Sala de Espera

Lucio chega esbaforido na pequena sala de espera do hospital e se senta em uma das cadeiras de plástico, tomando algum cuidado para não se sujar ainda mais com o sangue que ainda pinga do curativo improvisado, um pano de prato já completamente manchado de vermelho mas que pareceu não ter impressionado muito a enfermeira que o atendeu na recepção. Ao recuperar o fôlego e sentir passar a sensação de urgência ele, sem entender muito bem o porquê, solta uma sonora gargalhada.

– Me desculpa a intromissão, mas qual é a piada? – Ele ouve uma voz feminina perguntar.

Só então Lucio percebe que não está sozinho na sala. Junto a uma das paredes está um homem jovem em uma cadeira de rodas, usando uma mascara respiratória ligada a um tubo de oxigênio, que encara Lucio com um olhar irritado e, sentada em uma das outras cadeiras de plástico, uma garota segurando uma revista de fofoca de cabeça para baixo enquanto também o encara, mas com uma expressão bem mais divertida.

– O quê? Eu… É… Desculpe. – Responde Lucio ainda atordoado com a descoberta das outras pessoas na sala – Eu só estava rindo da minha situação.

– Entendo… – Ela fala, mostrando uma expressão de estranheza.

– O que foi? Por que essa cara? – Pergunta Lucio.

– Nada, nada. – Ela responde ainda com a mesma expressão – Cada um com suas taras, mas cortar os pulsos não me parece uma diversão lá muito saudável.

– Não! Não foi nada disso que você está pensando. Eu não cortei meu pulso. – Fala Lucio – Quer dizer, cortei, mas não foi de propósito. Enfim, não é todo dia que alguém corta o próprio braço enquanto faz um sanduiche, não é verdade?

Por alguns instantes ela o olha incrédula e então começa a gargalhar incontrolavelmente, quase caindo da cadeira.

– Isso foi a coisa mais idiota que eu já vi alguém fazendo na vida! – Ela fala, ainda meio que rindo – Como você conseguiu essa proeza?

– Véi, foi um acidente! – Responde Lucio envergonhado – Eu estava fatiando tranquilamente um pouco de lombinho defumado quando me distrai um pouco… E quando dei por mim já estava sangrando como um cavaleiro do zodíaco.

– Se distraiu com o quê? – Ela pergunta, parecendo pronta para rir de novo.

– Isso… É melhor deixar para outra hora. – Fala Lucio, pensando na visão de sua vizinha seminua, que fora a causa de sua distração – Por que se a gente continuar rindo desse jeito acho que o Darth Vader ali vai acabar usando a força para enforcar a gente.

– Entendo. Bem, melhor mesmo guardar essa história para a próxima vez. – Ela diz, enquanto abre um sorriso.

– Próxima vez? – Pergunta Lucio surpreso.

– E nessa hora você deve estar pensando, “Espero que ela não esteja aqui na emergência esperando atendimento ginecológico.”. – Ela fala, com um sorriso que só poderia ser descrito como perigoso.

– Na verdade estava pensando “Tomara que não seja para a obstetrícia.”. – Ele responde no mesmo tom – Mas confesso que isso também é bastante relevante.

– Obstetrícia, hein? – Ela fala, ainda rindo – Senhoras e senhores, temos aqui um pessimista.

– Em um dia como hoje é melhor esperar o pior. – Diz Lucio.

– Bem, não se preocupe quanto a isso. Só estou aqui de acompanhante. – Ela responde.

Antes que Lucio possa responder uma enfermeira entra na sala e o encaminha para o medico. Alguns minutos e cinco pontos no pulso esquerdo depois ele volta a sala de espera, onde não vê mais sinal dela. Há, no entanto, um pedaço de papel colocado sobre a cadeira suja de sangue onde ele estava sentado e Lucio sorri ao ver o que estava escrito:

Um endereço de e-mail e a frase “Face it, tiger, you just hit the jackpot.”.