O Baile da Ilha

Sandoval era um homem comum. Moreno, baixo e um pouco acima do peso, este funcionário público, casado e pai de dois filhos, era indistinguível de milhares de outros que existem por toda parte, não fosse por duas características marcantes: seus olhos azuis (“Presente do meu bisavô alemão.”, ele costumava dizer) e seu amor pelo carnaval. Durante todo ano ele planejava o baile da ilha, maior evento do carnaval da cidade, montando a programação, fazendo inúmeras visitas a prefeitura e a empreses em busca de patrocínio e ensaiando com a banda da ilha, atração principal de todos os anos. Todo esse trabalho era compensado pelos seis dias de folia, uma alegria que Sandoval comparava com a que sentiu no nascimento dos seus filhos.

Assim, quando recebeu o diagnóstico de que tinha apenas um mês de vida, a primeira reação dele foi perguntar “Mas então eu não vou ter meu último carnaval?”. Ele buscou segundas opiniões, tratamentos alternativos… tudo que pudesse lhe comprar mais algum tempo. Mas a resposta era sempre a mesma e os dias rareavam. Dizem que em seu desespero Sandoval buscou uma bruxa, para que ela o colocasse em contato com a própria morte. E ela assim o fez.

Aconteceu em um sonho, segundo dizem. Sandoval sonhou que estava no bar do Anísio, seu compadre que havia morrido alguns anos antes, sentado junto de um homem de aparecia comum, bastante familiar. O homem sorriu e falou:

– Pois bem. Você me chamou e aqui estou eu. Em que posso te ajudar, Sandoval?

– Preciso de mais tempo. Para o meu último carnaval. Por favor!

– Não, não precisa. Vocês tem seu tempo e já usou quase todo.

– Mas… Você não pode dar um jeitinho?

– Isso aqui não é o serviço público, ok? Seus dias são contados e fim de papo.

– Espera. Você disse dias contados? Então talvez haja uma coisa…

Na manhã seguinte Sandoval estava morto, seis dias antes do mês que lhe foi dado como prazo. Houve uma comoção geral na cidade, até mesmo o prefeito foi pessoalmente prestar condolências à família. Houveram grandes planos para transformar o carnaval seguinte em uma grande homenagem ao Sandoval, mas sem sua energia incansável logo todos foram desistindo. Logo todos se conformaram que sem seu principal colaborador o baile da ilha seria apenas uma pálida imitação.

Para a surpresa de todos, no começo da noite da sexta de carnaval, ouviu-se o inconfundível frevo da banda da ilha. Mais afinada do que nunca e comandada por um musico mascarado do qual só se podiam distinguir os olhos azuis, a banda circulou por toda a cidade, arrastando uma multidão para o baile da ilha. E que festa foi aquela. Durante todo o carnaval o incansável mascarado liderou a folia sem parar por um só minuto e toda a cidade o seguiu. Todos os que estavam presentes são unanimes em afirmar que nunca nenhum evento jamais será como foi aquele baile.

Após o carnaval, o misterioso mascarado desapareceu. Josete, viúva de Sandoval, desconfiada que a morte dele pudesse ter sido algum tipo de truque mandou exumar seu corpo. Ele foi encontrado dentro do seu caixão, da mesma forma que havia sido deixado quando foi enterrado, com apenas uma diferença:

Um largo sorriso de satisfação no rosto.

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