Nunca

Ele olha para mim assustado, se debatendo inutilmente contra as correntes, enquanto eu espero sentado nas amuradas de pedra negra do castelo. Com o barulho que esse traidorzinho miserável faz não vai demorar muito. Nunca demora. Pela janela eu vejo os restos apodrecidos do galeão encalhado e lembro dos seus terríveis tripulantes, um tanto saudoso até. Isso aqui perdeu muito da graça sem o capitão. Tínhamos luta, ação, perigo… Até isso aquela maldita me tirou. Pensar que fui eu quem a trouxe para cá, para o paraíso eterno. Naquela época o verão durava para sempre e eu e os perdidos voávamos livres, brincando. Até ela vir. Ela veio com suas histórias, suas promessas e nos cativou a todos. Levou embora os perdidos, os deu um “lar de verdade”. Mas não para mim. Não havia lugar para mim no que ela criou. Eu ainda tinha esperanças na época. A observei mudando, crescendo e finalmente me esquecendo. E então o inverno chegou.

Eu ouço o tic tac se aproximando devagarzinho por debaixo da água e sorrio, o que parece assustar ainda mais o traidorzinho. Ele se debate ainda mais, mas o crocodilo acaba rapidamente com esse incomodo. Uma mordida e pronto. Ele coloca a cabeça para fora da água e me encara. Hoje acho que ele é a única criatura que me entende aqui. Durante o inverno eu trouxe novos perdidos aqui e logo o verão voltou. Mas eu sabia que devia proteger essa terra. E para isso eu uso ele. Ele vagava sem sentido, tendo matado seu nemesis. Agora ele devora os traidores. Os que querem voltar para casa. Porque nunca mais vou deixar que destruam o paraíso como aquela maldita Wendy fez. Nunca.

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Miragens

Tudo estava em silencio. A casa, a rua… Todo o mundo parecia simplesmente ter parado, morrido. O único sinal de vida que Isabela percebia era sua própria respiração arfante enquanto ela tentava se controlar, encolhida em um canto do seu quarto e agarrada com seu ursinho de pelúcia.

 – Isso não pode estar acontecendo, não é senhor feliz? – Ela fala, segurando o ursinho na altura dos olhos enquanto sorria nervosa e desesperadamente – Ninguém pode sumir desse jeito, não é? Pessoas não são miragens.

Ela se levanta e começa a andar, confusa, de um lado para o outro do quarto. Isabela não percebe nenhum movimento nas ruas e as luzes que penetram em fachos através das persianas apenas tornam a escuridão do seu quarto ainda mais ameaçadora. Ela continua carregando o ursinho apertando ele contra o corpo a medida em que andava.

– Eu preciso chamar alguém. – Ela fala para si mesma em um sussurro – Mas ninguém está aqui… Mamãe não fala do papai faz dias, desde que ele sumiu. A Laura… Todo mundo agiu como se ela não existisse.

Ela para e se senta ao pé da sua cama, novamente segurando o ursinho na altura dos olhos.

– Mas ninguém pode sumir desse jeito, não é senhor feliz? Pessoas não são miragens. E a Laura não foi um sonho. Não pode ter sido. Nós fomos a loja de doces hoje e compramos um montão. Eu sei que fomos. Minhas mãos ainda cheiram a doce. – Ela diz e então sorri para o ursinho – Mas você não se esqueceu dela, não é senhor feliz? Eu sei que você se lembra. Você nunca esquece ninguém.

Isabela aperta então um botão escondido no pelo do ursinho e começa a ouvir uma gravação. Primeiro em uma voz eletrônica que dizia “Aqui é o senhor feliz! Deixe uma mensagem para alguém especial e encha seu coração de felicidade!” e depois vinha outra, caseira e cheia de chiados, onde uma voz de menina falava. Era Laura. Dizia: “Bela, eu falo aqui para você nunca, nunca esquecer…”. A mensagem então se perdia, sendo substituída apenas por estática.

