Contando Gotas

– Uma, duas, três…

Eu conto as gotas que vão enchendo a taça devagarinho, repetindo em voz alta para não perder a conta. Mamãe chama disso de “exercício”. Diz que isso é bom pra mim, que assim eu aprendo a contar. Eu sou ruim de conta. As outras crianças sempre me chamavam de burra por causa disso. Eu sempre voltava pra casa chorando, até a mamãe chegar.

– Vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove…

Eu lembro como as crianças eram más. Nunca me chamavam pra brincar, nunca conversavam comigo. Não. Eles só faziam me chamar de nomes, nomes feios. Corriam atrás de mim, jogando pedras, rindo. As pedras não me machucavam, mas doía. Doía muito por dentro.

– Quarenta e duas, quarenta e três, quarenta e quatro…

Mamãe diz que eles faziam isso por inveja, porque eu sou uma menina muito especial. Eu não acho. Eles faziam isso porque eu era sozinha, porque eu não tinha ninguém. Porque eu tinha medo. Mas agora mamãe tá aqui comigo. Agora são eles que tem medo.

– Por favor… Me deixa sair. Tá doendo… Eu quero ir pra casa… – Um deles fala.

Eu olho em volta para ver eles, pendurados pelos pés no teto. Mamãe diz que assim fica mais fácil pra nós, nós não precisamos sair. Ela diz que lá fora tem gente perigosa pra nós. Ela não diz, mas eu sei que foi um presente para mim. Agora eu posso machucar eles tanto quanto eles me machucaram. E isso é bom.

– Shhhhh. Fica quieto. Me fez perder a conta, agora eu vou ter que começar de novo.

Eu bebo o que eu já tinha recolhido na taça e abro outro corte nele, mas com cuidado. Mamãe diz que nós não podemos desperdiçar. Ele começa a chorar, enquanto eu recomeço a contagem.

– Uma, duas, três…

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Eden

Eu a havia perdido não fazia muito tempo, por complicações na gravidez daquele que seria nosso primeiro filho. Estava arrasado, então decidi me refugiar, longe de tudo e todos, na casa de campo. Era uma casa antiga de madeira, situada nas profundezas de um bosque, que ela havia herdado de uma tia-avó a muito tempo. Foi o lugar onde havíamos passado nossa lua de mel e onde nosso filho havia sido concebido.

Cheguei lá no final da tarde, já sendo saudado pela sinfonia doa animais noturnos que habitavam aquele bosque, um pedaço de lugar selvagem que parecia haver ignorado o domínio dos homens no mundo. Eu, no entanto, ignorei tudo aquilo, entrando imediatamente na casa e indo diretamente para a cama, tamanho era meu cansaço, físico e psicológico.Eu me deitei, deixando o ritmo do relógio de pendulo que estava no quarto embalar meu sono. Esperava por um tranqüilo sono sem sonhos. Ledo engano.

O sonho começou de modo familiar. Ela veio deslizando sobre a cama sinuosamente como uma serpente, esfregando seu corpo no meu. Tentei falar algo, mas fui calado por seus beijos, selvagens e cheios de desejo. Ela então se encaixou habilmente por cima de mim, apertando as suas coxas em volta da minha cintura enquanto eu a penetrava. Tudo a nossa volta era silencio, a não ser pelos rangidos que o ritmo dela arrancava cada vez mais fortemente da cama. Eu mesmo não ousava fazer nenhum ruído. Não por medo, porque naquela hora essa emoção ainda nem chagasse perto da minha mente, embora ela já se esgueirasse através dos cantos escuros e movimentos insuspeitos na periferia da visão. Meu silencio era por puro assombro, essa que é a única palavra que pode descrever a sensação que me possuía enquanto ela me cavalgava parecendo uma daquelas deusas antigas. Eu não conseguia ver o rosto dela, envolto nas sombras que pareciam saltar das paredes daquela casa, mas não me incomodava. Não precisava vê-la para saber quem ela era. Bastava senti-la e me sentir como sendo parte daquele ser tão sublime que saciava seus desejos comigo. Então, quando atingimos o ápice não resisti e deixei escapar um longo gemido.

– Mais baixo, querido. – Ela falou abaixando seu rosto para junto do meu, onde eu finalmente pude vê-la, exatamente como da ultima vez que a vi, seu rosto pálido emoldurando assustadores olhos vazios e sem vida. – Ou você vai acabar acordando nosso bebê.

Ao dizer isso ela me beijou, enquanto eu me debatia desesperado. Acordei arfando,amaldiçoando a mim mesmo por aquele sonho terrível. Então eu percebi a mancha de sangue, escuro e viscoso, que cobria minha virilha nua e que seguia formando uma trilha até o quarto anexo. O quarto que seria do nosso bebê. Assustado eu me levantei e fui seguindo a trilha até chegar na porta do quarto anexo. De lá eu pude ver um vulto, contrastando com a fantasmagórica luz da lua cheia que entrava pela janela aberta.

