Fim de Tarde

Mamãe me disse para eu nunca abrir a porta do porão. Não me lembro o porquê. Eu não consigo me lembrar de muitas coisas ultimamente. Ou será que foi sempre assim?

– Bia! Bia! Bia, você consegue me ouvir?

Eu ouço. Parece vir bem de longe, de fora da casa. Eu sigo o chamado, andando bem de fininho pelo corredor de tabuas velhas, que rangem a cada toque que eu dou nelas. É divertido, mas eu não posso fazer barulho, senão a mamãe acorda. Ainda assim eu passo pisando no ritmo que o meu irmão ensinou e as tabuas respondem, bem baixinho, com a musica que ele sempre gostou de tocar. Quando eu chego lá fora, vejo um passarinho se agitando dentro de uma gaiola pequenininha.

– Bia! Ainda bem que você me ouviu!

– Oi passarinho. Por que te prenderam ai?

– Foi seu pai. Ele não queria que eu te contasse que ele prendeu seu irmão no porão.

– No porão… Mas por quê?

– Ele quer seu irmão fique preso pra sempre. Até que ninguém nunca mais lembre dele. Mas se você me soltar daqui eu te ajudo a salvar ele.

Eu acredito nele e abro a gaiola com cuidado para não machucar as asinhas dele. Ele fica todo alegre voando a minha volta e então se esconde embaixo do meu cabelo, com o bico perto da minha orelha.

– Vamos para o outro lado do lago. Eu vou ficar aqui escondido porque seu pai está pescando.

– Certo.

Eu continuo, agora com cuidado, e chego na ponte de madeira que cruza o lago. Papai está sentado nela, pescando e fumando o cachimbo dele. Eu tento passar de mansinho por de trás dele.

– Aonde você pensa que vai, mocinha?

Eu congelo de medo. Ele se vira para me encarar, primeiro me olhando do alto dos seus vários metros, e depois desce o rosto dele para bem pertinho do meu. Eu sinto o seu hálito quente e a fumaça do cachimbo me envolvendo.

– Vou brincar lá no outro lado, papai. Posso?

Ele me olha nos olhos. Eu tento parecer tranqüila, mas sempre fico nervosa perto dele. O passarinho também fica com medo, tanto que as garras dele apertam a parte de trás do meu pescoço. Eu me controlo para não gritar de dor, porque eu sei que se eu fizer vai ser pior.

– Tudo bem. Pode ir.

Eu concordo com a cabeça e saio correndo pela ponte.

– Bia.

Eu paro ao ouvir a voz do meu pai de novo. Não tenho coragem de olhar de volta.

– Não faça nenhuma coisa errada, Bia. Ou então eu coloco você junto das outras crianças no lago, entendeu?

Eu balanço a cabeça de novo e agora parto em disparada, tentando não olhar para o lago. É lá onde ficam as crianças que se comportaram mal. Elas ficam como se estivesse presas do outro lado de um espelho, as vezes se debatendo, as vezes seguindo as pessoas quando elas passam pelo outro lado. Isso é tudo que elas podem fazer. Pra sempre. Quando nós chegamos do outro lado e saímos da vista do meu pai o passarinho sai do esconderijo e volta a voar em volta de mim.

– Você me machucou!

– Desculpa, Bia. É que eu estava com medo…

– Tudo bem. Eu também tava. Pra onde vamos agora?

– Vamos pegar a chave. Seu pai guarda ela embaixo da cachoeira do mundo.

– Certo.

O caminho é bem fácil e nós andamos sem problema até chegar no muro onde o mundo termina. Cheguei na borda e olhei a cachoeira caindo no infinito onde as estrelas dançam.

– E agora?

– Agora a gente voa.

– Mas eu não sei voar, passarinho!

– Sabe. Só não lembra. É só se deixar levar pelo vento. Confie em mim.

Eu concordo com a cabeça e então abro os braços. O vento da borda me pega, mas eu não caio. Em vez disso eu fico flutuando ali, bem juntinho das estrelas. Elas começam a dançar em volta de mim, cada uma delas quente e macia como um abraço, e é tão bom que eu começo a rir de pura felicidade. Ao me ouvir a lua chega perto e ao notar a aproximação dela o passarinho pousa no meu ombro, olhando para ela desconfiado.

– Ora, vejam só! Uma menininha! O que faz aqui, criança?

– Eu… O passarinho me trouxe aqui pra me ensinar a voar.

– Que bom! É sempre bom ter alguém para fazer companhia ás minhas filhas!

