Dia Ruim

Ainda é cedo quando ela sai do quarto, ainda se espreguiçando. Se eu a conheço bem, ela deve estar pensando no que vai fazer para o café da manhã. Eu por outro lado só consigo pensar como as vezes eu odeio o que faço. Não que seja culpa dela. Eu tenho plena consciência de que a culpa disso tudo é inteiramente minha, o que sinceramente torna a situação ainda pior. Só gostaria que ela facilitasse um pouco as coisas para mim. Ela agora abre as cortinas e ao ver o sol da manhã abre os braços em um gesto que é tão dela, como se quisesse abraçar o mundo e dizer “É tão bom estar viva!” com todas as exclamações possíveis. E lá se foi aquilo de facilitar pra mim. Mas já estou acostumado com isso. É engraçado, alias, como é fácil se acostumar com as coisas em tão pouco tempo. Mesmo manias estranhas como essa de agora, de gostar de tirar a roupa enquanto anda e deixar as peças esparramadas pelo chão. Mesmo coisas irritantes como ela gostar de cantar as malditas cantigas infantis que ela aprendeu nas aulas de francês acabam de certo modo gerando uma sensação de… Carinho, acho. Não sei se é a palavra correta, mas é o que me vem a mente quando penso a respeito. Agora que ela está no banho eu me sento ao lado da porta, tentando por meus pensamentos em ordem. E então vem o baque. Eu sempre avisei para ela do perigo, pedi tanto para ela colocar um tapete. Mas ela nunca me ouviu. Nunca ninguém me ouve. Eu trabalharia muito menos se as pessoas me ouvissem de vez em quando. Eu tenciono me levantar, mas ainda não é hora. Ainda consigo ouvir ela pedindo socorro baixinho, mas não há nada que eu possa fazer. Ou melhor, há muito que eu posso fazer, mas não devo. Afinal, se eu não jogar pelas regras, quem vai? Quando finalmente o silencio chega é minha deixa. Eu entro e a vejo me encarar com aquela expressão abobalhada que todo desgraçado faz nessas horas e que eu tenho certeza de daqui pra frente sempre vai me lembrar dela. Da minha parte só consigo forçar um sorriso amarelo e dizer “Diazinho desgraçado, não é mesmo, querida?”. E tudo isso antes do café da manhã. Tem dias que eu realmente odeio o que faço.

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