Estrada

O vento faz um barulho fantasmagórico enquanto passa pelos canaviais que cercam aquele trecho da estrada, onde jaz parado um carro com suas sinaleiras piscando em um ritmo frenético, dando uma iluminação surreal aquela noite sem lua. Lucia anda loucamente ao redor de seu carro, respirando fundo e tragando seu terceiro cigarro seguido em uma vã tentativa de se acalmar enquanto se enrolava em seu casaco, tentando se convencer de que tremia por causa frio do sereno.

– Nossa, estamos histéricos hoje a noite, não? – Soa uma voz de dentro do carro. La estava Miguel, recostado de forma debochada no banco do carona com seu cabelo por cortar, barba por fazer e uma camiseta surrada, como se estivesse voltando de um domingo na praia com os amigos. Ele ri bem alto depois de falar e então continua – Você não devia ficar assim só por causa de um pneu furado. Pode acabar enfartando, sabia?

Lucia para e lentamente vai até a mala. Ela hesita um pouco e então a abre e rapidamente pega o estepe, o macaco e começa a trocar o pneu do carro de forma mecânica, como se não fosse ela quem estivesse ali e tudo fosse um filme ou um sonho louco.

– Olha…  Gostei de ver essa sua iniciativa. – Fala Miguel com sarcasmo – Não vai querer que eu ajude, meu bem?

– Não quero nada seu. – Responde Lucia sem desviar o olhar do trabalho que fazia.

– Isso lá é jeito de tratar alguém que só está tentando ser cavalheiro, coelhinha?

Ela para de repente, e se levanta, como se fosse partir pra cima dele, mas então desiste e continua o trabalho.

– Nunca mais me chame disso. – Ela fala, rangendo os dentes, mas sem desviar o olhar.

– Mais essa agora! Resolveu ficar com raiva desse apelido carinhoso é? Pois não importa o que você diga, pra mim você sempre vai ser minha coelhinha.

Miguel começa a rir enquanto Lucia termina de trocar o pneu. Ela se levanta e joga as ferramentas furiosamente dentro da mala, a fecha com violência e então vai para dentro do carro. No banco do motorista ela segura o volante com força, tremendo, respira fundo e então dá a partida no carro, saindo dali com uma arrancada.

– Oba! Agora podemos continuar nosso passeio feliz, não é coelhinha? – Fala Miguel, ainda com um malicioso sorriso em seu rosto. Lucia não responde, apenas continua dirigindo com uma expressão seria no rosto. – Que é isso coelhinha, até parece que não gosta mais de mim. Desse jeito você me machuca.

– Para… – Fala Lucia, quase em um sussurro, sem desviar o olhar da estrada.

– Ah coelhinha, deixa disso, me deixa ver esses seu olhinhos brilhantes.

– Para…

– Se você continuar me tratando assim vou acabar achando que você não me ama mais, sabia?

– Para! – Ela grita, perdendo momentaneamente o controle, tanto de si mesma quanto do carro. Após se recuperar ela nota luzes a seguindo e ouve o barulho de sirenes.

– A policia! Ah, agora nosso passeio feliz vai ficar bem divertido! – Fala Miguel – Ah sim, e o que você vai fazer agora, hein? Vai fugir, coelhinha?

Ela para o carro, ainda ofegante, e logo o policial está de pé em frente a janela do carro.

– Os documentos, moça. – Fala o policial

– Aqui, seu guarda. – Fala Lucia, nervosa – Algum problema?

– Nenhum, – Diz o policial enquanto examina os documentos – tirando aquela sua manobra e o seu excesso de velocidade…

– Desculpa. Eu não estou acostumada a dirigir em estradas, ainda mais a essa hora…

– Tudo bem. Vou só te dar uma advertência, mas dirija com mais cuidado daqui pra frente. Essa estrada é bastante perigosa.

– Muito obrigada, policial.

Ela se afasta lentamente e continua seguindo pela estrada, noite a dentro.

– Que sorte! – Fala Miguel – Ele caiu no truque da vitimazinha e nem pediu propina! Mas se bem que não precisamos de sorte quando lidamos com uma especialista, não é?

Ela não responde, mantendo os olhos na estrada, mas suas mãos tremem um pouco. Logo ela sai da estrada principal e entra em uma estrada de barro meio escondida pelo mato.

– Adorei o cenário. – Fala Miguel – Estou começando a pensar que você fez isso só pra ficar sozinha aqui comigo. Chega até a ser excitante.

