Silencio

Eduardo hesita diante da porta. A sensação de familiaridade o incomoda, pois mesmo tendo abandonado aquela casa desde sua primeira infância tudo ali parece igual. As roseiras continuam ladeando a porta da frente de uma forma cuidadosamente selvagem. Mesmo o cheiro do lugar, uma mistura de madeira velha com óleo de pinho, ainda era igual a fragrância que permeava nos recantos mais profundos de sua memoria.

Ele empurra a porta com cuidado, sabendo que não haveria ninguém esperando por ele. Eduardo se acha com sorte ao perceber que a porta destrancada, mais ainda ao perceber que ela cede sem nenhum barulho. Mesmo as tabuas do corredor, que em sua memoria rangiam em um tom quase musical, agora permaneciam quietas sob seus passos, quase como se a casa obedecesse ao pesar de seus donos.

Ao chegar no hall de entrada uma miríade de rostos o encara. Alguns ainda reconhecidos apesar do tempo, como Gilmar, filho da dona Zuleide, a cozinheira da época, agora careca e cercado de crianças, ou Chica, a linda morena com quem perdera a virgindade na garagem de casa, que o reconheceu e acenou. E vários outros nomes e histórias voltaram a sua mente, alguns pela primeira vez em muitos anos. Amigos, parentes e conhecidos, todos deixados para trás como se pertencessem a outra vida. E lá também estão suas irmãs.

Tereza, a mais velha, mal pode conter o desgosto ao ver o irmão. Seguiu com um olhar de ódio os passos de Eduardo. Ele pensou que no fundo aquilo era justo, pois é o filho prodigo enquanto ela havia ficado. O próprio rosto dela deixa transparecer a amargura acumulada ao longo dos anos. Já Manuela, a caçula, fica radiante ao vê-lo. Não fosse a imensa barriga da gestação avançada ela teria corrido para abraçar Eduardo da mesma forma que fazia quando era pequena. Ele acena, cumprimentando-a, mas segue sem se desviar até onde o pai está.

O pai está no lugar de honra, no centro do hall, vestido em um terno impecável. Eduardo quase sorri ao perceber que aquele era o que ele chamava de terno de funerais, solenemente só usado nessas ocasiões. Nada mais justo. Ele se encosta no caixão e olha atentamente para o pai, buscando palavras, razões para a distancia, as brigas e o abandono.

Mas agora há apenas o silencio.

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