Sintese

O menino respira com dificuldade, lutando em meio aos soluços para engolir o choro enquanto agarra a si mesmo com tanta força que chega a sangrar. O quarto onde está é completamente escuro e ele percebe que existe algo mais ali, percebe vultos, coisas, se arrastando na escuridão, mas não ousa chorar, pois não quer que o homem perceba. Mesmo estando apavorado por causa do escuro ele tem ainda mais medo do homem, porque viu o que ele fez com a sua mãe, viu que ele fez com aquela menina… E viu ele levar seu irmão.

– Não tem nada aqui. Não tem nada aqui. – Ele começa a repetir como um mantra o que sua mãe sempre dizia antes de apagar a luz do seu quarto, tentando se convencer de que não havia nenhum monstro assustador ali com ele. E mesmo que houvesse, o monstro mais assustador que havia estava lá fora.

 Ele começa a pensar em sua casa, nas noites em que não conseguia dormir por causa do seu medo e sua mãe deixava a luz do corredor acesa… E então treme ao pensar na mãe. O menino ainda espera que sua mãe apareça para salvar a ele e ao irmão, mas no fundo sabe que isso não vai acontecer, não depois do que o homem fez a ela. Ele treme ainda mais ao lembrar da sensação do sangue ainda quente de sua mãe lhe cobrindo todo o seu rosto e do seu irmão. E irmão vem a sua mente, seu irmão que sempre havia sido corajoso, que nunca teve medo do escuro, que sempre o apoiou quando ele precisou. Havia tentado não pensar nele depois que o homem simplesmente o levou embora, sem nenhuma palavra ou explicação. Provavelmente o homem havia feito com ele o mesmo que fez com aquela menina, mas por quê? Não foi como com a menina, que chorava sem parar. Não, não houve explicação, ele simplesmente veio e levou seu irmão. Por um tempo o menino ouviu batidas na parede e gritos fracos vindos do outro lado. Parecia que seu irmão pedindo ajuda, e mesmo sabendo que não podia fazer absolutamente nada a culpa o esmagava.

– Eu só quero ir para casa… – Fala o menino se encolhendo ainda mais.

Nesse momento as luzes da sala se ascendem. Por um instante o menino pensa que está salvo, mas essa tênue esperança logo se apaga quando sua vista se acostuma com a luz ele percebe que o cômodo está cheio com milhares de ratos, contidos apenas por uma grade que agora se abria. Ele ouve as batidas na parede recomeçarem, agora muito mais frenéticas, e tem apenas forças para deixar as lagrimas caírem.

Anúncios

Batalhas

Esticamos nossos braços tentando alcançar o infinito, mesmo sabendo que é inútil. Caímos e nos levantamos apenas para cair novamente, embriagados de esperanças e frases feitas. Lutamos feito condenados (e não é o que somos, afinal?) porque a vida é assim. Sim existem aqueles poucos que não passam por isso (Sortudos? Não sei dizer…), mas ai não é viver, é fugir. Para nós que não podemos fugir existe apenas o lutar, até que finalmente a morte, a única musa que um dia nos notará, nos dê alguma paz. Mas por que isso tudo? Por que tanto esforço se no fim nada será alcançado? Porque sabemos, assim como um grande sábio um dia disse, que existem apenas quatro perguntas realmente importantes nesse mundo: “O que é sagrado?”, “Do que é feita a alma?”, “Pelo que vale a pena morrer?” e “Pelo que vale a pena viver?”. Para elas existe apenas uma resposta. Nós sabemos. Por isso lutamos.

Contexto

Ele me observa impassível enquanto eu leio os relatórios para disfarçar meu nervosismo, embora eu faça isso mais por habito do que por uma necessidade de manter o clima de que eu estou no controle da situação, porque eu não acho que ele sequer notaria mesmo se eu estivesse andando de um lado para outro e roendo as unhas como uma mocinha de novela. Não, não, a expressão dele não se alterou um milímetro desde que pegamos ele, nem quando o Peixoto deu um “tratamento” nele, nem quando eu cheguei para fazer o interrogatório. Ele não parece dar importância ao que está acontecendo, parece apenas esperar por alguma deixa.

– Bem, rapaz… – Eu falo depois de pigarrear um pouco, para aliviar a tensão – Você está em sérios problemas, mas o promotor disse que vai fazer um acordo se você contar onde estão os outros corpos.

Claro que era tudo mentira. Promotor nenhum ia perder a chance de ganhar toda a fama que acompanha esse caso, especialmente depois do juiz ter aceitado a liminar para julgar o garoto como adulto, o que fez com que a imprensa armasse um verdadeiro circo.

– Não dou a mínima. – Ele responde com um tom de quem não dá a mínima mesmo. Sem nem ao menos um risinho de satisfação, nada.

