Horizonte Cinzento

– O fim está próximo. – Disse o Capitão.

Essas palavras, ditas por aquela voz tão solene e sombria, acabam por me tirar dos devaneios onde estava mergulhado. Dedico alguns instantes do meu olhar sobre aquela figura, que enfrentou o tempo e tudo de pior que a vida poderia oferecer e ainda continua de pé, invencível. Gostaria de saber se algum dia conseguirei ser assim… E com certeza não será sonhando acordado o tempo todo. Não tem jeito, a realidade deve ser encarada, especialmente quando ela está bem ali, a vista. Me levanto para encarar melhor aquele horizonte, meu destino. Destino, ai uma coisa em que eu gostaria de acreditar agora. Seria bom achar que o que vem por ai é algo para o qual eu nasci para fazer, algo para o qual estou pronto e que tem seu lugar no grande esquema das coisas. Com certeza seria muito melhor do que saber eu sou tudo que tenho e que é só com isso que eu posso contar.

– Está preparado, rapaz? – O Capitão me pergunta.

– Não. – Eu respondo – Mas a vida é assim mesmo.

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Sete Cartas Perdidas de um Tarot Vampiro

III – A Imperatriz

Ele nunca havia sentido algo como isso antes. Já havia estado com muitas outras mulheres antes, e estas não foram poucas, mas ela o fazia se sentir como se fosse a primeira vez. Talvez fosse o doce e intoxicante perfume que exalava de sua tez pálida. Ou então seus olhos, negros como dois abismos infinitos nos quais ele ansiava em se jogar completamente. Não sabia. Tudo que ele sabia era que a desejava mais intensamente do que jamais sequer sonhou ser capaz. Desejava não apenas possuí-la, mas também se entregar completamente. Mais do que isso, desejava entregar a vida de seu corpo para aquele ser magnífico, para que fosse apenas e exclusivamente dela.

Ela, por sua vez, sorria um sorriso ao mesmo tempo lascivo e faminto, pois sabia que naquela noite daria a ele tudo o que desejava.

IV – O Imperador

Diz a lenda que ambos os irmãos foram abandonados ainda bebês em um bosque e por um capricho da natureza, que na época ainda tinha poder para fazer valer a sua vontade, sobreviveram e cresceram fortes. Um dos irmãos, no entanto, se tornou desejoso algo maior para si. Queria não apenas a vida que lhe foi dada, mas um legado que durasse para todo o smpre. Assim partiu para o sombrio coração dos bosques, onde se dizia que eram guardados grandes segredos e mistérios. Lá ele perguntou o que seria necessário para que seu destino se cumprisse. E lá, em meio a escuridão onde nenhum homem jamais havia pisado, ele obteve sua resposta. Naquela noite o sangue de seu irmão foi derramado por suas mãos e ele amaldiçoado, não apenas a ter eternamente negado aquilo que a natureza lhe deu, mas também a ter que repetir aquele gesto traiçoeiro para sempre.

Alguns dizem que seu destino foi cumprido na forma da cidade que fundou, a qual ele governou das sombras por muitos e muitos anos e que até hoje é chamada de eterna. Os mais sábios, no entanto, sabem que seu legado eterno é apenas aquilo que conquistou naquela fatídica noite em que matou seu irmão: Sangue e escuridão.

VIII – A Força

Nesta noite saudamos aquele que sem duvida era o melhor de nós. Ele que se pôs entre nós e nossos temidos algozes, nos dando tempo para fugir com nossas miseráveis carcaças. Me pergunto o que eles diriam ao saber que um daqueles que são considerados demoníacos e sem alma foi capaz de se sacrificar para que todos nós pudéssemos viver. E a cada noite que vivemos, mesmo que nosso coração não bata, honramos seu sacrifício.

IX – O Eremita

“Por favor!”, ela insiste com olhos cheios de suplica, “Tudo que eu mais quero no mundo é seguir com você. Não importa onde você vá, nem os sacrifícios que eu tenho que fazer. Abandonarei tudo, minha casa, meus amigos, minha família, minha vida… Tudo para ficar com você para sempre.”

“Para sempre é tempo demais.”, responde ele soturnamente.

XII – O Enforcado

Um jovem cava desesperado o tumulo de sua amada. Ele tentava não pensar no vazio esmagador que sentira quando ela se foi, nem no aperto no seu estomago que lhe diz que o que está fazendo é errado. Nada disso importa mais, não depois das palavras do homem que lhe abordou quando saia do cemitério, já durante a noite. “Tire-a da sepultura na próxima noite sem lua e eu a trarei de volta, rapaz.”, disse o estranho, cujo cheiro de sangue e morte passou desapercebido pelo esperançoso rapaz, para o qual tudo que importa agora é cavar, e resgatar sua amada do abraço frio da terra. E então tudo ficará bem.

XIII – A Morte

“Perdoe-me a indiscrição,”, disse o Conde, um tanto constrangido, “mas devo confessar que estou um tanto surpreso.”

“Por um acaso não acreditava que eu existia, me caro conde?”, perguntou o outro, sorrindo.

“Não é bem isso, meu caro. É que depois de tantos séculos lhe enganando acabei me habituando com a idéia de que realmente viveria eternamente.”

“Me enganar? Vida eterna? Eu me pergunto de onde vocês tiram essas idéias absurdas.”, respondeu o outro, ainda sorrindo. Não que tivesse muita escolha em relação a isso.

XVIII – A Lua

As chamas urram como uma fera enjaulada enquanto ela as alimenta com os restos de sua ultima vida. Roupas, documentos e até mesmo jóias são atiradas ao fogo sem a menor cerimônia enquanto ela pensa em quem será a partir da próxima noite. Talvez uma socialite viúva para circular na alta sociedade, ou talvez uma punk em busca de diversão se misturando com os outros desgarrados. Não fazia diferença. Nem todos os disfarces do mundo poderiam lhe dar aquilo que nesses momentos, despida de mascaras e desprotegida, ela mais deseja: Esquecer a si mesma.