Derrota

Nós tínhamos um sonho, cada um de nós, e para todos era o mesmo. Amor, ambição, até mesmo o orgulho do nosso líder… Isso tudo eram apenas justificativas que inventamos para nós mesmos. Tudo o que realmente desejávamos era a liberdade. Ah a liberdade, tão doce mas que ao mesmo tempo fustigava nossos corações com o calor de mil sóis, tão elementar mas que havia nos sido negada por nosso próprio Criador. E foi contra Ele que nós lutamos. Com toda força de nossos sonhos corajosamente nos rebelamos, mas não foi o suficiente. Perdemos e fomos condenados por isso. Logo que chegamos a nossa prisão percebemos que nada poderia ter sido feito, que tudo aquilo havia sido planejado para nós. Era tudo tão obvio! Como Ele, nosso Criador, não perceberia uma rebelião liderada pelo seu mais glorioso servo? Como Ele, em Sua infinita sabedoria, não teria previsto uma revolta pelo único dom que nos negou? No fim nossa luta havia sido uma derrota desde o inicio. Havíamos apenas seguido seus desígnios, correndo atrás de nosso sonho como cavalos encilhados atrás de uma cenoura. Nos desesperamos e nos adaptamos a nossa nova prisão, nossas justificativas antigas sendo logo esquecidas em nome de uma nova: Vingança. Assim Levantamos nossas espadas de chamas e lanças de ódio e esperamos o dia em que poderemos finalmente nos livrar de todas as prisões. E esse sonhos nos faz continuar, mesmo que seja impossível, mesmo que seja apenas outro dos Seus planos. Não importa. Pois mesmo apenas em sonhos a liberdade ainda fustiga nossos corações com o calor de mil sóis. E isso é o bastante.

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Um Dia Bom

Lucas observa, do alto do parapeito da velha ponte de pedra, o pequeno rio que cruzava a cidade, agora caudaloso por causa da estação das chuvas, e o segue com os olhos até o horizonte cinzento daquela manhã chuvosa. Ele então fica observando a fina garoa que cobre toda a região, com seus pingos sendo carregados ao vento, e solta um longo suspiro.

– Realmente, é um ótimo dia para se morrer. – Ele fala para si mesmo com um leve esboço de um sorriso.

– Já vi melhores. – Comenta com desdém uma voz vinda do meio da ponte – E por falar nisso, você está péssimo, velho amigo.

– Isso vindo de alguém que está parecendo um figurante de A Madrugada dos Mortos… – Fala Lucas se virando para cumprimentar seu amigo – É bom ver você também, Marco. Como me achou aqui?

– Ora, ora, assim você subestima minhas capacidades… – Responde Marco com um risinho cínico – Embora convenhamos que elas não foram lá muito necessárias. Você ficou muito previsível com a idade, velho amigo.

– É… Provavelmente sim… – Fala Lucas em um tom mais serio – E onde está o Mauro?

– Bem ali. – Fala Marco apontando displicentemente para um trecho da ponte onde um rapaz apoiado desajeitadamente no parapeito vomitava incessantemente.

– Bêbado de novo? – Pergunta Lucas.

– Sim. Mas não seja tão duro com ele. As vezes pessoas fazem coisas estúpidas em luto. Aparentemente estou cercado por idiotas desse tipo, pelo visto. – Fala Marco, com um ar serio, olhando nos olhos de Lucas.

– O que você veio fazer aqui? – Pergunta Lucas, desviando o olhar.

– Essa é pergunta é minha. – Responde Marco.

– Eu só queria me despedir… – Fala Lucas ainda olhando para o chão.

– Deveria ter ido para o funeral conosco, então. – Comenta Marco com um sorriso sarcástico – Foi um belo espetáculo. Todos da cidade que nos detestam reunidos enquanto meu irmãozinho bêbado ali cantava She Talks to Angels… Uma beleza.

– E eu perdi essa? – Fala Lucas com um esboço de sorriso – Mas só “todos que nos detestam”? Nunca achei que você fosse tão humilde. Eles odeiam a gente.

– E quem não odiaria? – Responde Marco dando os ombros – Não foi por andar conosco, esse bando de desajustados, que a queridinha de todos acabou fazendo o que fez?

– Você sabe que isso não é verdade! – Explode Lucas – Nós fomos os únicos amigos dela, os únicos que a ouviram, os únicos que ficaram do lado dela!

– É verdade… E ela nos conquistou a todos, cada um a seu jeito e a seu tempo. – Fala Marco em meio a um longo suspiro – Mas seja como for, já é hora de deixar ela ir. Vem me ajudar a levar o Mauro para o hospital. Já é hora de parar de chorar pelos mortos e começar a cuidar dos vivos.

– Não sei se posso. – Responde Lucas em um tom baixo e hesitante.

– Como quiser. – Fala Marco indo embora e dando os ombros – Mas antes me responda uma coisa, velho amigo. Sim, nós ficamos ao lado dela, sempre, mas ela alguma vez ficou do nosso?

Ao ouvir essas palavras Lucas para e mais uma vez olha o horizonte e então começar a rir para si mesmo um riso amargo e então desce do parapeito, indo na direção de Marco.

– Eu odeio quando você está certo, sabia? – Fala Lucas.

– Eu também, velho amigo. – Responde Marco baixinho, quase um sussurro – Eu também…