Carmesim

Belthezzar hesita, por força do habito, na entrada da igreja. Não que ele não tivesse entrado em muitas igrejas durante os muitos seculos, mas nunca havia encontrado uma que emanasse tanta fé verdadeira como essa.

– Bem… Pelo menos eu cheguei no lugar certo. – Fala Belthezzar, antes de fechar os olhos e entrar na igreja.

La dentro Belthezzar vê o amplo salão iluminado por inúmeras velas colocadas em volta a um caixão que repousava em frente ao altar e ao lado dele, velando o corpo, está uma mulher com um pesado vestido de luto.

– Espero não ter chegado em uma má hora, Cristina minha querida. – Fala Belthezzar, sorrindo teatralmente – Vim prestar minhas condolências.

– De todos os abutres que eu achei que viriam nesse momento, você é o ultimo que eu esperava. – Diz Cristina, olhando para Belthezzar com um expressão que misturava surpresa com desgosto – O que você quer, Belthezzar?

– Abutre? Por favor, não me insulte a toa. Sou um comerciante honesto, não um jornalista. – Responde Belthazzar, fingindo que estava ofendido – Quanto a minhas intenções, eu já disse que vim aqui prestar minhas homenagens…

– Diga logo o que quer, demônio. – Fala Cristina, secamente.

– Pois bem, querida. – Responde Belthezzar, abandonando a postura teatral – Eu fazer uma proposta para você.

– Como se não bastassem todos os meus problemas, ainda tenho de aturar você querendo comprar a minha alma. – Diz Cristina, visivelmente exasperada – Vá embora. Você já sabe minha resposta.

– Mas você não sabe qual é minha proposta, querida. – Interrompe Belthezzar – O que eu te ofereço agora é uma chance de salvar esse mundo.

Com um gesto Belthezzar apaga as velas que iluminavam a igreja, deixando entrar a luz da lua, que agora brilhava em um tenebroso tom carmesim, e fica satisfeito em perceber como uma pequena mudança como aquela conseguia dar uma ar tão profano a um local sagrado.

– Achei que sua laia ficaria satisfeita com a vinda deles. – Retruca Cristina – Vocês não são todos encarnações do mal?

– E isso faz de nós uma grande família feliz? – Diz Belthazzar – Não creio que você seja tão ingenua, querida. Você sabe o que eles são. Enquanto “minha laia” quer esse mundo, para torná-lo nosso, eles pela própria natureza vão só fazer ele queimar para poder mijar nas cinzas. Mas com o que eu tenho para te oferecer, querida, você pode evitar isso.

– E qual seria essa sua grande oferta? – Pergunta Cristina, em um tom cínico.

– O ultimo coração da escuridão. – Fala Belthezzar, voltando ao tom teatral.

– Isso é impossível! – Responde Cristina, incrédula – Você nunca entregaria algo assim a ninguém!

– Ora, reconheço que o poder que essa pedra me oferece é tentador. Suficiente para me elevar ao circulo dos nove. Talvez até acima deles. – Continua Belthezzar – Mas nada disso serviria de nada para impedir eles de tomarem esse mundo. Seria como me tornar dono de um restaurante sem comida alguma. Agora você com esse poder, querida, poderá facilmente mandá-los chorando de volta aquele buraco que eles chamam de casa.

– Ao custo de me tornar como você. – Fala Cristina.

– Como eu? Não, não, querida. Você será muito pior. – Responde Belthezzar, sorrindo – Você será o flagelo desse mundo, o mal liberto que corromperá e destruirá inúmeras vidas. Ainda assim você poderá ser vencida. E será um será, dando fim ao seu reinado de escuridão.

– Esse é o único jeito? – Pergunta Cristina, mais para si mesma do que para seu interlocutor, enquanto olha para a lua.

– Na verdade, não. – Diz Belthezzar – Você poderia lutar contra eles do jeito que está, querida. As chances não estão do seu lado, mas você poderia vencer. Muitos morreriam, claro, mas garanto que a maioria dos seus amigos estaria disposta a morrer de bom grado para salvar o mundo. No entanto esse rumo de ação custaria um sem numero de vidas inocentes. E claro, você nunca teria ele de volta.

Belthezzar sorri maliciosamente ao terminar de falar, ao passo que Cristina o encara com um olhar tão furioso que ele chega a temer que ela o ataque. Mas ela então se volta para o caixão e chorando diz:

– Eu aceito.

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