Estela

Até hoje ainda é difícil para mim falar de Estela. Não que seja uma experiência assim tão dolorida, apesar de, como tudo na vida, ter tido seus percalços. A triste verdade é que é difícil falar dela porque eu não cheguei a conhecê-la de fato. Conheci o corpo, cada curva coberta por aquela pele morena com cheiro doce, mas não conheci a alma. Conheci o mistério, mas não conheci a mulher.

Se eu acreditasse em destino, diria que foi ele que nos colocou em rota de colisão. Tudo começou numa noite banal de sexta-feira em que eu como de costume havia saído com o Ricardo e o Beto. Paramos no Bar do Chico, que era nosso esquente oficial devido a cerveja barata e boa musica, com o intuito de depois seguir noite a dentro em busca de moças incautas que nos quisessem. Naquele dia em especial, contudo, eu não quis seguir para segunda parte do plano. Nessa hora aqueles que acreditam diriam que foi a mão do destino, mas para mim a explicação é bem mais prosaica: o dia havia sido muito cansativo até então e eu simplesmente não estava com paciência para a conversinha de sempre, protocolo imprescindível para as periguetes da noite. Assim, depois de me xingarem de todos os palavrões conhecidos e alguns inventados na hora, meus amigos desistiram e me deixaram sozinho bebendo no bar.

Não posso precisar quanto tempo fiquei ali, apreciando a cerveja e imerso em meus pensamentos, mas em algum momento minha atenção se voltou para a musica que tocava. Era a versão de I shot the sheriff do Eric Clapton, que eu já havia ouvido mais de mil vezes, só que havia algo de diferente nela dessa vez. Demorei quase um minuto pensando antes de perceber que havia outra voz cantando junto do Clapton. Instintivamente me virei para ver quem era. E lá, sentada do meu lado, estava ela.

A imagem de quando eu a vi pela primeira vez ainda está viva na minha memória como se tivesse acontecido a dois minutos atrás. Ela usava um vestido azul muito elegante, com um corte que deixava suas coxas amostra. Seu cabelo estava preso em um penteado que o deixava emoldurando seu rosto de uma maneira calculadamente rebelde. E seus lábios estavam cobertos com um batom de um vermelho vivo. E foi ai que meu olhar se demorou, ao ponto de eu perceber que ela parou de cantar e começou a sorrir. “Meus olhos estão aqui em cima.”, ela disse, ao que eu fiquei mortalmente encabulado, mas consegui responder algo que a fez rir. Depois disso, de algum modo a conversa fluiu fácil. Começamos no bar, falando sobre nossos covers favoritos, musicas, da vida, do universo e de tudo mais e terminamos na minha casa, ao som de sussurros e gemidos.

No dia seguinte acordei com ela ao meu lado, sorrindo. Naquela hora Estela me propôs um acordo: Continuaríamos a nos ver, mas eu tinha de prometer não fazer perguntas e ela prometeria não se apaixonar. Olhando os termos hoje parece um mal acordo, mas naquela hora eu teria aceitado quaisquer termos. E assim os bons tempos começaram.

Estela passou a me visitar todos os dias. As vezes ela já estava na casa quando eu chegava do trabalho e transavamos até o sol raiar. Outras ela só chegava de madrugada, quando eu já não tinha mais esperanças que vinhesse, e só me pedia uma massagem antes de dormir. Ela ia e vinha ao seu bel prazer e nunca dizia uma só palavra sobre si mesma. De minha parte eu me sentia cada vez mais atraído por ela. Chegava a ser difícil pensar em algo que não fosse Estela.

Então um dia Estela não veio. Fiquei desapontado, mas não realmente preocupado. Poderia ser mais um de seus caprichos, afinal. Mas os dias se tornaram uma semana e então duas. Tentei seguir a vida, mas eu a via em cada rosto, sentia seu cheiro a cada esquina. Sentia como se fosse enlouquecer até que finalmente a reencontrei. Cheguei do trabalho e a encontrei me esperando na porta da minha casa, com uma aparência cansada e ferida. Antes que eu pudesse dizer algo ela me arrastou para dentro. Naquela noite foi tudo absurdamente intenso, meu medo e saudades se misturando com o que eu percebia como um desespero vindo dela, especialmente quando Estela sussurrava “Eu te amo.” no meu ouvido.

Ao amanhecer, já semiconsciente, vi Estela, já vestida, se preparar para partir. Não resisti e perguntei “Qual seu nome?”, também quebrando o acordo que tínhamos feito. “Estela.”, ela respondeu e então saiu. Para nunca mais voltar.

Anúncios