Sacrificios

Já são mais de dez da noite, mas o presidente ainda trabalha em seu escritório. Sua cabeça dói por causa da falta de sono, já que a mais de uma semana não consegue dormir mais do que duas horas por noite. Seu médico já o avisou que ele já não tem mais idade para uma rotina como essa, mas havia tanto para ser feito. A guerra estava sendo vencida, mas ainda longe de uma conclusão.

E havia a cerimonia da memória. O triste evento que lembrava os cinco anos do horrível atentado que havia dado origem a guerra. Uma bomba incendiária colocada em uma escola primária. 153 crianças mortas no fogo. Incluindo sua filha. Instintivamente o presidente pega uma foto dela, observando de perto aquele rostinho sorridente. Sentia falta dela, mais do que jamais conseguiu imaginar.

– Foi você. – Diz uma voz feminina que o traz de volta a realidade.

Ele vê, na entrada do escritório, sua esposa segurando uma pistola em sua mão direita.

– Querida, o que você está fazendo? – Ele pergunta.

– Foi você! – Ela continua, apontando a arma para a cabeça dele.

– Querida, eu não sei do que você está falando. Agora, por favor, abaixe essa arma… – Ele responde.

– Não tente bancar o inocente comigo! – Ela o interrompe gritando – Nossa filha! Você matou nossa filha!

– Querida você está perturbada… – Ele tenta responder.

– Não me chame assim, seu… Seu monstro! – Ela continua.

– Me escute. – Ele fala – Isso é uma grande mentira. Eu nunca faria nada disso. Você sabe o quanto eu amava nossa filha.

– Não ouse falar nela! – Ela responde – Eu nunca engoli essa história de atentado terrorista, mas nunca poderia ter imaginado. Sua própria filha?

– Você está louca! – Ele fala, fazendo menção de se levantar.

– Fique sentadinho ai. – Ela diz, engatilhando a arma – Não interessa como eu descobri.

Ela se aproxima, encostando a arma na cabeça do presidente.

– Eu vou te matar. – Ela fala – Mas antes vou te fazer confessar tudo, seu…

O tiro a derruba no chão como se fosse uma boneca de pano. Ela ainda tenta se arrastar para alcançar a arma que deixou cair, mas o presidente calmamente circula a mesa e chuta a arma para fora do seu alcance.

– Obrigado por chegar tão perto, querida. – Ele fala – Sinceramente achei que tinha amarrado todas as pontas soltas. E obrigado por chegar tão perto, querida. Você não imagina como é difícil mirar por debaixo de uma mesa. Ainda mais na minha idade. Os olhos já não são mais os mesmos.

Vários soldador entram alarmados no escritório.

– Senhor, o que aconteceu? Ouvimos um tiro! – Diz um dos soldados.

– Minha esposa! – Responde o presidente – Paga pelo inimigo para me matar! O que eu fiz para merecer tamanha traição?

Os soldados, atônitos, observam a cena sem saber como reagir.

– Chamem meu médico! Agora! – Ordena o presidente.

Os soldados saem apressados do escritório, deixando os dois a sós. Suspirando ele se abaixa e sussurra no ouvido dela.

– Sei que você não vai acreditar, querida, mas foi um sacrifício necessário. Assim como você é agora.

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