O Fim

É o fim. Não consigo raciocinar direito, há apenas a dor agora. Dor de verdade, pra valer, havia décadas que eu não sentia, tanto que até achava que já havia esquecido da sensação. Não, não, ninguém esquece essas coisas de verdade. É como andar de bicicleta. Eu me recosto na parede mais próxima e então olho para as minhas feridas, de imediato pensando como seria um belo espetáculo todo o sangue que jorraria deles caso ainda houvesse algum nas minhas veias. Eu sorrio a imaginar a cena e de algum modo isso me deixa feliz. É bom ver que mantenho alguns velhos hábitos até o fim. E então ele finalmente aparece, entrando pelo mesmo buraco na parede que eu abri usando minhas ultimas forças. A primeira vista parece um rapaz normal, daqueles que você vê aos montes andando pelos shoppings, mas ele tinha aquele olhar, algo que eu não vi desde o avô dele, eu diria. Não era coragem ou determinação, embora devo admitir que para ele ter feito o que fez tem as duas de sobra, era convicção, era uma certeza de que estava fazendo a coisa certa, não por alguma lei, mandado divino ou baboseira do tipo. Ele fazia isso por ele mesmo. O avô dele tinha esse mesmo olhar quando matou Caroline. Ah, doce Caroline. Linda, mas uma cabeça de vento, como era comum nas moças de família daquele tempo. Gostaria de dizer que eu trouxe ela para essa vida porque a amava e queria compartilhar com ela a eternidade, mas me conhecendo bem eu sei que foi só pela diversão de corromper uma moça de família. E quanta diversão nós tivemos até aquela noite. Tínhamos invadido uma casa e pendurado a dona feito um daqueles mostruários de açougue enquanto bebíamos dos pulsos cortados dela. Eu sai um pouco, para me lavar e pensar no que fazer com o filho dela que nós deixamos amarrado na cozinha, mas quando eu voltei Caroline já estava morta e havia um homem com uma faca arfando sobre seu cadáver. Quando ele me percebeu não recuou, apenas me encarou com aquele olhar, aquela convicção que eu só encontraria de novo hoje.

– Nada mal, rapaz. – Eu falo – Bem melhor que o covarde do seu pai ou o idiota do seu irmão. Nossa, aquele ali gritou feito uma moça quando eu acabei com ele…

Ele não reage, apenas se aproxima impassível com sua escopeta sempre apontada para mim. Rapaz esperto. Ele se aproximando assim até parece o próprio anjo da morte, vindo me cobrar por todos esses séculos que eu o enganei.

– Você assombrou três gerações da minha família. – Ele fala encostando o cano ainda quente da arma na minha cabeça – Você podia ter matado meu avô e eu pai e ter ido embora, mas invés disso deixou ele viver e acabou com tudo que ele amava, para depois fazer isso comigo e com meu irmão. Por quê?

Eu penso antes de responder, vendo nele a concretização da esperança que me veio quando eu vi o homem vitorioso sobre o cadáver da minha doce Caroline.Não, não foi por vingança que fiz isso. Simples vingança não valia todo esse trabalho. Eu fiz porque achei que ele poderia me deter. Com cada um deles foi assim. A eternidade sempre foi um fardo que eu não suporto, mas do qual nunca pude me desfazer. Me tornei um monstro e precisava ser detido e agora finalmente meu nemesis cumpre seu papel.

– Porque eu podia. – Eu falo e então sorrio de satisfação.

Ele continua impassível, assim como deve ser, e engatilha a arma para o tiro final. Da minha parte eu continuo sorrindo.

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Caricias

– Isso não deveria ter acontecido! Não pode ser! – Ela fala, tentando desesperadamente lavar as mãos na pia da cozinha e derrubando os talheres por todo o lado no processo.

Eu apenas a observo por um tempo, tentando avaliar o que fazer. Eu sei o que virá a seguir, apenas me sinto desconfortável com isso, principalmente porque a idéia de conforta-la me faz me sentir tão a vontade.

– Mas aconteceu. E não é nada bom. – Eu falo, finalmente me fazendo notar por ela, que não consegue conter o susto por me perceber.

Eu me aproximo devagar enquanto ela me olha e fica na defensiva, o que faz brotar uma leve magoa em mim. “Depois de tanto tempo ela deveria confiar em mim.”, eu penso, e não consigo conter o riso diante desse pensamento. Mas o sorriso morre quando meus olhos encontram os dela. Não há mais aquela vivacidade ou aquele ar desafiador no rosto dela, há apenas medo e uma profusão de lagrimas escurecidas por causa da maquiagem. Eu, meio sem perceber e sem querer, estendo a minha mão em direção a seu rosto, mas ela recua me evitando. De novo aquela breve sensação de magoa, mas dessa vez eu não acho engraçado.

– Você deve estar orgulhoso, não é? – Ela diz, tentando parecer desafiadora e orgulhosa – Matei ele do jeito que cada um de vocês faria se pudesse.

– Não. – Eu respondo, absolutamente serio, me lembrando da guerra – Nada de bom pode vir disso. Eu nunca desejaria isso para você.

