Coisas da Vida

As 7:15 da manhã, no ônibus a caminho da universidade, a única coisa em que eu consigo pensar é que eu deveria ter ficado dormindo até meio dia, quando eu almoçaria e ai voltaria a dormir.  Em um mundo perfeito minhas manhãs seriam assim, ou pelo menos as manhãs de chuva depois de uma madrugada passada em claro corrigindo uma dissertação. Infelizmente eu vivo em um mundo onde meu orientador diz que é imprescindível acordar cedo hoje para entregar a dissertação no prazo, então cá estamos nós. Mas bem, até que a situação não está tão ruim. O ônibus está vazio e eu vou sentado, apreciando a paisagem enquanto curto uma boa musica. Isso sem contar, claro, em apreciar as ocasionais mocinhas bonitas que vão entrando ao longo do caminho. Ok, a paisagem não vale nada, mas ao menos as mocinhas valem. De vez em quando. Seria muito bom ter uma para poder descansar os olhos nessa viagem longa.
E, como que respondendo às minhas preces, ela sobe no ônibus. Com certeza não existe nada melhor do que uma mulher com um bom timing.
Não é todo dia que aparece no meu caminho uma bela mocinha de olhos amendoados, tanto que eu até me distraio enquanto olho para ela. Tenho a impressão até de que acabei deixando sair um “Pooooxa…” em voz alta, o que provavelmente foi o que eu fiz a julgar pelo sorriso da velhinha sentada a minha frente. Eu tento disfarçar cantarolando uma musica imaginaria com “poxa” na letra, sem muito sucesso, até que percebo que ela senta do meu lado.
Pelo jeito hoje é meu dia.
Certo, e agora, o que eu faço? Puxar conversa era uma boa, mas estando os dois com fones de ouvido fica difícil. Maldita modernidade. Vamos tentar algo mais básico então, aquele olhar de lado meio disfarçado. Hum… Ainda mais bonita de perto. E cheira tão beeeeem… Foco! Mantenha o foco, homem! Olha só, ela também ta olhando pra cá. Contato estabelecido! Certo, agora sim podemos voltar a pensar na conversa, mas conversar sobre o quê? Pergunta idiota, musica, claro! Bem, o que será que ela está ouvindo? Pelo jeitinho dela, tipo “menina que chora ouvindo los hermanos”, nas palavras de um amigo meu, não parece ser nada promissor. Se bem que eu posso tentar uma cantada como “Posso ser seu cara estranho?”. Hum… Melhor manter minha dignidade. Já sei! Vou tirar um fone, sorrir pra ela e oferecer dizendo algo como “Aceita uma musica?”. É, um bom plano. Vamos lá… Ei! Por que ela está levantando? Ah… Chegamos no terminal da universidade.
Droga.
Não consigo pensar em nada pra dizer enquanto ela segue o caminho dela sem olhar para trás. Bem, pelo menos foi uma viagem divertida. Agora só me resta encontrar meu orientador e torcer para ter sorte de novo na viagem de volta. Falando no diabo, olha ele me ligando.
– Diz, chefe.
– Eu não vou poder ir hoje. Meu cachorro ficou doente, vou ter que levar ele no veterinário. Outro dia nós marcamos, ok?
É… Hoje não é meu dia.

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