A lua então chega bem pertinho de mim, como se fosse contar um segredo.

– Só fique longe do porão, criança. Lá você só vai sofrer. Melhor para você é você ficar aqui brincando com as minhas filhinhas. Pra sempre.

Depois de dizer isso ela vai embora.

– Ela é uma grande mentirosa! Vamos Bia, temos que pegar a chave.

Eu penso em fazer o que o passarinho diz, mas é tão bom ficar com as estrelas que eu não consigo ir.

– Bia! Seu irmão precisa de você!

Depois de ouvir isso eu vou. Mas meu coração fica pesado. Eu flutuo lentamente até a chave. Depois de pegar ela eu e o passarinho voamos baixinho de volta para casa, com cuidado para que o papai não nos veja. Lá eu desço as escadas no maior silencio do mundo e então uso a chave para abrir a porta. Ela então abre bem devagarinho e do outro lado brilha uma luz bem forte, tão forte que parece tomar conta de tudo.

– Me desculpe, Bia. Eu menti para você.

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Lado Negro do Universo

Registro No: 881706-701

Transcrições dos depoimentos dos sobreviventes da força-tarefa Código 0782 (Codinome: Paladinos), conduzidos pelo Capitão Julian R. Longhan, referentes a ultima missão da unidade supracitada: Resgate da Estação Espacial Experimental 001, nome código Duat, localizada no quadrante ZX-226, em orbita do buraco negro supermassivo Anubis.

Transcrição 001 – Depoimento do Cabo Esteban Juarez Rodriguez, Piloto da Unidade.

Capitão Longhan: O que aconteceu na missão de resgate, Cabo?

Cabo Rodriguez: Assim, na lata? Sem nem uma preliminarzinha? Não vai perguntar como eu estou ou sobre o temp… Desculpe senhor. Foi para aliviar a tensão. Eu preciso. Muito. Aquilo foi a maior doidera que eu já passei na minha vida. Quero dizer, eu nem sei por onde começar.

CL: Tente começar pelo começo, Cabo.

CR: Essa parte é fácil, senhor. No começo parecia uma missão de rotina. Digo, rotina para o tipo de missão que eu costumava levar os Paladinos. Resgatar uma estação espacial que de repente perdeu todo contato não era nada tão fora do comum. Eu como de costume transportei o esquadrão lá e fiquei esperando dentro da nave, como sempre faço. A única coisa que eu fiz fora jogar paciência foi passar os scans pela estação.

CL: E quais foram os resultados?

CR: Foi ai que começou a ficar estranho, senhor. Os resultados não deram nada. Não tinha nenhuma forma de vida lá dentro. Isso até que era de se esperar, afinal o contato foi cortado de repente e, bem, o senhor sabe que não mandam a gente quando esperam alguém vivo. O lance é que os scans também não detectaram nenhum elemento toxico na atmosfera da estação, nenhuma rachadura no casco, nada de anormal. Tudo estava morto lá dentro sem nenhuma razão.

CL: E então, o que houve?

CR: Bem, mesmo com esses detalhes a unidade entrou. Não era uma esquisitice qualquer que ia fazer eles deixarem de cumprir a missão. Era para esse tipo de situação que os Paladinos existiam, afinal. Eles entraram e eu fiquei, como eu disse antes, jogando paciência. Foi tudo normal por um tempo, até…

CL: Quanto tempo, cabo?

CR: Mais ou menos meia hora, senhor.

CL: E o que aconteceu após esse tempo?

CR: Uma menina, senhor.

CL: Explique-se, cabo.

CR: Uma menina apareceu do nada na cabine, senhor. Lá estava eu, tranquilamente planejando meu próximo movimento no jogo, quando senti aquele bafo na orelha e ouvi uma voz me dizendo “Vocês não deviam estar aqui.”. Eu quase tive um treco, senhor, cai da cadeira e quando consegui me virar para encarar de onde veio a voz lá estava ela. Uma menina, tipo adolescente riquinha normal. Mas… Eu não sei explicar. Tinha algo de muito errado com ela e isso me assustou, feito nada que eu tenha visto nessa vida, ainda mais quando ela balançou a cabeça e disse “Não digam que eu não avisei.”. Ai as luzes apagaram.

CL: E o que houve após esse blecaute?

