Reminiscencias

Eu vejo um dia bonito. Estou em um daqueles parques de filme, com grama bem verde em um dia de verão, onde crianças brincam, homens se divertem com seus cachorros, casais namoram… Tudo isso debaixo de um céu azul de verão sem nenhuma nuvem a vista. Tudo perfeito, mas existe algo me incomodando, embora eu não consiga definir bem o que seja. Tento ignorar e me deito para relaxar na grama, debaixo da sombra de uma arvore, mas algo em meu bolso me incomoda. Eu reviro os bolsos e encontro um bilhete amassado, escrito com minha própria letra. Está escrito “Não se esqueça dela.”. A lembrança vem como um raio na minha mente. Ana!Era ela quem eu deveria encontrar aqui. Me levanto exaltado e começo a procurar em volta, um sentimento de urgência apertando o meu peito.

– Calma, garotão, não precisa ficar tão nervoso. – Soa a voz dela atrás de mim. – Eu só me atrasei um pouquinho.

Eu olho para ela não consigo deixar de sentir uma certa nostalgia, pois ela veste o mesmo vestido do dia em que fomos morar juntos. Sempre fico nostálgico quando a vejo vestida assim.

– Desculpe. – Eu respondo, um tanto sem graça – É que eu não estou me sentindo muito bem.

Ela simplesmente sorri para mim, do mesmo jeito que sorriu quando nos conhecemos, e esse sorriso me amansou como sempre.

Ela me abraça, nós caímos no chão e começamos a nos beijar apaixonadamente, me lembrando de uma vez quando fomos namorar em uma praia deserta. Mas ainda há algo me incomodando, latejando no fundo da minha consciência,

– Você desistiu daquele trabalho? – Eu pergunto, sem entender o porquê.

– Sim. – Ela responde.

Eu sorrio e volto a beija-la. Ela desistiu daquele trabalho perigoso, mesmo com todo o orgulho dela, tudo isso por mim. É tudo que eu queria. Mas não foi assim. Eu a empurro bruscamente e ela nem perde tempo fingindo que não entendeu, assim como todo mundo mais que está no parque. Eu saio correndo e sei que eles me seguem, mas eu nem olho para trás para ver que formas horríveis eles devem ter assumido. Me concentro em achar a porta e quando eu a alcanço pego a chave que está em meu bolso e a abro o mais rápido que eu posso. Não foi rápido o suficiente. Eles me agarram e começam a me arrastar. Eu tento me debater, mas é inútil. Então eu sinto um puxão para dentro da porta aberta.

E tudo fica branco.

Eu me vejo deitado em uma cama, olhando para o teto onde um ventilador gira lento demais para ventilar, sendo muito mais decorativo do que qualquer outra coisa. Típico dela. Sinto ela deitada as minhas costas, seu peito se movendo na lenta cadencia da respiração.

– Mas você, hein? – Ela fala em tom de brincadeira – Grande missão de resgate sua. Nem consegue me “salvar” sem a minha ajuda!

– Isso não tem graça… – Eu respondo, bastante serio, sem desviar o olhar do teto.

– Tem sim. – Ela atalha e começa a rir.

A risada dela me contagia e eu até me permito rir junto, mas a minha risada sai amarga. Acho que ela percebe isso também, porque o riso dela morre também no mesmo instante.

– Enfim, você chegou aqui. Pelo menos me olhe nos olhos e me dê um beijo de adeus. – Ela fala.

– Ainda não. – Eu falo enquanto me levanto da cama e ando em direção a parede oposta do quarto – Ainda não…

– Tudo bem… Não vou te apressar. – Ela responde com uma voz doce – E como vai seu irmão?

– Provavelmente tendo um ataque de pânico nesse instante. – Eu falo – Afinal meu cérebro deve ter quase escorrido pelos ouvidos agora pouco.

– Você devia parar de fazer isso com ele. Vai acabar matando o rapaz. Você sabe que ele tem o coração fraco e… – Ela fala.

– Por que você teve que fazer isso? – Eu pergunto, me apoiando na parede, ainda sem coragem para encarar ela – Mesmo depois de eu tanto te pedir, cheguei a te implorar até. Você foi e tentou esse serviço. E agora você se foi.

– Eu precisava. Haviam coisas muito mais importantes em jogo. – Ela fala em um tom serio.

– Eu sei disso. – Repondo impaciente.

Eles haviam feito esse lugar para ser uma armadilha para gente como nós. Nos enredavam em ilusões enquanto arrancavam nossa consciência e usavam para qualquer projeto que quisessem. Enquanto isso tudo que sobrava era uma casca vazia, que logo morria. Ela veio acabar com isso e apagar todos os dados, “Libertar as almas”, como ela dizia. E no fim esse acaba sendo o meu encargo.

– Todos já apagados. Nem foi tão difícil assim. A segurança aqui não é tão boa quando se sabe o que esperar. – Eu falo secamente.