Dessa vez ela que me olha nos olhos e vendo que eu estou sendo sincero ela se deixa desabar, deixando de lado a confiança que fingia para se entregar a um pranto amargo enquanto me abraça com força. Da minha parte eu esqueço a magoa que sentia. Como eu poderia culpa-la por agir assim? Eu apenas me aproximo de novo e passo minha mão pelo seu cabelo e acaricio. Por um tempo ficamos assim e uma parte minha gostaria que continuássemos assim até o fim dos tempos. Mas há muita coisa a se resolver. Eu a beijo, o seu cheiro tão doce e suave me fazendo hesitar por alguns instantes, e então gentilmente levanto seu rosto para que ela possa me encarar.

– Nós precisamos resolver isso. – Eu falo e ela assente afirmativamente – Mas antes…
Ao dizer isso eu delicadamente passo minhas mãos pelo rosto dela, limpando a maquiagem borrada que a cobria.

– Bem melhor agora. – Eu falo e ela ao perceber o que eu fiz ela sorri para mim, com aquele sorriso que só ela consegue fazer. As vezes eu penso que foi um sorriso desses que acabou me deixando desse jeito. Não deveria ser assim, um simples sorriso não deveria mexer tanto comigo.

– Eu matei um anjo. – Ela fala hesitantemente, tentando não acreditar naquilo enquanto olhava para suas mãos ainda cobertas por um sangue tão puro que a água não ousava lavar – O que acontece agora?

– A ira divina. – Eu falo, reflexivamente levando as mãos às cicatrizes nas minhas costas.

– E o que eu faço? – Ela me pergunta com um fio de esperança.

– Não há como escapar. Não com sua alma estando nos domínios dele. – Eu falo, parando antes de continuar. Isso está sendo mais difícil do que eu pensei que seria – E essa é a chave. Se coloque fora dos domínios dele e você vai escapar de sua ira.

– Você está propondo que eu… – Ela fala incrédula, se afastando de mim.

– Entregue sua alma para mim? Sim, estou. – Eu respondo olhando nos olhos dela – Esse é o único jeito. Eu não agüentaria ver ele te fazendo sofrer. E ele vai.

Ela fica me observando, parada como se fosse uma estatua, provavelmente tentando descobrir se eu falei a verdade. Eu falei. Não suportaria que ele fizesse com ela o que fez comigo e meus companheiros. Ela percebe isso. Mas mais do que tudo ela confia em mim.

– Tudo bem. Eu aceito. Ela é toda sua. – Ela diz e então me abraça ainda mais apertado – Até que foi uma boa idéia ter todo aquele trabalho para te trazer aqui, afinal…

– Não, não foi. – Eu falo ao mesmo tempo em que enfio em suas costas uma das facas da cozinha que estava jogada na pia.

Ela tenta se voltar para mim, mas dessa vez sou eu que a abraço forte. Eu faço isso porque não agüentaria ver o seu olhar traído. Ela se debate por um tempo e então para, mas não a largo. Fico agarrado com ela aproveitando os últimos resquícios do seu calor e do seu cheiro. Eu deveria ter aproveitado mais o seu ultimo sorriso. Eu deferia ter feito muitas coisas diferente. Ela me fez pensar que eu poderia ser salvo. Mas eu não posso mudar o que sou. Por mais que eu quisesse. Por mais que eu a amasse.

Se

– Se eu tivesse sorte isso não acabaria assim.

Há uma expressão vazia em seu rosto quando ele fala isso. Ele apenas olha para o teto, talvez perdido em pensamentos ou talvez pensando em nada, e então sua mão esbarra na dela, quase que por acidente. Ele hesita enquanto por um momento, ao mesmo tempo em que sua expressão demonstra uma suave manifestação de tristeza, mas então toma a mão fria e a enlaça na sua, sua expressão rapidamente voltando a mascara vazia que mostrava antes. A outra mão ele desliza pelo corpo dela suavemente mas sem carinho, há apenas uma curiosidade, uma vontade de explorar aquelas curvas que estão ao seu alcance. Assim ele o faz, até sua mão alcançar o rosto dela, o que o faz se virar e a olhar nos olhos. Mais uma vez ele parece perdido em pensamentos, e mais uma vez ele abandona momentaneamente sua expressão vazia, deixando brotar um sorriso no canto da boca, que dessa vez ele faz questão de não apagar. Ele a beija bem de leve e então se levanta, vestindo suas roupas e saindo do quarto, parando na porta.

 – Se você me amasse não teria morrido. – Ele diz ao apagar a luz e sair do quarto.

Conversa

O jovem anda lentamente na direção de um banco cercado por uma multidão de pombos que se alimentava das migalhas atiradas calmamente pelo velho ali sentado.

– Desculpa o atraso. – Fala o jovem, sem jeito.

– Não se preocupe. – Responde o velho sorrindo – Eu sabia que você ia demorar. Você sempre se atrasa pra tudo.

