Coisas Assim

São 7:15 quando ele chega esbaforido. É sempre assim, sempre atrasado, mas tentando parecer que fez todo o possível para chegar na hora certa. Claro que vai dizer que não foi culpa dele e toda essa ladainha que eu já ouvi inúmeras vezes. Ele abre o portão com um pouco de pressa, mas quando vai passar acaba tropeçando nele. Típico.

– Desculpe o atraso. – Ele fala, tentando parecer sem jeito – É que o transito hoje estava difícil e…

– Guarde suas desculpas para alguém que ligue para elas. – Eu respondo secamente.

Ele me olha, deixando transparecer na sua expressão um misto de decepção e tristeza, e então suspira longamente antes de responder:

– Então é assim que vai ser?

– E o que você esperava? – Eu digo, sentindo a raiva me dominar – Lagrimas, sorrisos e abraços? Com flores e champanhe para acompanhar, quem sabe?

Ele não responde de imediato. Não, ao invés disso ele desvia o olhar para o jardim onde estamos, parecendo por um instante se perder em seus pensamentos, enquanto eu reluto em ceder aos meus. Mas é tão difícil não me deixar levar pelas memórias quando o vejo ali, a observar os arredores com aquele seu jeito quase de menino, ainda mais quando a brisa noturna trás até mim, bem de levinho, o seu cheiro. Aperto as minhas mãos bem forte contra o meu corpo para segurar a vontade que me surge de sentir o calor dele de novo contra a minha pele. Sorte minha que ele é muito distraído para notar essas coisas.

– Isso aqui continua uma beleza. – Ele finalmente fala, fazendo uns gestos largos que são tão dele – É bom ver que algumas coisas não mudaram.

– Por que isso tudo? – Eu pergunto – Por que você quis se encontrar comigo depois de tanto tempo sumido?

– Eu só queria ver se você estava bem… – Ele responde bem baixinho, como se tivesse com vergonha – É só isso. Eu fiquei longe tempo demais para querer qualquer coisa mais que isso. Desculpe…

– Desculpa? Pelo quê? – Eu explodo – Por me abandonar? Por me deixar sozinha na hora que eu mais precisei e simplesmente sumir por todo esse tempo?

Eu tenho de parar para me recompor, mas não faço isso rápido o suficiente para evitar que algumas lagrimas caiam. Ele então vem, de mansinho, me abraça e eu não resisto. Abraço ele com força, me apertando contra o peito dele.

– É, desculpe por isso tudo. – Ele diz baixinho no meu ouvido com uma voz que por mais que eu gostaria que não ainda me causa arrepios pela espinha – Eu sei que isso não melhora em nada, mas não foi por escolha minha.

– Não. Não melhora. – Eu respondo enquanto me afasto dele – Mas eu aceito as desculpas.

Ele sorri e então pergunta:

– E ela, como está?

– Vai bem. – Eu respondo com aquele tom coruja que toda mãe orgulhosa tem – Crescendo forte e saudável. Apesar de ter herdado algumas manias estranhas. Deve estar no cinema com o pai.

– O pai… – Ele diz, e o seu sorriso se torna melancólico.

– Ele é um homem bom. – Eu falo – Sempre cuidou bem de nós duas.

– É. É melhor assim mesmo. – Ele continua, mais falando para si mesmo que para mim – Bem, agora eu preciso ir. Muitas coisas a fazer ainda nessa noite.

Ele então da um sorriso daquele bem singelos e vai em direção ao portão por onde entrou.

– Espera! – Eu grito, um tanto hesitantemente – E se eu precisar te encontrar?…

– Não se preocupe. – Ele responde, sorrindo – De agora em diante eu estou sempre por ai.

Ele então passa pelo portão, novamente se atrapalhando com ele e eu me pego sorrindo novamente ao ver isso. Porque coisas assim não mudam.

Espelhos

– Vocês deveriam saber que isso não seria o suficiente. – Soa uma estranha voz feminina através do radio da estação de controle.

Após isso o silencio toma a apertada estação de controle. Todos param o que quer que estivessem fazendo para prestar atenção no radio. Até mesmo o comandante, que sempre acompanhava as missões com um grande desinteresse, parou de analisar as fichas e relatórios como de costume e passou a dedicar toda sua atenção a transmissão.

– Nina? – Pergunta vacilantemente Sibele, a oficial responsável pelo radio.

– Alvo primário confirmado! Quero que identifiquem o canal de comunicação e localizem ela imediatamente! – Grita o comandante.

– A freqüência pertence ao agente comunicador de campo Santana, senhor! – Responde um dos oficiais – Mas não conseguimos determinar a posição dele! Interferência de origem desconhecida!

– Sibele? Não esperava que você ainda estivesse ai. – Soa novamente a voz de Nina – Uma pena. Eu sempre gostei de você.

– Então rastreiem pelo canal de comunicação! – Diz o comandante, visivelmente alterado – E você, tenente, mantenha ela falando até que possamos localizar a posição dela.

– O que… O que você está tentando fazer, Nina? – Fala Sibele, acenando positivamente para o comandante.

– Que bonitinho, você tentando me distrair por tempo o suficiente para rastrearem a transmissão. – Diz Nina – O comandante continua sem imaginação, não é mesmo? Mas sempre eficiente. Ele sempre pega o bandido, não é mesmo?

– Nina, nós podemos te ajudar. – Continua Sibele – Desiste, por favor. Se entregue e nós podemos te ajudar!

– Nem você é tão ingênua, Sibele. – Fala Nina – Eu não tenho mais salvação. Nem preciso, querida. Diferentemente do seu amiguinho aqui.

O canal de radio é tomado então por um berro de dor quase inumano, seguido de um sepulcral silencio.

– Sibele, Sibele. Você não está fazendo seu trabalho direito. – Comenta Nina – Era para você ficar conversando comigo. Se continuar calada desse jeito eu vou acabar desligando.

– Continue falando, tenente. – Fala o comandante – Ela é um monstro agora, mas nós podemos acabar com ela. Então ela nunca mais vai machucar ninguém. Você só precisa continuar falando.

– Nina… Nós vamos te deter… – Fala Sibele, vacilantemente.

– Não, não vão. – Responde Nina – Vocês vão é acabar como ele.

O que se segue são gritos de dor e suplicas sendo lentamente suplantados pelo doentio som de carne sendo rasgada e ossos sendo esmagados. Em meio a isso Sibele abandona seu posto e vai até o banheiro, onde em meio as lagrimas ela vomitou uma bile amarga.

– Rastreamos o sinal, senhor! – Um dos oficiais fala – Mas é estranho…

– De onde vem, sargento? – Pergunta impacientemente o comandante.

– Daqui. De dentro da estação. – Responde o oficial.

O comandante responde apenas com uma expressão de absoluto pavor. Enquanto isso Sibele lava o rosto, mas ao se olhar no espelho ao invés de seu reflexo ela vê Nina, com as mãos sujas de sangue já alcançando sua garganta.

– Uma pena que você ainda esteja aqui, Sibele. – Fala Nina, com um sinistro sorriso nos lábios – Eu realmente gostava de você.