Cecilia

Eu respiro fundo, irritado como sempre, mas Cecilia está mais feliz do que nunca, rindo como uma menininha enquanto rodopia em volta de si mesma agarrando firme o casaco que eu trouxe para ela. Mais parece que ela tem em mãos um bebê, tamanha era a alegria e delicadeza com que ela segura esse pedaço velho e sujo de lã. De minha parte eu apenas a observo, tentando não parecer muito emburrado.  Não que ela ligue, mas eu não quero correr o risco, o que me deixava ainda mais irritado. É sempre assim. Quando ela precisa de algo me chama e lá vou eu, encontra-la nesse galpão de fabrica abandonado, que tem tanto mato que mais parece uma imensa estufa agora, cheia de hippies, mendigos, drogados e todas as combinações possíveis dessas “qualidades”. Sempre me dá trabalho e nem me agradece, nem ao menos chega a olhar para mim. Ela simplesmente fica vidrada, apertando o que quer que fosse o objeto da vez bem forte contra o corpo, envolvendo-o com seus braços finos. A peça da vez é “O casaco favorito de um avô muito amado”, como ela disse. Sempre são coisas assim, sem valor comercial e com muito valor sentimental, o que torna a sua aquisição sempre algo muito espinhoso, mas no fim eu sempre consigo o que ela queria. Nunca entendi o porquê dela querer essas coisas. Penso sejam o vicio dela, pois ela os agarra como se quisesse tomar para si a afeição que os antigos donos tinham pelos objetos, mas é só uma suposição. Ela nunca me contou e eu já não me importo mais, ao menos não com as razões. Já cheguei a prometer para mim mesmo que nunca mais faria isso por ela, mas bastava que ela me chamasse eu ia, mesmo a contragosto, mesmo me odiando por isso. Mas nunca, nunca conseguindo odiar ela.

– Por que eu, Cecília? – Eu pergunto.

Ela olha para mim com um leve tom de surpresa, como se não esperasse que eu estivesse ali e então sorri docemente e diz:

– Ué, alguém tinha que ser.

A Varanda

– Você faz isso parecer tão fácil, sabia? – Fala Ana, deixando escapar uma inflexão de raiva em sua voz.

Valter olha para ela e não diz nada, apenas a estuda com uma expressão misturando duvida e surpresa. O rosto dela, por sua vez, não tinha expressão alguma, parecendo frio e austero como o de um busto de mármore, sua alvura contrastando com o céu cinza formando uma imagem tão serena… Mas Valter não se deixa enganar pelas aparências, pois a conhece bem demais para isso. Ele percebe que por debaixo do casaco que Ana usava para se proteger do frio, seu casaco, que ela só aceitou emprestado depois de muita insistência, ela aperta os braços contra o corpo com tanta força que Valter chega temer que ela acabe quebrando algum osso. E em nenhum momento ela faz menção de olhar para ele.

– O quê… O que eu faço? – Fala Valter, escolhendo as palavras com cuidado.

Tanto o rosto quanto o olhar de Ana permanecem inalterados, mas Valter percebe a tensão se avolumando, se espalhando pelo pescoço dela como as águas de uma enxurrada sobre o leito seco de um rio intermitente e isso faz com que ele prenda a respiração. Ele sabe o que virá a seguir.

– A vida, tudo… – Responde Ana, com a voz vacilando com o peso da duvida – Você vive como se tudo fosse tão simples e fácil…

– Não é isso que te incomoda. – Interrompe Valter.

– Você acha que sabe tudo, não é? – Fala Ana finalmente olhando para ele.

Por um momento Valter não diz nada, apenas a olha nos olhos com uma expressão calma temperada com um pouco de tristeza enquanto ela respondia com um olhar carregado de raiva, quase escondido por trás da maquiagem borrada.

– Não, não sobre tudo. – Responde Valter placidamente – Só sobre você.

– Cala a boca. – Fala Ana, desviando o olhar.

– Não, agora você vai me ouvir. – Continua Valter – Você diz que a maneira como eu vivo te incomoda, mas você sabe que não é isso. Se fosse você não estaria comigo. O que te incomoda é o que eu faço com você. Porque eu te faço se sentir bem e isso acaba com você. Algo te aconteceu antes, te machucaram, muito, e no fim você achou que o mundo, o universo, estava contra você e decidiu viver assim. Criou esse mundinho de dor e ficou segura nele até que eu apareci, não foi? Eu cheguei e comecei a cuidar de você, a estar do seu lado e até te trazer para ver a chuva cair como você me disse que tanto gostava. Ai as coisas deixaram de fazer sentido como antes. Agora tem alguém que te ama e no fundo você sabe que me ama também. Você deixou de ser a coitadinha e de estar sozinha contra o mundo. Ai você me odeia. Odeia porque eu estou acabando com o sentido que você criou para sua vida.