– E eu ainda aqui… – Ela atalha, dando um longo suspiro.

Eu me viro para encara-la, absolutamente furioso. Que direito ela tem de me tratar com tanta condescendência?  Mas ao vê-la finalmente eu tenho um choque. A cama onde ela está é na verdade um leito de hospital e ela está ligada a uma grande maquina como aquelas que usam para manter vivos os doentes terminais.

– Montei isso para facilitar a sua vida. – Ela fala, sorrindo para mim.

Eu ranjo os dentes quando ela diz isso e atravesso rapidamente o quarto na direção do botão de desligar da maquina. Facilitar a minha vida? Ela não entende que isso só torna tudo pior para mim? Ter que fazer isso de novo… Eu Hesito. Olho para ela com esperança. Eu poderia leva-la daqui, coloca-la em um lugar seguro.

– Vamos. – Ela fala – Você tem que me deixar ir.

Eu suspiro e aperto o botão.

Eu vejo tudo branco.

Duat

Erick sente que há algo errado quando sai da sala de descompressão e entra na estação, enquanto as escotilhas se fecham atrás dele com seu já familiar estrondo metálico. Havia uma sensação estranha de vazio que exalava dos corredores enquanto ele seguia apressado para a sua cabine na estação espacial de pesquisa experimental Duat, localizada no quadrante espacial de Câncer, na órbita do buraco negro supermassivo Anúbis. A sensação o lembrava de um dia em seu passado que agora felizmente parecia muito distante, e ele balança a cabeça para faze-lo ir embora novamente. Não havia nenhum barulho nos corredores exceto pelo zunido dos purificadores de ar que forneciam o suprimento de oxigênio da nave, o que não era de todo anormal, pois era uma estação enorme e os poucos tripulantes costumavam estar sempre enfurnados em suas salas conduzindo suas pesquisas. Depois de desfazer sua bagagem Erick decide passar pela sala de seu amigo mais próximo, o Dr. Abdul Zayd, gênio responsável pelo desenho da Duat e pioneiro no campo da física multidimensional. Erick encontra o Dr. Zayd em sua sala, como de costume, mas em vez de cercado por assistentes o enchendo de perguntas que só ele conseguiria responder, ele se encontrava sozinho observando as enormes telas dos supercomputadores do seu laboratório processando cálculos incompreensíveis para Erick.

– Dr. Zayd? – Fala Erick, balanceando entre um tom alto para chamar atenção de seu amigo e um tom cuidadoso para não exalta-lo.

– Pois não… – Diz o Dr. Zayd, se virando para encarar o visitante, fazendo Erick se assombrar com sua aparência. Abdul, que havia sempre sido um homem bastante elegante e organizado, ostentava enormes olheiras e uma barba malfeita, o que se somando a expressão abatida em seu rosto denunciava que ele não dormia a varias noites. A única coisa que não combina com isso são seus olhos, que brilham com uma vivacidade e curiosidade que Erick nunca havia visto antes. – Ora, se não é o jovem Erick… Eu já havia perdido as esperanças de vê-lo novamente.

– Não seja dramático, doutor. – Erick responde em um tom casual – Eu só fui fazer uma viagem de rotina para buscar suprimentos para a enfermaria.

– Ah sim, claro… – O Dr. Zayd fala, olhando sombriamente para Erick – Sendo assim, cuidado quando encontrar aquilo do qual você fugiu.

– Como assim, doutor? – Erick pergunta, um tanto assustado com as lembranças que teimavam a voltar.

– Ninguém se lança na imensidão do vazio infinito se não estiver procurando por algo ou fugindo de algo. – Fala o Dr. Zayd com o sorriso de um professor que corrige uma bobagem dita por um aluno – E você nunca foi do tipo curioso, doutor Einkman.

Erick se afasta, indo embora com uma expressão preocupada no rosto enquanto o Dr. Zayd volta a observar as torrentes de cálculos que passavam pelos monitores.

– E eu que vim aqui buscar a verdade… – Fala o Dr. Zayd para si mesmo – Por que tinha que ser algo tão complexo e tão belo?

Erick corre para a enfermaria com o intuito de conseguir ajuda para levar o Dr. Zayd até lá para trata-lo, pois o homem claramente mostrava sinais de transtornos mentais.

– Deve ter passado dias a fio olhando aqueles códigos sem sentido. – Fala Erick para si mesmo – Pobre homem. Deve ter mandado os assistentes embora quando eles tentaram tira-lo de lá. Mas por que deixaram ele lá o tempo todo?..

Erick para ao chegar na porta da enfermaria, pois a sensação que tivera ao entrar na nave o tomou novamente e dessa vez ele percebe que não é apenas uma sensação de vazio. É uma sensação de morte, assim como havia tido quando encontrou sua filha, anos antes. Ele entra na enfermaria com cuidado, não avançando até as luzes automáticas acenderem. O que ele vê lá dentro o deixa zonzo. Ele vê corpos, dezenas deles, todos estendidos nas mesas e no chão da sala, cobertos cada um com um lençol.

