

– Não! – Retruca o falcão exaltado – Isso pode ser verdade para vocês que vivem presos ao chão, mas não há nada que nós filhos do céu não possamos alcançar! Hoje eu irei alcançá-la, você verá!

– E o que há de diferente hoje das outras vezes? – Pergunta o lobo.

– Convicção. – Responde o falcão enquanto alça vôo.

O velho lobo apenas balança a cabeça tristemente enquanto vê o falcão subir, subir, subir… Até que o próprio vento não mais o acompanha e não existe mais encima ou embaixo, apenas o céu. Confuso com as finas correntes que mal sustentam suas asas, o falcão perde sua amada de vista e então desesperadamente começa a procurá-la no céu infinito a sua volta. Por um momento ele se desespera, achando que a havia perdido em algum ponto do caminho, mas então ele vê seu brilho ao longe e sem hesitar parte a toda velocidade em sua direção. Ele mal pode acreditar o que vê, a cada segundo ele está mais próxima, até que quando ela finalmente estava ao alcance de suas garras ele percebe o frio toque da água, e vê que o que perseguia era apenas um reflexo em um lago. Mas já era tarde. Em seus últimos momentos, antes de ser levado pela impiedosa correnteza, o falcão ainda ouve os melancólicos uivos dos lobos, enquanto sua amada Lua dançava caprichosamente acima do céu, como se o mundo não existisse.

Entrelinhas

– Por que você fez isso?

Aquele que está sentado a minha frente me pergunta, depois de passar todo aquele tempo examinando os papéis, descrições do caso, muito provavelmente. Simplesmente não consigo entender essa total incapacidade deles em observar o obvio. É tudo tão simples. Creio que seja essa a tal natureza humana que me falaram. Não consigo acreditar como eles convivem com tamanha imperfeição sem nem ao menos se importarem com isso. É como se eles conseguissem simplesmente se esquecer disso. Deveria ser impossível, pois não há como esquecer do que se é, não quando se é lembrado toda vez que se olha no espelho, mas isso eles não percebem também, assim como os que estão me vigiando nessa sala não perceberam que eu já soltei as algemas. É sempre assim, tão previsível. Talvez por isso os que me fizeram me deixaram depois de terem conseguido o que queriam. Não posso culpa-los. Que utilidade tem uma ferramenta que viveu mais do que o seu propósito? As vezes me pergunto se isso foi proposital ou foi um erro. Não importa. As vezes me pergunto quanto tempo ainda tenho. Tempo demais. No fim meu lugar é aqui, entre eles, mas mesmo sem propósito não posso ficar simplesmente esperando. Não, pois assim o tempo demais facilmente acabaria se tornando uma eternidade. Eles não vêem isso, claro, assim como não enxergam mais nada. Assim eu olho para aquele que me perguntou e respondo:

– Já tentou assistir televisão numa tarde de domingo?