O jovem dá um resmungo mal humorado em resposta, se senta ao lado do velho e começa a alimentar os pombos também, formando um curioso retrato, pois eram muito diferentes, tanto quanto um jovem e um velho costumam ser, um de aparência bastante formal enquanto o outro parecia fugir disso de todas a maneiras, como convem as suas idades, mas também era estranhamente parecidos, ambos exalando um ar ao mesmo tempo desleixado e muito reservado.

– Você parece abatido. – Fala o jovem.

– Nem tanto quanto você, garoto. – Retruca o velho.

– É… Tem razão… – Concorda o jovem – Mas então me diz, como vai a vida?

– Minha vida já foi, garoto. – Corta o velho – Você devia era tomar conta da sua, que ainda tem alguma coisa de valor pela frente.

– Obrigado pela parte que me toca… – Resmunga o garoto.

– Não me entenda mal, rapaz. – Fala o velho – Eu só quero que você não perca seu tempo se preocupando comigo. Você já tem problemas demais.

– É… Eu sei… – Responde o jovem pensativo.

Os dois se calam por alguns instantes, jogando migalhas aos pombos enquanto olhavam ao vazio, pensativos.

– Mas então, me diz, – Pergunta o jovem – as coisas algum dia vão melhorar?

– Defina melhora… – Responde o velho reticente.

– Ah, você sabe. – Continua o jovem – Aquilo de que com o tempo todo se acerta, e que no final tudo da certo. Então com o tempo as coisas vão melhorar, um poço que seja, não vão?

O velho então se cala, e com um longo e profundo suspiro se vira para o jovem.

– Não, não vão. – Ele fala olhando nos olhos do jovem, com um semblante abatido no rosto – Eu bem que gostaria de te dizer que com o tempo sua vida ficaria mais fácil, que os problemas deixaria de se amontoar, que a solidão e a confusão desapareceriam e que você teria alguma chance de ser feliz. Mas não vai ser assim. Tudo vai continuar na mesma, se não pior, só que a essa altura você vai estar tão acostumado a isso tudo que nem vai perceber, e como o tempo nem sequer vai ser capaz de viver de outro jeito. Desculpa rapaz, mas é assim que vai ser.

Os dois ficam então em um silencio profundo, quebrado apenas pelas batidas de asas e pios famintos dos pombos que os cercam.

– Não… – Fala o jovem – Não precisa se desculpar. Eu até agradeço por me dizer a verdade. Melhor do que ficar criando falsas esperanças.

O jovem então se levanta e começa a caminhar seguindo seu caminho.

– Até… – Fala ele se despedindo – Espero que a gente se veja por ai de novo algum dia desses.

– Ah, nós vamos sim… – Sussurra o velho, falando para si mesmo – Um dia… Quando você se olhar no espelho.

Antes da Chuva

Marco a vê chegando a ponte e não consegue conter um leve sorriso de satisfação, pois realmente havia acertado, embora seja um riso amargo. Ele anda na direção dela, que por sua vez não o nota e apenas continua indo até chegar ao meio da ponte, onde ela sobe no parapeito sem um pingo de hesitação. Ela fica por um tempo olhando para o céu, onde os relâmpagos iluminam a massa de nuvens que se formava no horizonte, e Marco apenas a observa. Ele a vê sorrir e fechar os olhos, abrindo os braços para aproveitar a brisa noturna, o que o faz ranger os dentes. Ele nunca a havia visto tão contente.

– É como se o céu estivesse me chamando… – Ela fala para si mesma.

Ao ouvir isso Marco ri alto e ela se vira com uma expressão misturando raiva e surpresa.

– Homens mortos vêem sinais em tudo. – Ele fala enquanto balança a cabeça – Pelo visto isso se aplica a meninas também.

– Como você me achou? – Ela pergunta rispidamente e abandonando a postura relaxada em que estava.

– Eu te conheço. Alem do quê depois daquela cena na festa do seu pai esse era o único ligar da cidade para você fazer o que quer. – Marco responde dando os ombros.

– Você veio aqui me impedir, não é? – Ela pergunta agora recuando.

– Não, não. Se eu tivesse vindo com esse propósito teria trazido meu irmão e o Lucas. – Fala Marco em um tom serio – Eu só vim aqui tirar uma duvida.

– Você não vai me levar de volta! – Ela continua – Eu não vou deixar que eles façam comigo como fizeram com a minha mãe!

– Eu sei que não. – Marco continua – E por isso você está abandonando tudo, não é mesmo?

– Tudo? Eu não tenho nada! – Ela grita, arrancando o colar de ouro que usava no pescoço e o jogando no chão – Tudo isso são só coleiras! Barras de uma porcaria de uma cela dourada! Acha que eu tenho algo que tenha algum valor de verdade?

– Tem sim. – Diz Marco, olhando nos olhos dela mesmo sabendo que ela não notaria – Não que isso faça alguma diferença para você.

– Eu não vou deixar isso continuar. Isso acaba hoje. – Ela continua, dando passos em direção da beira da ponte – Acaba hoje. Eu finalmente vou ser livre e terminar do jeito que eu quero.

Ao dizer isso ela abre os braços e se joga. Marco apenas suspira.

– As vezes eu odeio estar certo. – Ele fala para si mesmo, dessa vez sem nenhum sorriso brotar em seu rosto.