CR: Não chegou a tanto. Não na nave, pelo menos. Foi uma mera queda de energia. Mas depois dela a menina simplesmente sumiu, senhor! Juro! Eu teria chamado todos de volta urgentemente se já nesse momento não estivesse recebendo as mensagens de socorro e me mandando já ligar os motores para uma retirada imediata. Menos de um minuto depois os sobreviventes chegaram. Só três de mais de uma dúzia, senhor.

CL: E em seu relatório você afirmou que “O mais assustador foi ter reconhecido a menina”, cabo, mas não chegou a informar quem era.

CR: É porque não é possível, senhor. Simplesmente não pode.

CL: Quem era ela, cabo?

CR: A filha de um amigo meu, o medico a bordo da Duat. Julia. Ela morreu, se matou, na Terra. A mais de dez anos.

Transcrição 002 – Depoimento do Tenente Sasha Liuchenko, Líder da Unidade

Capitão Longhan: Inicialmente eu gostaria que você me explicasse o que aconteceu durante a missão, Tenente.

Tenente Liuchenko: O senhor leu meu relatório, Capitão. Está tudo lá.

CL: Sim, tenente, de fato é um relatório bastante detalhado. O que eu gostaria, no entanto é de entender o ocorrido.

TL: Somos dois, senhor. Tudo o que sei é que perdi nove de meus homens sem nenhuma explicação. Isso sem contar o que houve com meu braço. Então não me venha com esse papinho de “entender o ocorrido” pra cima de mim!

CL: Se acalme, tenente. Lembre-se que dependendo dos resultados dessa investigação o senhor pode acabar na corte marcial.

TL: Pro inferno com a corte marcial! Vocês nos mandaram direto para uma ratoeira! Sabiam o que tinha lá dentro e o que ia acontecer com a gente.

CL: Não, tenente. Nós não tínhamos a menor idéia. Até agora não temos. É por isso que eu pergunto, o que aconteceu lá na Duat?

TL: Tudo bem. Como quiser, capitão. No inicio parecia normal. Claro que era muito estranho o lugar estar completamente morto, sem nenhum traço de vida de acordo com os nossos sensores, e ao mesmo tempo não demonstrar nenhum comprometimento nos sistemas de suporte de vida. Nenhuma toxina, radiação anormal ou perda de atmosfera. Nada. Entramos para investigar. Nos dividimos em grupos de três e fomos investigar os diferentes setores da nave.

CL: O senhor foi ao setor de pesquisa, acompanhado da sargento Suzumi e do sargento Estevão, correto?

TL: Sim. Como eu disse, se você já leu o relatório, por que diabos eu tenho que passar por esse interrogatório?

CL: Porque existem certos detalhes que precisam ser esclarecidos, tenente. Como por exemplo, o que aconteceu quando você foi salvar os dados do computador da unidade.

TL: Aconteceu como eu relatei. Eu fiquei na sala do computador baixando os dados enquanto os sargentos seguiram para examinar a sala de observação, que é adjacente. A força falhou e então comecei a ouvir tiros e gritos por toda a parte. Fui buscar os dois que estavam mais próximos. A Suzumi parecia em choque mas eu consegui tirar ela de lá fácil. Mas o Estevão… Ele estava ferido e parecia… Hipnotizado. É como se ele visse alguma coisa que tivesse encantado ele. Puxei ele junto mas então alguma coisa aconteceu.

CL: Seu braço?

TL: Isso. Senti como se tivessem arrancado ele. Foi como se um cachorro tivesse mordido meu braço todo de uma vez. Até agora eu sinto isso. Os médicos disseram que não há nada de errado com ele, mas o que eu sinto é como se ele já estivesse morto.

Transcrição 003 – Sargento Hitomi Suzumi

Oficial Medica (Identidade Confirmada: Dra. Catherine Lindberg): Eu não acho que seja prudente perturbar a sargento Suzumi tão cedo, capitão.

Capitão Longhan: Não se preocupe, doutora. Não vai ser nenhum interrogatório, apenas algumas perguntas de rotina e…

(Ao fundo ouve-se gritos incoerentes, voz positivamente feminina, seguidos do barulho de vidro quebrado e de baques surdos.)

CL: Sargento! Largue isso e se renda agora ou serei obrigado a atirar!

(Mais gritos incoerentes, agora mais próximo, seguido do barulho de sete disparos de arma de fogo.)

CL: Jesus… O que diabos foi isso?

O incidente com a Sargento Suzumi, tratado com detalhes no Protocolo 077256804-40, registrado como um surto psicótico, custou a vida da própria bem como a de três guardas da estação medica. As causas do incidente ainda estão sob investigação.