No fim Valter se aproxima de Ana, o rosto dela inundado por lagrimas mal contidas, e segura suas mãos, tingidas de branco pela força com que ela apertava a si mesma como se precisasse se segurar para não ser levada pelos ventos de um furacão.

– Não precisa ser assim, você sabe. – Continua Valter sorrindo gentilmente – Tudo pode mudar.

– Não! – Ana grita, o empurrando para longe.

Valter se desequilibra e acaba caindo pela varanda, tudo tão rápido que o olho humano mal consegue acompanhar. Menos para Ana. Tudo para ela acontece em uma torturante câmera lenta que dura, horas, dias, e em todo esse tempo Valter estava ao seu alcance mas ela não conseguia se mexer. Quando finalmente o torpor passa Ana grita. Grita até depois de ficar sem voz, até sua garganta sangrar, na vã tentativa de fazer com que doesse mais do que sua alma.  E no meio disso tudo ela sorria. Porque agora tudo fazia sentido novamente.

Sonhos de Gloria e Morte

Está tudo perdido. Nem precisaria olhar para as forças do inimigo a minha frente para saber disso, pois está estampado em cada um dos meus soldados. Uns agarram suas armas com tanta força que os nós dos dedos empalideciam, outros apenas sorriem com um olhar selvagem, mas não importa, a situação não muda. Cada um de nós sabe que vai morrer hoje. Aqui.

– Quantos deles você acha que são, senhor? – Me pergunta o General Lawrence.

Nesse momento eu só consigo pensar em como as coisas mudam. Antes disso tudo ele era um homem ambicioso que me desprezava e faria qualquer coisa para estar na posição que eu ocupo hoje, mas agora aqui está ele me seguindo em direção ao inferno.

– Uns 10 para cada um de nós. – Eu respondo olhando para as linhas inimigas – Eles não deixariam nenhuma brecha para uma ultima vitória heróica. São cuidadosos demais para isso.

Lawrence ri do meu ultimo comentário enquanto eu continuo observando o inimigo. Eles sabem tão bem quanto nós que não temos chance e estão adorando isso. Mesmo estando longe demais para discernir rostos eu sei que cada um deles está sorrindo, se regogizando com a matança que virá, já saboreando o banquete da vitória que virá depois. Então eu me volto para os meus homens, cada um com sua expressão de morte e pigarreio para chamar sua atenção e ajudar as palavras a saírem.

– Fala de coisas boas, algo como “Tenham esperança.”, “Nosso sacrifício não será em vão.”, ou “Nossos nomes serão lembrados para sempre.”. – Fala Lawrence ao meu ouvido – Você é o comandante supremo, eles vão acreditar.

– Eu sei, eu sei. Algo para que eles ao menos morram felizes… – Eu respondo para ele até ser interrompido pelo som dos gritos do inimigo.

Quando me volto para eles eu os vejo marchando em uníssono, seus passos soando como milhares de tambores. Dessa vez eles não vem correndo cheios de selvageria e fúria na nossa direção como fizeram em tantas outras batalhas. Não, dessa vez eles vem lentamente, para aproveitar cada segundo do nosso desespero. Ai eu a vejo. A frente deles, em seu cavalo branco e com sua foice mais afiada do que nunca, a morte. Minha morte. Finalmente ela veio me buscar depois de tantas vezes que escapei por entre seus dedos. Olho para meus soldados e percebo que cada um deles viu a mesma coisa que eu e, por algum motivo, isso me conforta. É como se tudo houvesse passado. No inicio havia esperança da vitória, substituída depois o desespero da derrota, mas agora… Há apenas uma certeza.

– Homens, hoje é o dia da nossa morte. – Eu falo para eles – Gostaria de poder dizer que nossos nomes serão lembrados para sempre ou, melhor ainda, que algum milagre nos daria a vitória hoje. Mas sabemos não será assim. Não podemos vencer, não importa o que façamos, e quanto a história… Nossa história morre aqui conosco. Só os vencedores podem passar suas histórias adiante e nós já perdemos essa guerra bem antes de virmos aqui lutar uma ultima vez. Nossos nomes e tudo que fizemos, nossos feitos e glorias, serão esquecidos por todos. E é por isso que vinhemos aqui. Porque eles serão os únicos que se lembrarão de nós. Porque depois de hoje, em meio as suas bravatas de escárnio e hinos de vitória eles nunca nós esquecerão. Porque lá, enterrado no fundo de suas almas, haverá o medo! Medo de que algum dia, de algum modo, nós possamos voltar!

Me volto de novo para os inimigos que vem ainda em sua lenta marcha e sorrio. Sorrio porque hoje eu irei morrer. Sorrio porque nenhum deles jamais esquecerá esse dia.