Travessia

2300 quilômetros. Meu deus, querida! Você não poderia ter escolhido um lugar mais perto? Serio, já fazem três dias que eu estou na estrada. Ta certo que, depois de tanto tempo, o que são mais três dias? Nossa, eu cheguei a pensar que nunca mais ia te ver, sabe? Sete anos. Será que você vai me reconhecer? Espero que sim. Quer dizer, eu acho que não mudei muito, mas a gente nunca consegue ter uma boa noção sobre isso, não é? Você, por outro lado, continua a mesma. Eu literalmente cai da cadeira quando vi sua foto naquela reportagem. Não, não se preocupa, não tive nada além de alguns hematomas e alguma vergonha. Três dias antes do seu aniversario. É, eu ainda me lembro. Foi o destino. É quase um final de filme, se você pensar direitinho. Eu vou chegar no final do expediente do dia do seu aniversario e, sorrindo meio envergonhado vou te dizer um singelo “Feliz aniversario”. Eu imagino a sua cara de susto. Vou ter de me segurar para não rir na hora. E então nos abraçaremos e ai talvez jantar para colocar o papo em dia. Falando nisso, não tive tempo de pesquisar se tem algum bom restaurante nessa cidade. Bem, não importa muito. O importante é que estaremos juntos. Cheguei. Agora é a hora.

Desço do carro e vou até a recepção com uma caixa dos seus chocolates favoritos, que eu espero muito que não tenham derretido. Eu preferia te trazer flores, mas as coitadas não iriam aguentar a viagem. Vou até a recepcionista, uma moça gordinha de jeito simpático e pergunto por você. “Ela acabou de sair.”, ela fala, “Mas você ainda pode encontrar ela no estacionamento.”. Eu agradeço e saiu rapidamente para o estacionamento. Talvez correr gritando seu nome, bem a tempo de você me ver no retrovisor e parar o carro? Nem preciso. Lá está você. E não está sozinha. Junto de você está um cara, sujeito alto e bem vestido, tipo que eu nunca fui, e duas menininhas, como você sempre quis. Vocês quatro dividem um sorvete enquanto sorriem. Merda, parece até uma cena saída de um comercial de margarina. Só que com sorvete.

Eu saio a francesa e volto a recepção. A moça gordinha me pergunta se eu te vi, mas eu digo que não. Deixo o presente com ela, pedindo para que entregue a você amanhã. É seu de qualquer jeito. Eu então me despeço e saio. Mas antes pergunto onde fica o bar mais próximo.