– Não, não! – Grita Isabela desesperada. Ela primeiro tenta tocar a mensagem de novo, mas só há estática, e então começa a chacoalhar violentamente o ursinho e a batê-lo no chão, até que ele se rasga e espalha todo o seu estofado pelo quarto. Ela então, arfando e tremendo, o joga longe e quando ele bate na parede a mensagem começa a tocar de novo. Primeiro a mensagem eletrônica e depois começam os chiados de uma mensagem caseira.

– Não tem mais ninguém. Ninguém. Ninguém. – Diz uma voz que Isabela reconhece como a sua própria – Todos sumiram. Mas eu ainda tenho o senhor feliz. Tudo vai ficar bem. Porque você nunca vai me abandonar, não é senhor feliz?

Isabela, percebendo o que fez, se aproxima dos restos do ursinho e tenta desesperadamente junta-los e concertá-los, mas já era tarde. Então as luzes se apagam. Naquela escuridão tudo estava em silencio. A casa, as ruas… Tudo. Era como se o mundo todo tivesse parado. Ou morrido. O único sinal de vida estava em um dos quartos.

Era uma respiração arfante e em pânico de uma menina.

Guarda-Chuva

O menino anda cabisbaixo ao lado de seu pai enquanto a chuva cai pesadamente sobre eles. Seu cabelo molhado cai deselegantemente sobre seu rosto, o que o faz sentir um pouco aliviado, pois assim esconde os hematomas que estavam espalhados por sua face. O pai, por sua vez, o observava enquanto caminhava ao seu lado, quase como se o estivesse estudando, com uma expressão que dizia que ele tinha algo para dizer, mas que ainda não havia decidido como começar a conversa. O pai então de repente para e, sorrindo para si mesmo, abre o guarda-chuva.

– Sempre esqueço de usar essa coisa… Vem, filhote. – Ele fala puxando seu filho para baixo do guarda-chuva – Sua mãe vai ficar uma fera se eu te deixar chegar em casa todo ensopado. E você aproveita e me conta o eu aconteceu.

– Eu… Briguei, pai. – Fala o menino, cabisbaixo, com o gosto de sangue amargando cada palavra.

– Eu percebi, porque bem, isso está na cara. Literalmente. – Responde o pai, deixando escapar um risinho pela observação – O que eu quero saber é sobre os eventos que levaram a tal briga.

– Não foi nada. – Insiste o menino, ainda cabisbaixo – Eu só briguei. Nada demais.

– Então não teve nada a ver com aquele menino que você salvou de levar uma surra? Como era o nome dele? Paulo, acho. – Pergunta o pai.

O menino então olha para seu pai, que por sua vez o observa novamente com um olhar de como se o estivesse estudando, mas dessa vez esse olhar é acompanhado por uma expressão tristonha.

– É Pablo, eu acho. – Responde o menino, dessa vez olhando nos olhos do pai – Não conheço ele direito.

– Então nem amigo dele você é… – Continua o pai, sua expressão ainda mais triste.

– Não. Mas eu não podia… – Fala o menino, tentando se articular em uma explosão de gestos.

– Não podia deixar aqueles três baterem nele daquele jeito. – Completa o pai – Não é mesmo?

– Como você soube? – Pergunta o menino.

– Aquela ruivinha amiga sua. – Responde o pai, com um risinho que ele sabia que o filho só entenderia alguns anos mais tarde – E não fique irritado com ela, porque ela só me contou para te livrar de alguma encrenca.

O dois param em um cruzamento, esperando o sinal abrir, um de pé do lado do outro mas em silencio e com olhares distantes, perdidos em seus pensamentos.

– Desculpa pai. – Fala o menino, novamente olhando para o chão.

– Não. – Fala o pai – Não precisa se desculpar. Você não fez nada de errado, filhote. Na verdade você fez o certo. E esse é que é o problema.

– Eu não entendo… – Fala o menino, olhando confuso para o pai, que por sua vez olhava para o horizonte.