Transcrição 004 – Sargento Carlos Estevão

Capitão Longhan: Bom dia, sargento.

Sargento Estevão: Bom dia, capitão.

CL: Como deve saber estou aqui para lhe fazer perguntas sobre o acontecido em sua ultima missão, a bordo da Duat.

SE: Tudo que o senhor quiser saber, capitão. Só espero que esteja pronto para as respostas que vai ter.

CL: O que você quer dizer com isso, sargento?

SE: (Trecho da gravação comprometido por interferência de origem desconhecida. Impossível de filtrar a estática.)…é inútil. A porta já foi aberta.

CL: Você está louco!

SE: Não, capitão. Eu estou lúcido. Mais lúcido do que qualquer homem jamais poderia estar. Por isso arranquei meus próprios olhos. Como poderia querer ver algo mais depois de contemplar a face da escuridão que existiu antes do universo e que existirá depois que tudo mais retornar ao pó? Sim, capitão, eu vi a face de (Estática.).

CL: Não vou perder meu tempo com os delírios de um desequilibrado. Adeus, sargento.

SE: Uma pena que pense assim, capitão. Como eu disse antes, a porta já foi aberta e agora será feita a vontade de (Estática.). Me pergunto se seu coração é leve o bastante.

Todo o resto da gravação está comprometido pela mesma interferência citada anteriormente. Os corpos do Capitão Longhan, bem como de sete guardas e cinco médicos da estação medica foram encontrados mortos. Relatórios da pericia indicam que todos foram mortos com a remoção cuidadosa de seus corações. Não foi encontrada nenhuma pista que sugerisse o paradeiro do Sargento Estevão.

Doce Reencontro

Leon para o carro na frente do velho edifício e abre a porta rapidamente, mas hesita antes de descer. Ele olha rapidamente para os lados, tentando encontrar marginais ou algo mais que servisse de desculpa para ele sair dali em disparada. Mas não havia nada. Ele então respira fundo e vai caminhando hesitantemente até a entrada do prédio, uma construção antiga e mal cuidada, com um pesado portão de ferro bloqueando a entrada. Leon se aproxima do interfone, um modelo bem antigo com as numerações quase apagadas, e aperta o botão do 703. Por alguns instantes nada acontece, mas então sem aviso o portão emite um rangido e a tranca se abre. Leon entra e, depois de verificar a falta de elevador do prédio, começa a subir as escadas em direção do tal apartamento, para encontrar Clara.

Um dia eles foram casados e felizes. Ao menos Leon era feliz e para ele, Clara também era. Então um dia ela foi embora. Sem brigas, sem desculpas sem explicações. Apenas um bilhete escrito “Não me procure”. E isso foi a 10 anos. Nesse meio tempo, a despeito do bilhete, Leon primeiro a procurou, sem sucesso, e depois tentou esquece-la, com menos sucesso ainda. Então sem mais nem menos aparece um recado em sua secretaria eletrônica, ela dizendo pra ele a encontrar nesse lugar.

Leon chega a porta do apartamento 703 esbaforido. Ele tenta se recompor antes de bater na porta, tentando não parecer alguém que passou duas noites em claro e um dia no bar. Logo ele cria coragem e bate na porta, e esta se abre sem resistência, como se estivesse aberta. Ele entra devagar e cautelosamente, como se estivesse entrando em um campo minado. O que de certo modo era verdade. Afinal, pensava Leon, o que ela quer de mim depois desse tempo todo? Porque ela quer me ver depois do que ela fez? Lá dentro havia uma pequena sala com todas as janelas fechadas com tabuas. Uma televisão enchia o ar estagnado com o chiado incessante de estática.

– Clara! – Grita Leon – Você tá ai?

Ele dá um passo para dentro da casa e de repente se sente um idiota por ter feito uma pergunta dessas, afinal onde mais ela estaria? Ele para e sente o perfume dos arranjos de rosas colocados por ela ao longo da casa quando ouve a voz dela vinda do quarto:

– Tô aqui no quarto, amor. Vem logo que eu estou te esperando.

Leon anda alegremente pelo corredor decorado com retratos de alguns dos bons momentos que passaram juntos. Uma foto do casamento, outra dos dois em um dia na praia com os filhos. Filhos que Leon nunca teve. Apavorado, ele se vê de novo no velho apartamento abafado e cheirando a mofo, agora em um corredor cheio de molduras quebradas de retratos, algumas ainda com restos amarelados do que um dia foram fotos. Ele então ouve um barulho débil, mas estranhamente familiar, vindo de uma porta logo no final do corredor. Apesar de apavorado Leon segue até a fonte do tal barulho. Através da porta ele vê um minúsculo quarto com apenas uma cama, e algo sobre ela. Ele leva algum tempo para perceber que aquela coisa cheirando a podre e coberta de sujeira e fungos fosse uma pessoa, uma mulher. Clara. Ou algo que já foi ela.