– O senhor não teve pressa nenhuma, não é mesmo, Doutor Einkman? – Diz uma voz que soa atrás de Erick.

Erick quase cai no chão por causa do susto, apesar de ter reconhecido a voz de imediato. É o capitão Harris, vestido em seu uniforme de gala e observando Erick com sua impressão impassível de sempre, mais parecendo uma estatua de cera do que um homem.

– O que está acontecendo aqui? – Pergunta Erick apavorado.

– Dever. Esperava que o senhor como medico entendesse. – Responde o capitão com um leve tom de reprovação na voz – Acho que foi esperar demais de um civil. Mas de qualquer modo, um bom capitão não pode deixar nenhum homem para trás.

– Do que você está falando? O que aconteceu aqui? – Pergunta Erick ainda com medo.

– Perguntas, perguntas e mais perguntas! – Responde o capitão, parecendo ofendido – Eu sou um capitão da armada espacial, não um guia turístico, homem! Agora pare de perder tempo com asneiras e vá para sua cabine. Lá você vai achar suas benditas respostas.

– Mas eu não entendo… – Fala Erick, confuso.

– Doutor Einkman, essa é uma ordem simples e eu sugiro que o senhor cumpra. – Continua o capitão com um ligeiro tom de ameaça – E que vocês não demorem muito. O senhor já me fez esperar demais.

Sem entender o porquê Erick segue de volta para sua cabine sentindo como se estivesse voltando para o passado. Era um belo dia de sol na Terra e ele chegava para almoçar com sua filha. A casa estava silenciosa, mas ele não estranhou, pensando que sua filha ainda estava na escola. E então ele a notou, estendida no sofá com um vidro vazio de tranqüilizantes ao lado.

– Eu gostaria de poder esquecer isso… – Fala Erick para si mesmo enquanto abre a porta de sua cabine.

Dentro da cabine, sentada em cima de sua mesa e balançando as pernas no ar como sempre gostava de fazer, está sua filha. Ela olha para Erick, que está paralisado, incrédulo, e lhe dirige um sorriso igualmente carregado de culpa e vergonha.

– Oi papai… – Ela fala.

– Julia, mas como? – Responde Erick – Você não deveria estar aqui, você está…

– Morta? – Atalha Julia – Sim. Justamente por isso esse é exatamente o lugar onde eu deveria estar, pai. Duat… Não é engraçado como os cientistas as vezes acertam as coisas até mesmo sem querer?

– Filha… Não pode ser. – Continua Erick – Eu enterrei você! Eu te deixei morrer!

– Não, pai. Não foi culpa sua. – Fala Julia se aproximando de seu pai e afagando seu rosto – Desculpa por eu ter te feito se sentir culpado. Eu, não queria…

Erick a interrompe abraçando-a fortemente, o que a deixa sem ação por um tempo, mas então ela finalmente retribui o abraço e os dois permanecem assim por longos minutos.

– Agora chega, pai. – Fala Julia, gentilmente afastando o pai e enxugando as lagrimas com as costas da mão – Eu prometi ao capitão que não ia te deixar demorar muito. Você já fez o coitado esperar bastante. Precisamos ir.

– Ir para aonde? – Pergunta Erick – O que está havendo aqui?

– Nós chegamos na entrada certa, pai, mas agora temos que atravessar a porta. Não sei bem o que acontece depois. Acho que temos que falar com ele. – Fala Julia apontando para o buraco negro através da escotilha.

– Do que você está falando? – Insiste Erick.

– Você morreu pai. Sua nave explodiu quando você saia na sua viagem para pegar suprimentos – Fala Julia, em um tom serio.

– Impossível… – Responde Erick, descrente.

– Então me diga, o que você se lembra dessa viagem? – Pergunta Julia.

Erick pensa, mas só se lembra de estar zarpando e então de repente se ver de volta na estação. Há também uma memória vaga entre esses acontecimentos. Uma memória de alarmes disparando e medo.

– Não pode ser… – Fala Erick.

– Vamos, pai. Vai ser mais fácil daqui pra frente. – Fala Julia oferecendo a mão para seu pai.

******

O Dr. Zayd se deleita ao ver finalmente os números parando de correr nas telas de seu supercomputador e serem substituídos por uma mensagem em letras garrafais com os dizeres “Equação Completa”.

– Então finalmente aqueles dois acharam seu caminho…

Ele sorri para si mesmo. Havia desvendado o mistério mais belo e complexo do universo. Havia feito imensos sacrifícios, mas todos eles acabariam entendendo. Havia sido para o bem maior. Ele então tira uma arma de dentro de uma gaveta e aponta para a própria cabeça.

– Que o meu coração pese menos que uma pluma.