– Você fez o que era certo, mesmo tendo que partir pra cima de três moleques maiores que você. – Continua o pai – Então é a primeira vez que você faz esse tipo de coisa completamente idiota simplesmente porque era o certo a se fazer. Não sei se foi porque eu acabei te criando bem demais, mas você é assim mesmo. Você é uma pessoa boa.

– Você fala isso como se fosse ruim, pai… – Fala o menino, preocupado com o tom do pai.

– Infelizmente é, filhote. – Fala o pai se abaixando para olhar nos olhos de seu filho – Porque nesse mundo isso só vai te trazer problemas. Muitas vezes você vai se dar mal, como hoje, ou pior, muitas vezes você não vai conseguir fazer diferença alguma. Você vai sofrer muito, filhote, e não há nada que ninguém possa fazer.

O menino olha longamente nos olhos de seu pai e fica em silencio, como que digerindo as palavras ditas por ele, e então sorri.

– Mas as vezes eu vou fazer a diferença. – Fala o menino sorrindo – Pra mim já está bom.

O pai olha para seu filho, ainda sorrindo com o rosto cheio de hematomas, e mostra uma expressão que mistura orgulho e tristeza. Seu filho seria um grande homem e ele gostava de pensar que tinha algo a ver com isso.

– Vamos pra casa, filhote. – Ele finalmente fala.

Inverno

Ele olha para seu refugio e quase não o reconhece, suas sombras e tons de preto desbotadas pelo cinza que tomava tudo ao redor, assim como seus tesouros, segredos guardados com tanto cuidado, sumindo pouco a pouco como se fossem feitos da poeira que outrora os recobria. Causava a ele uma certa tristeza constatar que o lar que havia criado para si se tornava cada vez mais o beco amontoado de lixo que os mundanos viam e que de seus bichos, pequenas criaturas rastejantes da escuridão que ele mantinha por perto para nunca se esquecer de onde havia vindo, não haviam nem mais rastros, apenas lembranças. Lembranças são tudo que restou para ele e os outros que ficaram para trás, e talvez nem isso dure muito.

Ele pensa em tudo que havia visto desde que havia nascido quando os primeiros homens contemplaram a escuridão pela primeira vez. Medo, era isso que ele era, mais até do que todos os outros do seu povo. Era o progênito da escuridão, o primeiro pesadelo, o único que se lembrava dos tempos em que arrastava pela escuridão do desconhecido dos sonhos no Éden. Em suas memórias haviam visões do Éden, dos caídos e de sua rebelião, da guerra que se seguiu. Fora testemunha da morte de Abel e das maldições sobre Caim. Testemunhou ascensão dos Thuatha e a queda dos Fomori, assim como a formação das grande cortes. E tudo isso agora corria o risco de se perder, tudo pela simples descrença daqueles que inadvertidamente o haviam criado.

Seu pensamento vagueia para os outros. A maioria foi embora, deixando o mundo para trás assim como os nobres haviam feito muito antes, se exilando no que resta do sonhar, dessa vez para nunca mais voltar. Ele se recusou a partir, ficou assim como todos os outros orgulhosos, teimosos ou corajosos demais para se salvar daquela forma. Desses poucos ainda restam. A maioria já se perdeu, tendo sido esmagados pela banalidade mundana, esquecidos de quem são levando vidas miseráveis sem nem ao menos se lembrarem do porquê. Os que como ele ainda se lembram de quem são vivem como homens condenados, fazendo tudo o que podem para aproveitar seus últimos dias de vida. Ele os sempre, ou jogados pelas ruas depois de noites de excessos ou então junto aos perdidos, aproveitando o tempo com aqueles para quem já foram importantes mas que hoje nem ao menos se lembram deles.

Ele olha a rua e vê apenas pessoas cinzentas em seu mundo cinzento, sem lugar para sonhos. E então, entre eles uma criança, cujas cores se destacam no meio do cinza, o olha fixamente e ele sabe o que ele vê. Escuridão. Medo. Ele sorri. Essa era a razão por que não só ele mas todos os outros haviam ficado. Ainda existiam aqueles que ousavam sonhar. “Porque nós, sonhos,” ele sussurrava, como se fosse um grande mistério do universo “somos antes de tudo feitos de esperança. Como poderíamos desistir assim?”