– Cala a boca! – Grita Lucia.

– Huuuum… Pensei que fosse pedir pra eu dizer o seu nome. Vai querer me algemar agora, também?

Ela para o carro em um descampado coberto de mato, coloca as luvas de jardinagem e pega a pá que estavam no banco traseiro e desce. Ela cava o mais rápido que pode um buraco razoavelmente profundo e então vai até a mala do carro e retira de lá um grande fardo enrolado por um lençol e o joga dentro do buraco que cavou. Ela vê através de um rasgo no lençol surgir a cabeça de Miguel, com um buraco na testa e a face coberta de sangue seco. Ele olha para ela e sorri com o mesmo sorriso de um tubarão cercando sua presa.

– Isso é jeito de se despedir de mim? – Fala ele – Pelo menos venha aqui e me dê um beijinho, minha coelhinha.

Miguel começa a gargalhar. Lucia grita e começa a golpear ele com a pá, uma, duas… Incontáveis vezes, até que aquela risada parasse de soar em sua cabeça. Ela então vomita uma bile amarga enquanto chorava e soluçava sem controle. Quando finalmente se recupera, cobre a cova som terra e mato e vai embora o mais rápido que seu carro permite. Logo ela sai da estrada de terra, mas só relaxa quando vê as luzes da cidade ao longe.

– Finalmente terminou. – Fala Lucia para si mesma – Finalmente eu estou livre.

– Eu não teria tanta certeza, coelhinha.

Ela congela ao ouvir essa voz soar do banco de trás e para o carro.

– Você pode correr, coelhinha, mas nunca vai deixar de ser minha.

Ela se vira e vê Miguel sentado displicentemente no banco de trás do carro, com seu cabelo por cortar, sua barba por fazer e um sorriso igual ao de um tubarão cercando sua presa. Lucia deixa as lagrimas caírem, sem forças para fazer mais nada ela observa impotente.

– Ah, é ótimo ver que eu ainda mexo com você. – Falou Miguel antes de soltar sua gargalhada mais uma vez, fazendo Lucia ter certeza que aquele som nunca a abandonaria.

Festa

– Você já está pronto? – Ela me pergunta enquanto entra no quarto ainda molhada do banho e vestindo somente uma toalha enrolada no corpo.

Eu faço que sim com a cabeça, o que faz com que ela me olhe de cima a baixo com um olharzinho de reprovação tão familiar para mim que as vezes fico até tentado em dar um nome a ele. Ela pensa em reclamar, mas ao me ver sorrindo do jeito que estou ela desiste e solta um longo suspiro, como se pedindo aos céus que me concedessem algum senso de moda. Não que isso a faça desistir de me arrastar para essa festa,claro.

– Eu vou me trocar agora. – Ela fala, dando a entender que me quer fora do quarto, mensagem essa que eu faço questão de não captar, respondendo com um gesto largo significando algo como “fique a vontade o quarto é seu” e o segundo sorriso mais canalha do meu arsenal.

– Nada disso, moço. Ta querendo me espiar enquanto eu me troco, é? – Ela diz, levemente indignada, como se eu nunca a tivesse visto nua. – Vamos, se vire.

Eu faço uma cara de cachorro pidão, significando algo como “Mas é tão bom aqui onde eu estou. A vista é excelente e ainda vai melhorar.”, e ela responde com um gesto imperativo reiterando a ordem para eu me virar. Eu cedo. Não adianta insistir quando ela está assim. Alem do mais tem um espelho enorme na parede para onde eu me viro.

Ao vê-la assim, linda e displicentemente como veio ao mundo (Não exatamente como veio ao mundo, claro. Hoje em dia é uma visão bem melhor, com um pouco mais de cabelo e muito mais de curvas) minha mente desliza por aquelas curvas de ritmos marcantes, por seus gestos singelos de métrica imperfeita que lhe dá um charme todo dela e por seus lábios cujas rimas entorpecem minha mente. E com certeza ativam outras partes da minha anatomia, que se manifestam nesse exato instante. Ainda bem que eu não estava com muita vontade de ir a festa.

– Pode olhar agora. – Ela fala, e quando eu me viro a vejo em um deslumbrante vestido preto. Definitivamente não vamos a festa.

Eu vou chegando perto, com os olhos fixos e já preparando o sorriso. Só preciso de uma deixa…

– E ai, gostou do vestido? – Ela pergunta, com um timing preciso, como sempre.

