Espolios

Lembro de ter tido um pressentimento ruim quando vi aquela esfera marrom-esverdeada lentamente se tornar cada vez maior na as telas. O capitão, percebendo meu nervosismo, me deu um tapinha no ombro e disse:

– Calma, irmãozinho. Essa é nossa sorte grande.

– Um piloto que não se preocupa é um piloto morto. – Eu respondi, citando a máxima da academia de Ganimede – E se essa é nossa sorte grande, espero que ela nos mate antes do azar aparecer.

– Você quer parar com esses malditos agouros? – O capitão falou, já um pouco irritado – Só mantenha a nave no curso, ok?

– Desde que os drones não vaporizem a gente primeiro… – Eu não resisti em acrescentar e apontei para as centenas de drones armados até os dentes que circulavam ameaçadoramente perto de nós.

– Estamos… – O capitão disse, pausando para conferir os equipamentos – …mais de 250 mil quilômetros dentro do raio de exclusão e nenhum deles sequer olhou feio para nós. Agora foco nas coordenadas. Isso é uma ordem. Gilbert! Herman! Vamos preparar tudo, pousamos em menos de uma hora!

Ao terminar de dizer isso o capitão foi para os fundos de nossa pequena nave cargueira, que era tripulada por quatro pessoas: Eu, piloto e navegador, Herman, o mecânico, Gilbert, mais conhecido como Montanha, nosso facilitador, que é um jeito diferente de dizer “capanga armado” e o capitão Tobias, meu irmão. Juntos formávamos uma pequena empreitada de recuperação de espólios, que nada mais é do que jeito bonito de dizer que nós assaltávamos ruínas para viver. Em geral estas eram apenas naves acidentadas, mas depois de uma boa noite de jogo nosso capitão conseguiu aquilo que é a chave para os maiores tesouros do nosso ramo: um passe para a zona de exclusão.  Formada depois da misteriosa queda do planeta capital da antiga federação, a zona nada mais era do que um raio de 450 mil quilômetros apinhado por todo o tipo de drone de combate produzidos e mantidos por todos os governos remanescentes do sistema. As histórias contavam que apenas uns poucos passes especiais, como o que possuíamos, haviam sido produzidos, primariamente para esquipes de pesquisa e expedições militares. E, se fossemos acreditar em histórias desse tipo, nenhuma havia retornado.Infelizmente não acreditamos. O fato é que, mesmo décadas depois da queda, a tecnologia de ponta da federação ainda não havia sido superada. Sabíamos que não poderíamos vender legalmente esses espólios, mas o que qualquer coisa daquele maldito planeta valia no mercado negro seria o bastante para nós quatro nos aposentarmos em uma vila luxuosa no monte olimpo. Ou mesmo cada um comprar sua própria lua.

Ao chegar próximo a superfície atravessando uma espessa camada de nuvens amarronzadas, nos deparamos com uma visão surpreendente. A escala das ruínas era inimaginável, mesmo para nós que esperávamos por elas, mas entre elas haviam varias estruturas intactas, como se fossem torres cristalinas erguidas em meio aos destroços da federação.

– Que diabos é isso? – Eu praguejei através do comunicador.

– Torres de comando. – Respondeu Herman, com voz de entendido – Controlavam os sistemas eletrônicos e os robôs. Feitas de cristal supercondutor e pelo visto com um puta sistema de autoreparos.

– E isso vale alguma coisa? – Perguntou Montanha.

– Se nós conseguirmos um nucleo de processamento? – Prosseguiu Herman – Mais dinheiro do que você pode imaginar, Montanha.

– Você ouviu o homem, mano. – Falou o capitão, que pelo tom de voz eu poderia dizer que seus olhos estavam brilhando – Nos coloque perto de uma dessas coisas!

Eu então pousei em uma área relativamente plana a menos de 100 metros de uma das torres. Meus associados rapidamente saíram enquanto eu esperei na nave, com os motores ligados.

– Para quê isso? – Perguntou o capitão pelo radio.

– Precaução. – Eu respondi.

– Paranoia, isso sim. – Disse o capitão.

Os três passaram a conduzir a tediosa tarefa de procurar em meio ao lixo algo de valor, enquanto eu observava cuidadosamente os sensores, em busca de algo que eu não sabia o que era, mas meus instintos diziam que estava lá. Depois de algum tempo eles desviaram sua atenção para a torre cristalina mais próxima e, depois de algumas tentativas frustradas, conseguiram adentrar em busca do grande premio em uma já muito lucrativa caça ao tesouro.

Não consigo precisar quando eu peguei no sono, porque com toda a tensão e expectativa eu achava que isso seria impossível. Mas o tédio tem um efeito poderoso sobre a mente humana. Mas dormi, um sono agitado e sem sonhos, até ouvir os tiros. Hoje, já não consigo bem lembrar o que ouvi naquela transmissão. Lembro das vozes do capitão e do Montanha, pontuadas por tiros. Foram minutos angustiantes que se arrastaram como se fossem horas até que eu os vi saindo da torre pela abertura que fizeram anteriormente. Ou melhor, os vi tentando sair. Tudo que vi do Montanha foi um corpo sem cabeça se movendo para frente pela força da inercia e por espasmos musculares. Meu irmão ainda conseguiu correr alguns metros. E então as mãos vieram. Saídas da torre, dezenas de mãos feitas de algo que a distancia me parecia ser vidro branco o agarraram e o arrastaram para dentro da estrutura. Nunca vou me esquecer da expressão que ele fez no instante em que percebeu que estava perdido.

Eu fiz o que qualquer um faria no meu lugar, apesar de nunca admitirem: eu fugi. Acionei a potencia máxima da nave e tentei levantar voo, mas por um tempo ela simplesmente não saia do lugar, como se algo a estivesse segurando. Então os comunicadores soaram com uma voz familiar:

– Não tenha medo, irmão. Venha conosco. Você nunca mais vai estar sozinho, irmãozinho. Com sua ajuda ninguém nunca mais estará.

Desviei ainda mais força para os motores, todos os alarmes da cabine soaram e então e escapei. A nave se soltou com um estalo enorme, do que depois eu descobri ter sido o trem de pouso sendo arrancado, e girou loucamente no ar até que eu consegui retomar o controle e escapei daquela maldita rocha.

Consegui escapar com espólios o suficiente para uma vida confortável no monte Olimpo. Mas até hoje quando olho para aquele ponto aparentemente inofensivo no céu noturno sinto calafrios. E o ouço chamar meu nome.

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