O Café

Jorge bebia o seu café lentamente, perdido em seus pensamentos enquanto esperava por Raquel. Ele estava lá, sentado em um dos bancos a frente do balcão do pequeno café, já fazia algum tempo, mas não se incomodava com a demora dela. Aproveitava esse tempo para refletir um pouco, sozinho, como costumava fazer antes de a conhecer. O barulho da porta se abrindo rapidamente o puxou de volta a realidade e ele viu Raquel entrando apressada, provavelmente fugindo da garoa que caia lá fora, e se sentando em uma das mesas vagas no fundo do estabelecimento. Ela se sentou na mesma mesa em que meses antes os dois se conheceram, ironia que não passou despercebida a Jorge, que esboçou um melancólico sorriso enquanto ia em direção a ela. Naquela vez ela tinha convidado ele pra sentar. Era uma outra tarde chuvosa e todos os lugares estavam ocupados, por causa de um show que aconteceria nas proximidades do café. Jorge, recostado em uma pilastra, esperava algum lugar ficar vago quando Raquel o chamou pra se sentar com ela. Por um momento ele hesitou, mas acabou indo, e eles ficaram lá, conversando, por horas. Agora, enquanto se sentava trazendo sua xícara de café ainda pela metade, ele torcia para que não demorasse muito.

– Ahn… Oi. – Fala Jorge um pouco sem jeito.

– Olá. – Responde Raquel enquanto acende um cigarro.

“Então ela voltou a fumar”, ele pensa enquanto olhava pra ela, e mal a reconhecia. Ele sempre viu Raquel, como alguém especial, bem diferente dele, que se considerava só mais um. De fato era duas pessoas de certo modo opostas, ela sempre sorrindo e ele sempre serio, ela idealista e extrovertida, ele racional e tímido. Mas esse contraste era só uma pequena parte do que deixava Jorge fascinado por Raquel. Ele costumava dizer que ela tinha algo, uma presença, algo que ele não conseguia descrever, mas que o encantava. Foi assim naquela primeira conversa, quando ela se deu conta de que tinha perdido o show, deu os ombros e comentou sorrindo que nem gostava muito da banda. Aquela Raquel que estava na sua frente agora não tinha isso. Não tinha aquele sorriso, aquele brilho nos olhos, nada. Parecia uma estrela apagada, morta.

– A gente tem que conversar Jorge. – Fala Raquel soltando uma baforada de fumaça – Você sabe que o que aconteceu…

– Não. Não tem porque conversar sobre isso. – Fala Jorge tomando mais um gole do seu café – Já foi.

– Tem certeza? – Ela pergunta, estranhando a frieza dele.

– Tenho. No fim é isso que você quer, ia ser inútil te prender aqui por mais tempo. – Ele responde, não conseguindo esconder um sorriso meio tristonho. 

 – Entendo… Agradeço então. – Fala Raquel, imitando o tom fleumatico de Jorge.

 – Não precisa. No fim não tinha nada que pudesse fazer. Ou tinha? – Ele pergunta baixinho, como se querendo deixar a pergunta guardada para si mesmo.

Soltando mais outra baforada ela simplesmente dá os ombros.

– Então… É isso. O fim. – Fala Jorge.

– É. Sem magoas ou ressentimentos? – Pergunta Raquel.

– Não se preocupa. – Jorge responde, num timido esforço para parecer cordial – Como eu disse, já foi.

Ela concorda com a cabeça, apaga o resto do cigarro no cinzeiro em cima da mesa e caminha na direção da saída, sem olhar pra trás. Jorge a observa enquanto bebe o resto de seu café em um ultimo gole, imaginando se a Raquel que ele amou havia realmente existido ou fora somente um sonho.