O Homem Que Fazia Chover

Nunca fui muito de contar histórias, especialmente porque dada a minha natureza eu geralmente acabo só sabendo o final delas, e também porque depois de se estar tanto tempo por ai tudo acaba ficando um tanto repetitivo, sem contar que é raro encontrar algo de interessante que renderia algo para se contar. Mas acontece de vez em quando. Alem do quê, as pessoas são criaturas divertidas.

Uma dessas eu encontrei na cobertura de um velho prédio de escritórios abandonado em uma grande cidade. O lugar tinha se transformado no point dos suicidas e já era a segunda vez naquela semana que eu estava indo lá. Um sujeito gordo e careca na casa dos quarenta, um empresário recém falido se bem me recordo, era, com o perdão do trocadilho, a bola da vez, o que até ai era bem normal, especialmente naqueles tempos de crise. Mas ali havia algo de diferente, eu podia sentir. Enquanto o suicida ficava tendo seus momentos de hesitação no beiral do prédio eu comecei a olhar em volta procurando algo suspeito e foi então que eu o vi. A primeira vista parecia um daqueles mendigos loucos que as vezes se refugiam em lugares como esse, todo enrolado em uma capa de chuva provavelmente porque não tinha nenhuma outra roupa decente. Talvez estivesse lá para fazer um viveiro para os pombos ou algo assim, mas essa idéia foi descartada quando eu notei a forma desconfiada que tanto eles como os corvos, que se empoleirava ali a espera de uma refeição fácil, observavam ele. Ele por sua vez ficava olhando fixamente para o céu como se estivesse conversando com alguém, tão entretido que nem ao menos notou o ultimo salto do suicida do dia, que alias, se me permite um comentário pessoal, foi uma beleza de salto, tanto que se ele tivesse investido na carreira de saltos ornamentais com certeza teria vivido mais. Nesse momento eu pensei que ele era só mais um maluco conversando com os extraterrestres, Jesus, a fada dos dentes ou sabe-se lá mais o quê, quando simplesmente começou a chover. Sem qualquer aviso, de um céu que alguns segundos antes nem ao menos tinha uma nuvem sequer, começou a desabar uma tempestade torrencial. E ele apenas abriu os braços e sorriu, como se estivesse sendo cumprimentado pro velhos amigos. Devo admitir que isso foi bastante singular até mesmo para mim.

A segunda vez que eu o encontrei foi alguns anos depois em uma outra cidade, dessa vez em um farol abandonado perto de uma praia onde os jovens costumavam se reunir para se embriagar. Nesse dia eu estava lá por causa de uma moça que havia subido com o namorado, infelizmente esquecendo que estar muito bêbada e ir para lugares altos e inseguros não é uma boa idéia, quando eu o vi de pé sobre as vigas do teto do farol, de novo aparentemente conversando com o céu. Deixei então o casal a sós para o que seriam seus últimos amassos e fui tentar ouvir o que o misterioso sujeito tanto conversava. “Eles não entendem. Não conseguem te ouvir.”, ele falava, o que por alguns instantes me lembrou de um maluco que recebeu ordens do cachorrinho dele pra estripar a mãe, só que nesse caso havia uma resposta. As nuvens, o vento, o próprio céu parecia se mover ao redor dele, falando de algum modo que eu não conseguia decifrar, mas ainda assim falando. Algo que não se vê todo dia. “Eles são densos demais, demais. Gostam de viver presos no chão. Casos perdidos, todos eles.”, ele continuou e com isso parou creio que para ouvir a resposta do seu interlocutor, porque depois ele falou de novo entusiasmado “Sim, sim! Eu posso mostrar a eles! Ai eles vão poder te ouvir! Sim, sim, não vamos estar mais sós!”. Confesso que isso me fez começar a rir, por era o tipo de coisa que não tinha a mínima chance de dar certo. Meus pensamentos foram interrompidos quando ouvi um barulho de madeira velha quebrando seguido de um grito. Era o dever me chamando. Uma pena, era uma bela moça e fazia bastante o meu tipo, mas esse é o problema, acho. Meu tipo de garota sempre morre muito fácil. E enquanto uma multidão começava a se reunir em volta dela começou a chover e eu não pude deixar de notar, diferentemente dos outros que estavam muito concentrados com a menina estatelada no chão, que o sujeito comemorava dançando pelas vigas do teto do velho farol. Nesse instante foi que eu tive certeza que em breve o veria de novo, o que aconteceu de fato menos de uma semana depois. Quando cheguei lá ele estava cercado por um bando de umas cinco ou seis crianças de uns quatro ou cinco anos, bem aquela idade onde se ainda acredita em todo o tipo de coisa. Ele falava algo como “Não tenham medo, confiem que ele vai carregar vocês.”, e então se jogou do farol, mas em vez de cair feito uma jaca madura ele ficou flutuando suavemente, como se carregado pelo vendo. “Viram só? É só confiar e não ter medo.”, ele falou e as crianças entusiasmadas começaram seguir ele. Nessa hora eu comecei a rir muito. Pode me chamar de sádico, mas eu sempre achei extremamente divertidas essas crônicas de morte anunciada. Lá foram elas, se jogando e tendo resultados bastante satisfatórios, algumas até já ensaiando umas piruetas, até que uma delas olhou para o chão, se assustou e caiu feito uma jaca madura, para logo ser seguida pelas outras crianças, o que fez o sujeito perceber duas pequenas verdades do universo: Primeiro, que não existe nada mais contagioso que o medo, e segundo, que a gravidade pode ser bem cruel quando você contraria ela. Ele ainda desceu e tentava desesperadamente reanimar elas, mas já era meio tarde para isso. Da minha parte eu, ainda com um risinho no canto da boca, me preparei para um serviço complicado, porque levar crianças sempre é muito cansativo. Quando eu estava indo ainda pude ouvir-lo gritar em desespero e os trovões respondendo no mesmo tom.

Depois disso eu nunca mais o vi, mas ouvi dizer que ultimamente os metereologistas locais andam agitados com um estranho padrão de chuvas, que segundo eles ocorre sem nenhuma explicação, exatamente no mesmo dia do ano, no meio da estação da seca, atingindo apenas uma pequena área perto da cidade. Não que dê para realmente levar a serio o que esse pessoal diz sobre o clima, afinal eles não conseguiriam prever direito uma chuva nem no meio do dilúvio, mas não deixa de ser um fenômeno curioso, especialmente se combinado com diversos relatos vindos dos moradores dessa região. Eles dizem que todo ano, durante o temporal, uma figura desce do céu e paira sobre o pequeno cemitério da região, e que ele seria um anjo que vem todo ano orar pelas almas de algumas crianças, hoje consideradas santas por alguns, você já deve ter ouvido falar, que foram mortas por um louco alguns anos atrás.

Como eu disse antes, as pessoas são divertidas.

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