– Porque demorou tanto, amor? – Fala Clara em uma voz tão acabada quanto ela própria, enquanto Leon recua em pânico – Agora eu tenho tudo que eu sempre quis. Eu estou feliz, você está amor?

Leon corre pelo corredor tentando voltar para a sala, mas acaba tropeçando nas própria pernas. Ele olha para traz e vê Clara mal se equilibrando com seu corpo agora magro e atrofiado tentando alcança-lo.

– Aonde você vai amor? – Diz ela – Seu lugar é aqui. Com sua família.

Leon logo se levanta e parte em disparada, rapidamente alcançando a porta, mas então ouve:

– Pai, aonde você vai? – Ele se vira e vê seu filho mais velho sentado a mesa com vários livros a sua frente, enquanto os outros dois brincam ao redor de Clara, que estava mais bela do que nunca.

– Você prometeu ajudar ele com as tarefas Leon, – Fala Clara em um tom carinhoso – lembra?

Leon para por um instante e se lembra da promessa que fez ao filho. Ele tanta se lembrar do por que ia sair, mas não consegue, então dá os ombros e vais sorrindo para perto do filho. Não devia ser nada importante. Por que ele iria querer sair, afinal? Tinha tudo o que sempre quis bem ali, e isso era a felicidade.

Rain Blues

Daniel sente as primeiras gotas de chuva acertarem seu rosto enquanto caminha pelas ruas desertas da madrugada e ao constatar o temporal que estava prestes a cair deixa escapar um sorriso para si mesmo. “Só faltava mesmo chover.”, pensa ele, avaliando a sensatez da idéia de sair para dar uma volta as três da manhã de um dia de inverno. A chuva vai ficando cada vez mais forte, mas ele parece não ligar. Ele apenas tira sua gaita do bolso e continua a caminhar sem rumo enquanto toca um blues. Ao terminar a musica Daniel se vê em uma praça que lhe parece bastante familiar.

– Bela musica. – Ele ouve uma voz feminina falando – Mas você deveria tocar musicas mais alegres.

Daniel se vira e vê Andréa sentada em um velho balanço no meio da praça. Ela se balança lentamente, como se estivesse deixando o balanço se mover ao sabor do vento, e não parece se importar com a chuva. “Claro,”, pensa Daniel, “o lugar do nosso primeiro encontro.”.

– Não, não tem clima para isso. – Responde Daniel – Alem do mais blues tem que ser blue.

– Lá vem você com esses seus chavões… – Fala Andréa rindo – E o que você faz na rua embaixo dessa chuva numa hora dessas?

– Precisei sair de casa, andar um pouco para espairecer.

– As 3 da madrugada? Esqueceu de dormir, foi?

– Não. É que fica meio difícil de dormir quando eu penso em você.

Há um momento de silencio, cortado apenas pelo barulho da chuva. Daniel chega um pouco mais perto de onde Andréa está, enquanto ela fica olhando para o chão, evitando encarar ele.

– Não é engraçado como a gente sempre acaba parando aqui? – Fala Andréa anda olhando para o chão.

– Por que você fez aquilo? – Pergunta Daniel.

– Como naquela vez em que eu tava bêbada e acabei batendo o carro naquele poste… – Continua falando Andréa.

– Não muda de assunto! – Fala Daniel.

– Não foi culpa sua. – Responde ela dessa vez olhando nos olhos de Daniel.

– Nunca disse que achava isso. – Fala ele, agora desviando o olhar.

– Nem precisa. Ta estampado na sua testa. Eu te conheço, Daniel.

– Então sabia o quanto isso ia doer…

– Para com isso. Você sabe que eu nunca faria nada para te magoar…

– Então por que foi?

– Não teve nada a ver com você…

– Mas eu preciso saber…

– Não. Você só precisa esquecer. Precisa me deixar ir.

– E como eu faço isso?

Daniel então volta os olhos para onde estava Andréa e vê apenas o velho balanço se movendo ao sabor do vento.

– Eu preciso é começar a beber como as pessoas normais fazem… – Diz ele para si mesmo, antes de soltar um longo suspiro.