A Fazenda

O Dr. Arthur Norland desce do carro enquanto verifica o endereço e então bate na porta da velha casa de fazenda, estranhamente deslocada na árida paisagem em que se encontra.

– Entre! – Grita um homem de voz rude de dentro da casa – Estou na cozinha.

Arthur entra, murmurando um pedido de licença, passa por uma sala de estar mal cuidada, com moveis puídos e cobertos por uma grossa camada de poeira, até que chega em uma pequena cozinha, onde se encontra sentado à mesa um velho com expressão de mal encarado.

– Bom dia senhor… – Começa Arthur.

– Pode ir parando ai, moço. – Interrompe o velho – Eu já disse que não quero falar com vocês sabichões da universidade.

– Desculpe senhor, mas, apesar de ser membro do corpo docente da Universidade Miskatonica, a razão da minha visita é pessoal. – Continua Arthur – Meu nome é Arthur Norland.

– O filho de Kyle Norland? – Pergunta o velho, surpreso – Você tem razão, filho. Temos muito que conversar. Sente-se, eu vou te fazer café.

– Me desculpe por essa intromissão, mas o senhor é a única pessoa viva que pode me dizer o que… – Fala Arthur, hesitantemente.

– O que aconteceu com seu pai. – Completa o velho – Sim, sei. Mas não sou o único sobrevivente. Sua mãe, Sarah McDouglas também viu o que eu vi.

– Minha mãe morreu mês passado, senhor. – Responde Arthur em um tom amargurado – E antes disso passou mais de vinte anos em um hospício. Nunca me contou nada.

– Meus pêsames, filho. – Pergunta o velho, em um tom desconfiado – E como você me encontrou aqui, então?

– Encontrei seu nome em uma das anotações dela, de antes das internações. Um dos nomes que mencionava era o seu. – Diz Arthur – De todos o senhor é o único que está vivo e são, senhor Donavan. Mesmo assim foi muito difícil te encontrar. Não esperava que alguém ainda vivesse aqui.

– Sou um homem apegado a terra. Desculpe filho, parece que estou sem café. – O velho fala, voltando a se sentar – Tudo que você vai ouvir agora é a verdade, mesmo que pareça impossível para sua ciência.

“O finado Kyle Norland era o homem mais honesto e trabalhador que eu já conheci, mas não era um sujeito fácil. Vivia sozinho, amuado, e não fazia questão de fazer amigos. Claro que com essas qualidades não era nada difícil para ele fazer inimigos. Mesmo o seu sogro, o velho McDouglas, o detestava, mas não podia se livrar dele, casado com sua filha, que já estava gravida. E ele precisava de alguém com braços fortes para cuidar da fazenda depois que o derrame o deixou paralisado.

E que fazenda era aquela, filho! Todo o vale era uma terra fértil, abençoada por deus, mas a fazendo McDouglas era mais, muito mais. Cada hectare rendia quase o dobro das outras fazendas. Ainda sinto água na boca quando lembro dos figos que cresciam naquele chão. Muita gente, claro, falava que sua vó, que deus a tenha, era uma bruxa e que sua mãe tinha herdado isso dela, mas nunca na frente de nenhuma delas. O velho era o mais próximo de um líder que o vale tinha, todos respeitavam ele. Não, acho que o mais certo era que todos tinham medo dele.

Outra razão para a fazenda McDouglas ser tão importante era uma tradição que tínhamos aqui no vale. No último dia da colheita nos reuníamos no salão da fazenda para uma grande festa, e queimávamos uma parte da colheita como uma oferenda. Um habito trazido do velho mundo, você sabe. Tudo corriqueiro até quando você nasceu, na última semana da colheita. Nunca tinha visto seu pai tão feliz quanto naqueles dias. Toda a família compartilhava daquela alegria que só uma criança pode proporcionar. Todos menos o velho. Ele parecia preocupado, te observando com um olhar que eu só poderia descrever como faminto.

Foi na noite da festa que aconteceu. O velho te pegou e pretendia te queimar junto das oferendas. Seu pai obviamente foi contra e na luta acabou acertando a cabeça do velho. O cair no chão, morrendo ele ainda balbuciou uma última frase “Ele virá!”. E, quando ainda nos recuperávamos do horror daquela cena, Ele veio.

Não sei se posso descrever bem o que eu vi naquela noite, filho. As chamas das oferendas aumentaram como se alguém tivesse jogado um galão de gasolina nelas e então uma coisa saiu delas. Era horrível. Uma coisa malformada e primal, parecendo algo que foi vomitado pela terra quando ela ainda não estava pronta para criar a vida como a conhecemos. A maioria das pessoas ficou paralisada pelo horror. Eu lembro de uma ou duas das meninas dos Wilson furando os próprios olhos com as unhas para não ter de ver aquilo.

E então Ele falou. Você já imaginou que tipo de voz um terremoto teria? Ou um tornado? Era aquele tipo de voz. Antiga, poderosa, para a qual meros mortais são menos que formigas. Não vou conseguir te dizer o que Ele falou, mas todos nós entendemos que aquilo te considerava Dele. Um acordo feito pelos seus ancestrais, parece. Ele te pegaria e iria embora, não fosse pelo seu pai. Ele gritou para sua mãe fugir e os instintos maternos dela falaram mais alto. Ela e você, de algum jeito escaparam impunes. Todos os outros que tentaram fugir foram consumidos nas chamas. Só ficamos eu e seu pai. Eu vi com meus olhos ele ser agarrado e devorado por aquela coisa. E acho que foi isso que comprou sua fuga.”.

– Nossa… – Fala Arthur depois de um longo silêncio – Isso tudo é muito…

– Inacreditável? Eu sei. – Fala o velho – Mas você deve ter achado algo nas anotações da sua mãe. E pelo que eu ouvi falar existem livros na sua universidade que confirmariam o que eu disse.

– Sim, mas são delírios de loucos! – Responde Arthur, exasperado – Minha mãe era uma pessoa perturbada e não se pode levar a sério os delírios daquele árabe louco! Mesmo a sua história, senhor Donavan, tem uma falha. Como você escapou?

– Não escapei. – Responde o velho, sacando uma faca escondida de sua manga e fazendo um corte profundo no braço de Arthur – Ele me prendeu aqui, nessa terra morta, sem poder sair. Sem poder comer, beber, dormir… Nenhuma forma de alivio. Não até que o sangue prometido seja derramado.

Antes que Arthur possa correr há um estrondo, como o crepitar de milhares de fogueiras e ele vê o telhado da casa ser arrancado. E assomando sobre a casa, como um pesadelo distorcido ele vê a criatura.

E Arthur não consegue nem ao menos gritar.