Piada

Ela o observava fixamente, sem nem ao menos piscar, pois para ela qualquer movimento em falso poderia significar seu fim. Ela engolia seco e suava as bicas, mesmo com a fria chuva daquela noite de inverno os acoitar impiedosamente. Ele, no entanto, não fazia nada, apenas ficava ali parado e apontando a arma na direção dela enquanto sorria como se estivesse se divertindo imensamente. Ela inicialmente pensou ser uma brincadeira, mas logo ela afastou essa possibilidade. Ele nunca foi disso e ela podia ver em seus olhos, por detrás daquele sorriso jocoso, que ele falava serio.
– O que você quer? – Ela finalmente cria coragem para perguntar.
– Ah, agora você se preocupa com o que eu quero? – Ele responde, alargando ainda mais o sorriso – Achei que tivéssemos de acordo que esse não era um tópico importante.
Há uma súbita mudança na expressão dela, seus músculos se contraindo pela raiva que sente ao ouvir essa resposta. No fim era apenas mais uma cena estúpida que ele estava armado.
– É engraçado como as coisas mudam, não? – Ele continua, ainda sorrindo.
– Pare com isso, já está ficando ridículo. – Ela fala com a voz carregada do mais puro desprezo.
– Parar? Mas nós só estamos começando. – Ele diz alargando seu sorriso.
– Já chega. – Ela prossegue no mesmo tom, agora andando na direção dele – Pouco me importa se você quer perder seu tempo com seus esses teatrinhos idiotas, mas não me faça mais perder o meu.
Ela passa por ele e então começa a se distanciar, mas se detêm ao ouvir o barulho da arma sendo engatilhada.
– Esse seu narcisismo é uma comedia, sabia? – Ele fala – Nem tudo no mundo gira em torno de você. Na verdade a graça da vida é que nenhum de nós faz a mínima diferença.
– Isso é patético. – Ela explode, carregando cada palavra com o ódio que sente – O que você quer? Que eu me desculpe? Que eu diga que estou arrependida do que fiz?
– Como sempre ela nunca me ouve… – Ele falar para si mesmo, rindo como se fosse um pai falando de uma criança enquanto apontava a arma novamente para ela.
– Não me faça rir. Isso ai nem deve estar carregado. – Ela diz o encarando com um olhar desafiador – E mesmo que estivesse você nunca teria coragem…
Ela é interrompida pelo disparo da arma, que a acerta na perna e arranca um urro de dor.
– Pronto agora você vai ouvir. – Ele diz prendendo o riso – Você devia ver a sua cara agora. Absolutamente hilária.
– Por favor… – Ela tenta articular, vendo seu sangue tingir a poça d’água onde caiu de vermelho – Eu não queria…
– Você deveria cuidar disso. – Ele continua ignorando-a e mal segurando o riso – Sangrando do jeito que está você vai acabar morrendo se não correr para um hospital.
Ao dizer isso ele explode em gargalhadas, mal conseguindo ficar em pé, enquanto ela continua tentando inutilmente estancar o sangramento.
– Eu… Eu peço desculpas! Retiro tudo que eu disse! Tudo o que eu fiz! – Ela fala em desespero – O que você quiser, só me ajuda, por favor! Eu não quero morrer…
– Você, você, você… Não consegue pensar em outra coisa alem de si mesma? – Fala ele como se estivesse repreendendo uma criança – Tem que parar de ser tão egocêntrica. Não percebe que nada disso faz a mínima diferença? Depois de perder tudo o que eu lutei a vida toda para conseguir eu pude perceber. Nós simplesmente não fazemos diferença. Não importa o que aconteça, o que façamos a vida continua com ou sem nós. Não é engraçado isso? Nos esforçamos, fazemos coisas impossíveis para absolutamente nada. Simplesmente hilário! E eu devo agradecer a você por me fazer enxergar isso. Depois do que você fez foi que eu consegui enxergar…
Ele então percebe que ela não estava ouvindo, que apenas continuava tentando estancar o sangue, agora quase sem forças.
– …E você nem ao menos me ouve. Era de se esperar, mas confesso que estou decepcionado. Bem, já que o monologo não tem mais sentido vamos tentar um joguinho para animar a noite. – Ele fala enquanto esvazia todas as balas do tambor, exceto por uma.
Ele gira o tambor e então aponta a arma para a própria cabeça e puxa o gatilho, resultando em nada mais que um clique inofensivo, o que o faz rir descontroladamente enquanto ela apenas observa a cena já sem forças, no limiar da consciência.
– Ora, parece que estou com sorte. – Ele diz em meio as risadas – Mas se anime, agora é sua vez.
Ele de novo gira o tambor e engatilha a arma, agora apontando para ela, puxa o gatilho e de novo não há nenhum disparo. Ela nem ao menos esboça uma reação, o que o deixa bastante decepcionado.
– Que sem graça. Você está levando isso a serio demais. – Ele diz enquanto gira o tambor e novamente aponta para a própria cabeça – Será que você realmente não ouviu nada do que eu falei? Não percebe que a vida é só uma grande piada…
Ele é interrompido no momento em que puxa o gatilho, pois o que veio dessa vez não foi um inofensivo clique. O disparo é mortal, espalhando seu cérebro pela rua escura e formando rapidamente uma poça de sangue ainda maior sob seu corpo. Por um momento ela apenas observa em silencio, sem forças para reagir, mas então um riso começa a vir e se avolumar, até explodir como gargalhadas histéricas que ressoavam pelas ruas desertas.