O Preço

“O lugar é aqui.”, nos disse o velho, quando finalmente chegamos ao oásis.

Aquele era um local pitoresco mesmo para mim, que já havia me acostumado com as maravilhas escondidas pelas areias do grande deserto. Tratava-se de uma grande fonte natural ladeada por ruínas, que mesmo em seu estado atual atestavam a grandeza que um dia se ergueu por ali. Era realmente o lugar ideal para uma caravana como a nossa descansar, com água farta e as muralhas de pedra negra oferecendo abrigo para as intempéries do deserto. Ainda assim havia algo de ruim no ar, um sentimento opressivo que deixava os homens inquietos e os animais, cujos instintos são muito mais apurados que os nossos, apavorados. O velho, nosso líder, apenas maneava a cabeça, como se já esperasse por isso tudo. Mais tarde ele reuniu todos em volta da fogueira e disse:

“Muitos de vocês estão temerosos sobre esse lugar, alguns até sussurrando sobre qualquer maldição que possa cair sobre nós. Eu lhes digo que não precisam temer. Não existe nada aqui que possa nos trazer mais mal do que uma noite mal dormida.”

“Mas então o que há nestas ruínas, ó venerável?”, eu perguntei, vocalizando a duvida de todos, “Pois os estão arredios e assustados e mesmo nós, homens corajosos que vivem sobre a graça do senhor, sentimos a garra fria do medo apertando nossos corações.”

Ao ouvir isso o velho sorriu e se levantou para mais perto do fogo e pôs-se a contar a história daquelas ruínas:

“Em uma época antiga, quando as lendas ainda andavam lado a lado com os homens mortais, este lugar era uma grande cidade, tão rica e bela que era chamada de a jóia do mundo. Esta cidade tinha um rei, um grande governante, que fora responsável por torná-la tão gloriosa. Fora ele que, liderando das linhas de frente, libertara seu povo do jugo dos salteadores. Fora ele que cimentara a aliança com os grandes reis-feiticeiros das terras do sul. E fora sob seu comando que foram erguidas todas as edificações e muralhas feitas com mármore branco mais puro. E foi assim por muitos anos, uma longa era dourada que parecia não ter fim

Até que a desgraça caiu sobre o lar do rei. Uma terrível doença se abateu sobre sua rainha, condenando-a a uma morte lenta e agonizante. O rei entrou em desespero, pois sua rainha era a única coisa que ele amava mais do que sua cidade. Em busca de uma solução ele se trancou em suas torres, buscando uma salvação entre os pergaminhos trazidos do sul com o afinco que apenas um homem desesperado pode ter. E foi com os conhecimentos proibidos dos feiticeiros que o rei desenvolveu seu plano.

Em uma noite sem lua, seguindo a risca os ritos sombrios da magia mais negra, o rei sacrificou seus dez filhos, esperando assim trazer para sua presença aquele que ameaçava levar sua amada.

– Isso, meu caro rei, foi absolutamente desnecessário. – Disse Ele, parecendo surgir do nada.

– Não, Sombra do Mundo, estas serão as ultimas almas que tu levarás de minha casa real. – Respondeu o rei – Pois sacrificando sangue de meu sangue para esta terra eu cemento minha autoridade! Meu mandato divino agora é absoluto! E com isso proclamo as vidas de minha casa real intocáveis por ti! E enquanto estiver dentro de minhas fronteiras tu obedeceras!

– Como quiseres, ó grande rei… – Ele disse, fazendo uma teatral mesura antes de desaparecer.

Assim o rei retornou para cuidar de sua amada rainha, que como esperado não morria. Entretanto, sua doença não se curava e a afligia cada vez mais, ao ponto de não haver dia onde ela não implorasse aos berros pela morte. E fora das câmaras reais o povo da cidade vivia inquieto, pois rumores corriam sobre a loucura do rei, que havia assassinado seus filhos e torturava sua rainha com uma terrível magia, que havia transformado o branco do mármore da cidade em negro. Revoltas eram constantes e os conselheiros que tentavam alertar o rei sobre isso eram executados. Os inimigos da cidade, pois não há como homem ou pais conseguir riquezas e gloria sem atrair muitos inimigos, se aproveitaram dessa fraqueza e atacaram.

Nem quando sua cidade queimava e seu povo era massacrado nas ruas o rei saiu do lado do leito de sua rainha. E ali, em meio aos berros vindos da rua, ela se levantou de seu leito. O rei, alheio a desgraça que se abatia sobre seus domínios, rejubilou-se e a abraçou. No entanto, apesar de estar fisicamente recuperada, a rainha já não era a mesma. A agonia indizível a afundara em uma loucura completa e ela atacou o rei com a fúria dos insanos. Rasgou-lhe a carne e esmigalhou seus ossos com as próprias mãos, deixando-o como uma ruína irreconhecível antes de partir.

Na manhã seguinte, quando tudo que restava da outrora jóia do mundo eram ruínas de pedras negras, o rei, agora mal podendo ser reconhecido como humano e esmagado pelos destroços de sua torre, fitou uma figura conhecida.

– Finalmente viestes, ó sombra do mundo. – Disse o rei – Vem e me liberta desta agonia!

– Sim, rei, eu vim, mas não foi por ti. – Ele respondeu – Pois não fostes tu quem decretou que enquanto estiver dentro de suas fronteiras tua casa real é intocável por mim? Pois agora não há nada que eu possa fazer por ti, ó grande rei.

O rei, com seu corpo destruído e encarcerado pode apenas urrar um lamento agonizante enquanto Ele se afastava. Assim, dizem que até hoje o rei se encontra aqui, preso nas ruínas de sua cidade, tentando em vão escapar de sua agonia.”

“E é por isso que poucos são os viajantes que usam este oásis.”, continuou o velho, “Agora descansem, pois nossa viagem amanhã será longa.”.

Assim nós nos retiramos pela noite. Os homens e os animais logo dormiam, mas eu passei aquela noite em claro, ouvindo o vento que trazia com ele lamentos de uma agonia indizível.

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