A Verdadeira História da Morte de Tony Felucci

Tenho certeza que todos vocês ouviram várias histórias sobre a morte do famigerado Tony Felucci. Bem, esqueçam elas. Todas mentiras deslavadas. Veja a mais comentada, por exemplo, que diz que a policia fez uma queima de arquivo. Saiu até no jornal. Completa bobagem. A única coisa de que podemos acusar os tiras é de terem sido tão incompetentes que é bem capaz de eles terem inventado essa versão para não virarem piada. Onde já se viu deixar uma testemunha em potencial, somente acompanhado por um guardazinho rodoviário, em uma cabine de pedágio?

Não, também não foram os japoneses. Nem os chicanos, ou os colombianos, russos, vietnamitas… Enfim, nenhuma das milhares de máfias e gangues que infestam aquela cidade. Não por falta de vontade claro. Porque antes de qualquer coisa, o Tony era um escroto. Inclusive profissionalmente. O esquema era o seguinte: Todo mundo na cidade sabia que os italianos, que serviam a família Felucci, eram poderosos o suficiente para esmagar todos os outros criminosos em um raio de 200 km, juntos. Tony Felucci era o filho mais novo do chefão da família, Giacomo Felucci, e, como o bom playboy mimado que era, vivia arrumando confusão pela cidade, principalmente com os outros grupos de marginais. Ele comia e bebia de graça, roubava mulheres e dinheiro, quebrava bares… E se alguém resolvesse dar um corretivo que ele merecia, no outro dia os italianos chegavam com toda sua força e exigiam uma compensação pelos danos ao “herdeiro”. Assim, em pouco tempo metade das gangues da cidade estavam devendo aos italianos. E ninguém, claro, tinha coragem para dar um jeito em definitivo no desgraçado. Isso até o Dorinho chegar.

Alagoano de Inhapí, pistoleiro desde menino, Dorinho é to tipo do sujeito com quem você não puxa briga mesmo se nunca ouviu falar do Sertão. Ele estava hospedado comigo a pedido do patrão dele, um deputado lá do Brasil, que pediu para que eu escondesse ele até a poeira baixar por lá. Ele passou quase um mês por aqui sem maiores incidentes, até a noite em que Tony Felucci foi ao meu estabelecimento procurando confusão. Em uma noite normal ele ia encher o saco por uns quinze minutos, ganhar umas rodadas de bebidas de graça, talvez uma garota, e se mandar. Mas ai ele quis justamente pegar a mulher que Dorinho tinha escolhido pra noite. Antes que eu pudesse reagir o playboy já estava no chão com dois dentes quebrados e uma peixeira apontada para o pescoço. Só com muito esforço eu consegui convencer Dorinho a não sangrar o moleque ali no meio do salão. Tony aproveitou a brecha que teve, mas não sem antes prometer que no outro dia Dorinho ia dormir com os peixes e meu estabelecimento ia ser só cinzas. Essa foi gota d’água. Dorinho ficou louco, revoltado em sofrer ameaças de um “boyzinho com jeito de viado”, perdeu a cabeça e resolveu resolver o problema a moda do Sertão, ou seja, na bala. Depois de me arrancar o endereço da mansão dos Felucci, e ignorar todos os meus pedidos para desistir dessa loucura, ele saiu desembestado pela noite.

Depois disso encerrei a noite, dispensei as meninas e passei o resto da madrugada em claro, já tentando bolar um jeito da dizer para o deputado que o jagunço de confiança dele tinha morrido, quando Dorinho entrou pela porta, todo coberto de sangue e bufando de raiva feito um possuído. Você deve ter visto nos jornais. Eles chamaram de “O Massacre da Mansão da Máfia”. 37 mortos, todos eles bandidos perigosos e bem armados.  Na hora eu também achei difícil de acreditar, mas pode apostar que ele fez isso tudo sozinho. Assim, em uma noite só todos os cabeças do maior sindicato do crime da cidade estavam mortos. Todos menos Tony Felucci. Pois ele, como sempre fazia depois de levar a pior na noite, foi afogar as mágoas em um clube de strip uns 30 km do centro, praticamente fora da cidade.  Dorinho estava furioso por não ter matado ele, e eu louco para que a merda jogada no ventilador não respingasse em mim. Em tempo recorde eu consegui um carro frio e parti com o Dorinho rumo ao México, depois de usar toda minha macheza acumulada nos meus tempos de retirante para convencer ele a desistir de caçar o playboy. Enquanto isso um policial rodoviário parou o carro do Tony por excesso de velocidade e quando viu quem era que ele tinha detido avisou imediatamente a central, que mandou ele ficar onde estava que os reforços estavam a caminho. Foi ai que nós vimos eles.

Eu mal tive tempo de processar a pergunta quando Dorinho disse “Cabra, tu dá muito valor a esse carro?”. Sorte que eu não dava, porque antes de eu sequer esboçar uma resposta ele jogou o carro para cima da cabine de pedágio onde estavam o guarda e Tony Felucci. Por sorte o policial ficou desacordado, mas vivo. O Tony também sobreviveu, mas depois da batida Dorinho saiu calmamente, apontou o seu .38 para a cabeça do moleque e disse as ultimas palavras que Tony Felucci ouviu nesse mundo:

“Avise pro cão que tu mexeu com o cabra errado, seu baitôla!”.

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