– Venha, querido. – Falou o vulto se voltando para mim – Venha conhecer seu filho.

Eu corri, no mais completo pânico, sai da casa, entrei no meu carro e sai dirigindo a toda. Nunca mais voltei aquela casa. Mas, até hoje, ainda sou acordado no meio da noite pelo choro desesperado de uma criança.

A Menina e o Vento

Sofia era diferente, mas isso não era algo se notasse a primeira vista. Aos menos observadores se tratava de uma menina como todas as outras, uma pequena e vivaz criatura que ainda desfrutava de uma alegria e deslumbramento que os adultos apenas lembravam com saudosos suspiros. Seu jeito tão pouco despertava alguma estranheza, mesmo ela sendo tão distraída e reservada, pois atribuíam isso a idade. Ninguém então a via como diferente, porque sua diferença estava aonde só ela e mais ninguém podia ver, em seu coração. Pois Sofia amava o vento. E não se tratava do mesmo amor que os marinheiros sentiam pelo mar ou do dos astrônomos pelas estrelas, mas sim algo mais puro e profundo, aquele sentimento que mesmo os mais afortunados só sentem apenas uma vez em toda a sua vida.

Sofia gostava de pensar que o amava desde sempre, pois certamente o fazia desde antes que a frágil memória pudesse alcançar. E assim ela viveu sua vida, gravitando em torno desse amor assim como um planeta em volta da sua estrela, mesmo desde antes que pudesse entender o que era o amor, quando apenas havia uma boa sensação sem nome que a fazia feliz. E ela era feliz não porque amava, mas porque também tinha certeza que era amada. Ela ouvia as canções de seu amado, sussurradas por entre as frestas de sua janela, embalando seu sono e trazendo bons sonhos, desde que conseguia se lembrar, e sentia suas caricias em seu rosto quando se encontravam nas horas despertas.

Sofia era bailarina, mas não gostava de dançar. Ela gostava sim das piruetas, que lhe davam a impressão de estar flutuando liberta do chão nos braços do seu amado, e nessas horas ela ria um riso que só aqueles que amam e são amados conseguem expressar. Mas, se havia algo que manchava sua felicidade era o fato de estar presa a terra fria e sem vida em vez de ser livre para voar com o vento. As vezes ela sonhava que estava voando, mas ao acordar e perceber que era apenas um sonho caia em um pranto profundo, que nem mesmo a voz de seu amor soando em sua janela conseguia aplacar.

Sofia não gostava dos pássaros, pois os invejava por terem nascido com dom que tanto almejava, mas ainda assim os buscava, implorando que lhe contassem seu segredo. Ela os encontrava em um grande despenhadeiro perto do mar, onde o vento soprava forte, sempre ao por do sol, quando eles retornavam com suas vozes barulhentas para seus ninhos. Lá ela girava e rodopiava ao sabor do sopro do seu amado, enquanto pedia aos barulhentos pássaros que lhe contassem o segredo de seu dom, para que pudesse finalmente ser verdadeiramente feliz sem nenhum impedimento. Eles nunca a respondiam, até que um dia, apiedados da menina apaixonada, resolveram dividir com ela seu segredo. Ela voltou para casa e dormiu. Sonhou que voava naquela noite, mas não houve choro ao despertar. Passou o dia em uma solene despedida por tudo e todos a quem possuía apreço. E então, ao por do sol, com o vento soprando toda sua força, ela girou na borda do despenhadeiro como sempre fazia, mas dessa vez deu um passo em falso e desapareceu pela borda, sorrindo como nunca.

Sofia nunca mais foi vista. Mas, dizem, quando o vento sopra forte é possível ouvir junto dele um riso de uma menina. Um riso que só aqueles que amam e são amados conseguem expressar.

O Peso

– Levanta essa cabeça, menino. – Ela fala, sorrindo candidamente enquanto olha para mim – Você é novo demais para carregar o peso do mundo assim nos ombros.

Ao ouvir ela falar eu levanto os olhos do meu livro e acabo vendo meu reflexo nas vidraças da sala onde nós estamos. Quase tomo um susto. Cabelos desgrenhados, olheiras imensas, barba por fazer, roupas desalinhadas… Em resumo, a própria imagem do desalento. Nada de se estranhar, considerando a vida que eu ando levando. O que me assusta é a minha postura, com a cabeça baixa e os ombros caídos quase como se fossem a qualquer momento se soltar e cair no chão. Como se eu estivesse derrotado.

– Não, não. – Eu respondo, balançando a cabeça e tentando retribuir o sorriso que ela me deu – Não é o mundo que me incomoda. Pra esse peso eu nem ligo. O difícil é ter que carregar nos meus ombros o peso da minha própria vida.