A Primeira

Eu lembro que as unhas dela estavam pintadas de preto.

É engraçado como a memória funciona. Eu não lembro, por exemplo, qual era o filme que estávamos vendo ou ao menos do cheiro dela. Na verdade nem consigo lembrar direito do rosto dela. Consigo rever as partes constituintes, os olhos negros, os lábios vermelhos, o nariz afilado… Mas de forma alguma dá montar elas na minha mente como um todo coerente. Das unhas pintadas eu lembro bem porque ela tinha a mania de colocar as mãos no rosto quando estava entediada. Pensando bem é até lógico eu não lembrar do filme. Minha atenção, afinal, estava em outra coisa.

Ela tinha chegado atrasada na casa onde o pessoal se reunia para ver filme todo domingo. Não nos conhecíamos alem de saber o nome um do outro e ter esse amigo, o dono da casa, em comum. Acabou tendo de sentar do meu lado, pois era o único lugar vago. No começo tentei agir normalmente, mas então comecei sentir o peso do olhar dela sobre mim. Aqueles olhos negros. Isso é algo que eu nunca conseguiria esquecer, mesmo se eu quisesse. Eram olhos cheios de delicadeza e daquele mistério feminino, aquela coisa natural que só depois de muito tempo eu iria entender. Não lembro se conversamos. Lembro de algum papo, mas tenho lá minhas duvidas se eu estava em condições de uma conversa genuína. Mas lembro que eu a fiz rir. Ela não sorria muito, mas tinha um sorriso verdadeiramente lindo, daqueles que ilumina o mundo ao redor. E então senti a mão dela pousar delicadamente sobre a minha. Se antes eu não conseguia pensar direito, agora tudo que vinha a mente era o pulsar descompassado do meu coração. Ela se inclinou na minha direção lentamente e, depois de uma espera que pareceu uma eternidade, meu mundo se preencheu com o doce sabor dos lábios dela.

Foi ai que eu descobri qual o gosto do paraíso.