Azar

Meu velho pai costumava dizer que não há nada mais perigoso do que se sentir com sorte. Naquela época eu não entendia muito bem o que ele queria me dizer, mas hoje eu entendo perfeitamente.

Uma pena que isso tenha que acontece justamente hoje. É um dia quente, daqueles que nem os abutres tem coragem de sair da sombra, a não ser para abocanhar algum banquete. É por isso que eles circulam acima de mim. Não que eu consiga enxergar eles com a cara enfiada nesse chão empoeirado de barro vermelho, mas eu posso ver as sombras deles a minha volta. E eu reconheceria essas sombras em qualquer lugar. São as mesmas que circulavam o corpo do meu pai.

De repente ouço passos e sou virado para cima. O sol do meio dia me obriga a fechar os olhos. Eles esperam eu poder abrir os olhos novamente, mesmo que fosse para eu ver apenas três vultos escuros, para começar a falar.

– Você tem muita coragem, garoto. – Fala o vulto do meio, com um sotaque carregado – E também é muito burro. Vir aqui na minha cidade sozinho depois de tudo o que fez.

– É que eu estava me sentindo com sorte hoje… – Eu respondo, me justificando para mim mesmo.

Precisava de mantimentos e havia ganho um bom dinheiro jogando cartas em uma caravana que passava pelo deserto. Não achei que ele fosse me reconhecer. Nenhum dos homens dele que me viu saiu vivo para contar a história. Esse é o grande problema de se sentir com sorte. Nós ficamos descuidados, esquecemos de considerar coisas importantes. Como, por exemplo, que um fazendeiro que eu salvei de ser roubado pelos homens dele resolvesse achar mais importante ganhar uns trocados a mais me delatando do que ajudar a livrar o mundo daquele bastardo.

– Sorte? Moleque, você precisaria de muito mais do que isso para me desafiar nas minhas terras. – Ele falou de novo, emendando com uma risada alta.

– Terras compradas com o dinheiro roubado da diligencia que meu pai guardava. – Eu falo, me esforçando para parecer intimidador. Não que vá dar muito certo.

– Então… Você é filho daquele irlandês idiota. – Ele continua, ainda rindo – E pensar que esse moleque, que matou mais de vinte dos meus homens, veio aqui sozinho para a boca do lobo. Eu diria que eu é que estou com sorte hoje, rapaz.

Ele então lentamente saca um revolver, o engatilha e aponta para a minha cabeça, mas eu não presto muita atenção. Meus olhos se desviam para prestar atenção no brilho vindo do teto de uma casa próxima. O inconfundível brilho metálico do cano de uma arma.

– Agora, moleque, peça perdão ao criador, porque logo logo você vai ter um encontro pessoal com ele. – Ele diz.

– Eu prefiro agradecer a ele por não ser filho único. – Eu respondo.

O primeiro tiro acerta ele no braço, o que o joga no chão, berrando, e faz o revolver parar longe. O segundo mata um dos capangas antes que ele sequer tenha percebido de onde veio o primeiro tiro. O outro capanga percebeu e se vira para responder o fogo, mas o que ele não rinha percebido era a faca que eu trazia escondida na manga da camisa e que eu já tinha me desamarrado. Ele só percebe o erro de ter tirado os olhos de cima de mim quando minha velha e boa lamina já está cravada no seu pescoço.

Ele agora se arrasta, com o braço sangrando aos baldes. Eu calmamente pego a arma que ele derrubou e vou para a frente dele, que balbucia qualquer coisa sobre perdão e me dar um bom dinheiro se eu deixar ele viver.

– Vou te dar uma chance, velho. – Eu falo, esvaziando cinco das seis câmaras do revolver e então girando o tambor – Se você não morrer da próxima vez que eu apertar esse gatilho, eu deixo você vivo para tentar se salvar.

Olhando assim de cima ele não parece grande coisa. Não é o bandido perigoso que assolou meus sonhos por anos e anos. É só um velho gordo e patético, olhando para mim com um misto de expectativa e esperança.

Ele realmente acha que as chances estão a favor dele. Eu puxo o gatilho e se ouve o estampido seco de um tiro sendo disparado. Ele tem um ultimo espasmo e então para de se mexer, para sempre.

Meu velho pai sempre me dizia que a sorte é como uma mulher temperamental, sempre te abandona quando você mais precisa dela.

Anúncios