Heróis

Ele para, arfando, e se apóia um poste enquanto espera os carros pararem e liberarem a passagem. Não havia nem um segundo a perder, ele pensa, mas ser atropelado a essa altura do campeonato não seria muito útil.

As gotas de chuva caem pesadamente sobre a sua cabeça e se misturam ao suor, trazendo um gosto amargo para sua boca, enquanto ele espera ansiosamente pelo semáforo. Em meio a sua ânsia ele se permite observar a multidão se movendo pelas ruas a frente, cada pessoa com seu guarda chuva colorido, como que se inconscientemente tentando dar mais vida a cidade nos seus momentos mais cinzentos. Perdido em seus pensamentos ao observar o rio multicolorido que as pessoas em movimento aparentam ser, ele é surpreendido pela água jogada de uma poça por uma carro que passa em alta velocidade. “Aposto que nem Aragorn nem Arthur tiveram que passar por isso…”, ele pensa antes de suspirar e continuar seu caminho através do cruzamento agora livre.

Ele avançava agora pelo meio da multidão, abrindo caminho com empurrões e muita correria. Ele particularmente nunca apreciou esse tipo de ação, mas diante das circunstancias não via outra saída. Ao chegar aonde queria, a grande nova passarela sobre a maior avenida da cidade, ele olha em volta, procurando algo. Há um instante de desespero em que ele não percebe aquilo que procurava, até a ver através das grandes placas de vidro que separavam as duas metades da passarela, pouco mais que uma mancha através do vidro embaçado pela condensação. Ele corre novamente para dar a volta e alcançar o outro lado, amaldiçoando os arquitetos responsáveis por aquela “brilhante” idéia e pensando que com certeza os doze trabalhos foram bem mais fáceis que isso.

Ao chegar no lado certo, agora absolutamente exausto, ele finalmente consegue vê-la claramente. Ela está de pé sobre o parapeito da passarela, com seu vestido azul celeste contrastando com o céu cinza e um olhar perdido que observava as pessoas que passavam por ela, como que pedindo por ajuda. Ninguém parava, não nesses tempos de pressa e horários apertados, exceto por ele, mas ela não o via, nunca o viu. Ele sorri amargamente ao constatar isso, pensando como seria muito mais fácil se ele pudesse chegar vestido em uma imponente armadura prateada e cavalgando um glorioso corcel branco em vez de a pé e enfiado em um capote bege todo surrado. “Bem, não se pode ter tudo…”, ele pensa enquanto tenta se restabelecer da corrida.

“Não tem como eu salvar ela, não importa o que eu faça, nunca vou conseguir ser o suficiente, que nunca vou ser o que ela precisa.” ele pensa.

– Eu sei, eu sei… – Ele responde para si mesmo enquanto caminha – Mas eu acabo dando um jeito.

Sobrevida

Eu conheci a Nina na noite em que o Cadu se matou. Eu tinha chegado um pouco mais tarde em casa naquela noite, depois de um dia muito puxado no trabalho. Quando entrei em casa notei que havia mais alguém na sala, mas decidi ignorar e subi para o meu quarto. Normalmente o Cadu ficava lá, sentado no escuro, curtindo a fossa dele e naquela noite eu estava sem paciência para discussões. Só voltei a descer depois de tomar um banho e relaxar um pouco. Quando cheguei na sala a pessoa ainda estava lá na sala com as luzes apagadas. Eu suspirei e acendi a luz, já esperando a discussão com o Cadu. O que eu vi não foi o que eu esperava. Em vez de o Cadu estar deitado no sofá olhando para o teto ele estava esparramado num canto da sala com a cabeça no colo de uma moça, que olhava fixo para ele enquanto soluçava quase convulsivamente. Eu puxei uma cadeira e me sentei perto dela, que finalmente voltou seu rosto para mim. Estava com a cara inchada de choro, com olheiras enormes e uma expressão de tristeza daquelas que desafiam qualquer palavra a descrevê-las.

– Você deve ser o Alberto. – Ela disse, se esforçando para falar por entre os soluços.

– E você deve ser a Nina. – Eu respondi – Imagino que você possa me contar o que aconteceu aqui.

– Você é realmente como ele dizia. – Nina falou com um leve tom de ressentimento – Realmente nunca deu a mínima para ele.

– Uma pena que não seja tão esperta quanto ele dizia. – Eu falei, não conseguindo segurar uma risada cínica – Se for para ficar levando em conta o que ele dizia vamos ter que concluir que fui eu que forcei ele a misturar uísque com soníferos. – Continuei enquanto apontava para a garrafa e a caixa de remédio vazios em cima da cômoda – Igualzinho a como a nossa mãe se matou. Sem imaginação como sempre.

– Se você sabe tanto porque me perguntou? – Nina me perguntou.

– Só que não foi isso que eu queria saber. – Eu respondi – Eu quero saber é como aconteceu isso tudo, porque eu não acho que você viria aqui para ficar parada vendo ele se matar. Então vou perguntar de novo, o que aconteceu?

– É minha culpa. – Nina falou – Eu tenho uma doença. Terminal, incurável. Quando o Cadu soube ele disse que podia dar um jeito. Que no fim tudo que eu precisava era mais tempo e que isso ele podia me conseguir. Eu briguei com ele. Já tava cansada de tentarem achar uma cura para mim. Então hoje eu resolvi vir aqui, para conversar. Eu não devia ter descontado tudo em cima dele naquela briga. Eu encontrei ele aqui no chão. Quando me viu ele sorriu e me disse que agora eu ia ficar bem. Foram as ultimas palavras dele.

– De certo modo, ele estava certo. – Eu falei – Ele te deu o tempo de vida que ele tinha. Eu sei que você não vai acreditar, mas eu quero que você preste atenção em si mesma. Quando se está doente você sente que tem alguma coisa errada, ainda mais quando se está morrendo. Me diga, você sente isso ainda?

– Não… – Ela respondeu, incrédula – Mas isso é impossível!

– E ainda assim é verdade. – Eu continuei – Ele te deu uma vida nova. Sugiro que aproveite.

Ela parecia tonta depois de ouvir isso. Olhou longamente para o Cadu e depois me olhou nos olhos e perguntou:

– E como eu posso fazer isso sabendo o que essa vida custou?