Eu ensaio um “Você parece não estar entendendo a gravidade da situação…”, mas me detenho. Não tem contexto para isso e é isso que me assusta de verdade. Em todos esses anos de policia eu já me deparei com todo tipo de assassino, e só o fato dele ter trucidado aquelas crianças a sangue frio não teriam esse efeito sobre mim. O problema é que está um circo lá fora, toda a população querendo o sangue dele, somando a certeza absoluta de que ele vai ser o primeiro condenado a morte desde o império… Mesmo assim ele nem liga. Ele está em uma situação que apavoraria até o Freddy Krueguer e nem ao menos se digna a se importar com isso.

– Eles ainda estão vivos. – Ele continua com seu tom de descaso – Os gêmeos eu digo. Mas vão morrer logo, logo. A não ser que eu diga onde eles estão.

– O que você quer? – Eu pergunto, não contendo o nervosismo e quase saltando da cadeira.

– Eu vou sair daqui livre e andando em dez minutos, ou então eles vão morrer de uma forma bastante desagradável. – Ele fala e então se vira para o espelho que cobre toda uma parede da sala de interrogatório. Por um momento ele se detém diante do seu reflexo e parece examinar algo que eu não consigo determinar o que é. Não parece ser a sua aparência, que está realmente horrível depois de tanto tempo sem dormir sendo interrogado, nem para os hematomas que cobrem o seu rosto, apesar dos meus avisos para o Peixoto não deixar marcas… Não, parece ser algo nele, algo que eu não consigo perceber, ou talvez não consiga ver. O que quer que seja gera uma breve fagulha de emoção, que não dura mais que um instante antes de ser suprimida e ele voltar a impassividade normal enquanto bate no vidro – Vocês que estão ai, me ouviram? Tem dez minutos para decidir. Por mim não faz diferença.

Eu fico alguns instantes o observando antes de sair da sala para tentar convencer o delegado a soltar ele, talvez dizendo que nós podemos pegar ele rapidamente depois. Não que eu ache que isso vá fazer diferença. Mesmo que nós trancafiássemos ele e jogássemos a chave fora, não haveria justiça ou vingança. Não acho que faria ao menos algum sentido. Simplesmente não teria contexto.

Estrelas

No fim nada muda realmente. Quando eu era jovem eu andei por todo o mundo e hoje apenas espero sentado pela morte, mas em ambos os casos eu tento alcançar a mesma coisa. É engraçado pensar que isso tudo começou de forma tão insuspeita. Mesmo hoje vejo que não havia como evitar. Não há como não se apaixonar por uma estrela. É essa a razão de sua existência, serem musas… Não, mais que isso, ideais. Elas existem para que nós, meros mortais, possamos aspirar ser mais, para que tentemos ir mais longe, mas sabendo que nunca, jamais poderíamos alcançá-las. E por causa disso o final também era inevitável. Como poderia eu, um mero vira-latas na época, conseguir alcançar uma estrela? É engraçado só de pensar, mas ainda assim eu levei a serio. Se houvesse uma possibilidade eu me agarraria a ela, e assim eu fiz. Pensei que se me tornasse algo mais do que eu era eu poderia chegar lá. Que bobagem. Nada muda assim. Eu já sabia disso, mas o que eu podia fazer? Estava entorpecido demais para raciocinar. Assim eu iniciei uma busca, uma jornada, para tentar ser algo que pudesse alcançar, o que em ultima instancia é apenas um fantasma. Pois no fim é o que cada uma delas é. Assim como os ideais, assim como os sonhos, assim como as que estão no céu, as estrelas que andam pela terra são apenas fantasmas criados pelas nossas mentes. Ilusões. Ah, mas que ilusões doces, mesmo no amargo momento em que se tem que encarar a realidade e ver que o que se busca não existe. Assim, no fim queimei minha juventude, minha identidade, minha vida tentando alcançar algo que não existia, mas não me arrependo. Porque ainda acho que valeu a pena. Porque aqui em minha cadeira, onde espero a morte, eu ainda estico meus braços para tentar alcançá-la nas noites sem nuvem. Porque nada muda realmente.

Desterro

Ivan olhava perdido para as escuras e plácidas águas do rio, tão calmas que parecem mais um espelho, enquanto o barqueiro conduzia sua balsa com a leveza que somente alguém com tantos anos de oficio poderia ter, o que dava a impressão de que estavam navegando sobre um grande espelho. Tudo era tão silencioso que Ivan conseguiria ouvir as batidas de seu coração, se sua mente não estivesse ocupada em uma batalha ferrenha travadas por seus pensamentos conflitantes sobre o que estava prestes a fazer, mas logo essas duvidas caíram por terra quando o barqueiro o despertou de seu transe dizendo que o destino estava a vista. A frente deles havia uma pequena mas belíssima ilha verdejante, coberta por milhares de flores de todas as cores imagináveis, visão essa que maravilhou Ivan, pois este via encarnado um sonho de muito tempo atrás. Ela estava lá, ele agora tinha certeza. A balsa aporta na ilha e Ivan salta para a praia.

