Falta

Eu acordo meio confuso e demora um pouco para entender o porquê.  Acho que só percebemos o quão somos apegados aos hábitos quando somos forçados a mudá-los. Lembra como você costumava me acordar toda manhã? Chegava de mansinho e sussurrava no meu ouvido. Nunca conseguia lembrar o que você me dizia depois que eu acordava, mas isso sempre fazia me levantar com um sorriso. Gosto de pensar que era “Levanta e me come.”, porque, bem, era o que eu sempre fazia.

Eu rolo na cama, na vã tentativa de ainda sentir algo do seu cheiro no seu lado, e então levanto para ir ao banheiro. Antes tinha de esperar uma eternidade até você terminar. E lembrar de nunca cometer o pecado mortal de deixar a tampa da privada levantada. Pode me chamar de besta, mas de algum modo é reconfortante ver essas pequenas vantagens na vida de hoje.

O café é o de sempre: omelete e uma xicara de café para espantar o sono. Voltei a comprar do instantâneo. Posso até imaginar sua cara de reprovação. Mas veja bem, nunca consegui mexer naquela sua maquina de expresso e o objetivo deste café matinal não é degustação, é simplesmente me despertar. Ser ruim até ajuda nesse proposito.

Depois de comer, sento na varanda com as facas, para o meu ritual diário de afiá-las cuidadosamente. “Por que tanto cuidado com essas facas?”, você perguntava, se aconchegando no vão da janela ao meu lado. Você gostava de vestir um daqueles seus vestidos de verão nessas horas, leve e quase transparente. As vezes, quando batia o vento, parecia que você estava vestida com uma nuvem colorida. Lembro de ter cansado de explicar que as facas não eram importantes, era simplesmente algo que eu fazia para passar um tempo sem pensar, tipo uma meditação zen, entende? Acho que você só continuava perguntando para me abusar.

Quando termino eu guardo as facas, visto uma roupa decente e saio com a intenção de te visitar. Um pouco de ar puro e vitamina d devem me fazer bem, afinal já estou parecendo um figurante de the walking dead. Na portaria eu encontro dona Neves, do quinto andar, com um carrinho de compras cheio e me sinto obrigado a ajuda-la. É incrível como uma velhinha desse tamanho e que mora sozinha possa precisar de tanta coisa. Quinze minutos, muito peso e uma xícara de café aguado depois eu me despeço dela. Ah, ela mandou um beijo para você, viu?

Na rua eu percebo o quão bonito está o dia. Nenhuma nuvem até onde a vista alcança. Em dias como esse você estaria radiante. Era quase como andar com uma criança. Você chegava a tirar as sandálias e correr descalça pela rua. Ficava tão feliz que sempre esquecia que o asfalto quente queimava os seus pés. Noites e noites eu passei colocando pomada nos seus pezinhos. Não que eu tenha achado ruim. Acabava sempre virando parte das preliminares.

Agora cá estamos nós. Não te trouxe flores porque você sempre me disse que isso era besteira. “Não é como se eu fosse notar.”, você dizia. Você e essa sua falta de atenção. Pode me chamar de hipócrita, pois eu sempre disse que gostar de alguém era gostar dos defeitos, mas bem que queria ter mudado isso em você. Talvez assim você tivesse visto aquele carro. E ai não estaríamos tendo essa conversa.

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