– Quanto tempo eu tenho? – Pergunta ele ao barqueiro.

– O quanto você precisar. – Responde o barqueiro, dando os ombros enquanto se recostava indolentemente em seu remo – Na volta nós acertamos o pagamento.

Ivan então olha mais uma vez para seu reflexo nas águas, receoso de que estivesse mudado demais para que ela o reconhecesse. Mas não havia como voltar agora, não depois de ter ido tão longe. Ele segue durante algum tempo por uma trilha e lá estava ela, exatamente como Ivan se lembrava, até vestindo o mesmo vestido branco que da ultima vez que a viu. Ele se aproxima hesitante enquanto ela parece distraída.

– Pode chegar perto que eu não mordo. – Fala ela, antes de se virar para Ivan com um sorriso no canto da boca – A menos que você queira, claro.

– Bia? – Pergunta Ivan, ainda receoso.

– Até onde eu sei. – Responde Bia – Mas isso sempre foi muito complicado.

– Mais do que deveria… – Fala Ivan agora sorrindo.

– Você não tinha morrido? – Pergunta ela em um tom casual.

– Não, não. – Ele responde baixando a voz, como que falando para si mesmo – Fazer isso é mais difícil do que parece.

– Tem certeza? – Pergunta Bia com o olhar com que de uma criança curiosa – Olhando daqui eu tenho minhas duvidas…

– É o tipo de coisa que eu notaria se tivesse acontecido. – Responde Ivan, rindo.

– Não sei não, Ivan… Você sempre foi tão distraído. – Fala ela, balançando a cabeça em um modo de reprovação maternal – Mas onde você esteve esse tempo todo então?

– Por ai, pelo mundo… – Fala Ivan, fazendo morrer seu sorriso.

Ela volta seu olhar para as flores em volta dela e começa a cantarolar uma velha canção de ninar, mas Ivan percebe que Bia cerra os punhos com força, até filetes de sangue começam a sair das palmas das suas mãos.

– Ah, o mundo… – Ela fala ainda sem olhar para Ivan – Ele ainda continua o mesmo?

– Não, não, ele mudou. – Responde Ivan – Tudo lá sempre muda.

– Não aqui. Aqui eu estou segura. – Ela fala abraçado a si mesma, manchando seu vestido branco com suas mãos ensangüentadas – Me exilei em um sonho, sabe? Até que existem certas vantagem em se ser louca. E você, Ivan, mudou com o mundo?

– Menos do que seria saudável, Beatriz, – Ele fala enquanto se abaixa e delicadamente acaricia o rosto dela – porque certas coisas nunca vão mudar.

– Isso é mal. – Bia responde com um olhar serio.

– Nem tanto. Foi o que me trouxe aqui, afinal. – Diz Ivan com um sorriso apaziguador –Um belho sonho, devo dizer. Eu lembro quando você pintou ele. Ainda tenho a tela.

– Eu não tinha rasgado ela? – Ela pergunta.

– Eu acabei encontrando os restos. Nada que um pouco de fita não resolvesse. – Ele responde com um ar de genialidade.

– Mas não é a mesma coisa. – Ela diz enquanto se levanta e se afasta de Ivan.

– Não, nunca é… – Ele diz ainda com os braços estendidos na direção dela.

Os dois ficam imersos em um silencio profundo. Bia fica de costas para Ivan, observando o horizonte, enquanto ele tenta hesitante mente se aproximar, mas acaba se detendo.

– O que você faz aqui, Ivan? – Ela pergunta sem se virar para ele.

– Eu… Senti saudades. – Ele responde hesitantemente.

– Nós tínhamos feito uma promessa lembra? – Fala Bia em meio a soluços, mas ainda sem se virar para Ivan – Não iríamos deixar o mundo nos mudar. Iríamos ficar seguros, juntos, criar um exílio só para nós. Mas você não veio. Você mudou.

– Acontece. – Diz Ivan, mantendo a distancia.

– Aqui não é o seu lugar. Seu lugar é o mundo. – Fala Bia em um tom autoritário.

– Eu sei, mas… – Tenta replicar Ivan.

– Apenas vá. – Interrompe Bia.

Ivan apenas se cala e a observa por um tempo, antes de voltar para a praia, sem olhar para trás, onde o barqueiro esperava indolentemente deitado em sua balsa.

– E então, como foi? – Pergunta o Barqueiro, ainda bocejando.

– Como eu esperava. – Responde Ivan, evasivo.

– Sempre é. – Continua o Barqueiro – Agora quanto ao pagamento…

– Diga o seu preço. – Interrompe Ivan.

– As duas moedas de prata de sempre já estão de bom tamanho. – Diz o Barqueiro.