– Prefiro você sem ele. – Eu digo, com o meu sorriso mais canalha estampado no rosto.

Depois disso eu a pego de jeito (porque, como diria o sábio, o importante não é a força é o jeito) e, enquanto tiro seu fôlego da melhor maneira possível, tiro seu vestido com a destreza que só a pratica pode proporcionar.

– Mas e a festa? – Ela consegue dizer entre os beijos.

Eu sorrio novamente. Claro que vamos para uma festa. Mas essa vai ser particular.

E garanto que bem mais divertida.

Manhã de Domingo

O dia até que começou bem, sabe? Acordei com o sol batendo no meu rosto e ouvindo uma melodia, que eu logo reconheci como Stairway to Heaven, tocando no meu velho radio relógio.

“Acho que eu estou com sorte”, eu pensei, enquanto lembrava como era difícil aquela maldita radio colocar no ar alguma musica que prestasse. Fui me espreguiçando e olhando ao redor, como sempre faço. E lá estava ela, terminando de abrir as janelas. Nossa, parecia até cena de filme, eu vendo ela contra a luz, quase que só uma silhueta, linda como sempre e misteriosa como nunca. Ou talvez o contrario… Bem, a semântica não importa muito agora, mas na hora eu tive certeza de que era o desgraçado mais sortudo do mundo. E estando no meu lugar, afinal, quem não acharia?

Ela foi logo me dando uma bronca, falando que já era muito tarde pra eu ficar dormindo daquele jeito. Eu respondi com um comentário cretino sobre estar cansado por causa da noite anterior. Ela me deu um olharzinho de desprezo enquanto eu caia na gargalhada. As vezes eu penso que ela só reagia desse jeito a essas minhas brincadeiras porque se divertia tanto quanto eu.

Logo eu fui me arrumar e quando cheguei na cozinha encontrei um belo café da manhã me esperando. Eu realmente fiquei confuso, afinal ela nunca foi de fazer esse tipo de coisa. Perguntei pra ela qual a ocasião especial e ela respondeu dizendo que simplesmente era a vez dela de fazer as coisas da casa. Era a minha vez até onde eu lembrava, mas resolvi não insistir e aproveitar a oportunidade, afinal não é todo dia que se acorda com um banquete daqueles esperando por você.

Ela se sentou comigo, mesmo já tendo comido, e ficou lá, só me olhando enquanto eu comia, o que não é uma cena muito agradável, devo dizer. Por um tempo eu não liguei, principalmente porque a fome me tomava toda a atenção, mas depois comecei a ficar encabulado. Eu me virei pra falar com ela e nossa… Aquela expressão, aquele olhar… não sei bem se eu posso descrever. Digo, provavelmente um outro cara diria só que ela estava bonita ou algo do tipo, mas pra mim isso seria muito pouco, entende? É até engraçado que ela conseguisse ainda mexer comigo desse jeito depois de tanto tempo juntos.

Então lá estava eu, com uma cara de criancinha abobalhada com presente de natal que acabou de desembrulhar, enquanto ela bem devagar ia se aproximando. Eu tentei falar, perguntar o que tava acontecendo, mas antes disso ela colocou bem de leve os dedos em cima da minha boca, enquanto bem baixinho, quase sussurrando, me dizia “Eu te amo seu idiota, nunca se esqueça disso.” Depois dessa eu fiquei completamente sem reação.

Ficamos ali, parados, não sei por quanto tempo, como se pra fazer aquele momento durar pra sempre. Sinceramente eu não reclamaria nem um pouco se durasse, mas não foi assim. De repente eu comecei a ouvir o barulho da chuva batendo nas janelas e meio por instinto me levantei, pra ver se tava molhando alguma coisa, e então me dei conta do que tinha feito. Me virei para ela meio desanimado mas ela balançou a cabeça e disse pra eu ir logo resolver isso. Eu fui, mas não sem ver pelo canto do olho ela suspirando e fazendo uma expressão de tristeza, como se tivesse perdido alguma coisa.

Quando eu terminei de fechar as janelas eu tratei de pensar em um jeito pra animar ela. Coloquei o som na sala, tocando o Angel Dust, o cd preferido dela, e chamei ela pra ficar lá comigo curtindo o som e vendo a chuva cair. Eu tive que arrastar ela, que estava lavando os pratos, com a promessa de que ajudaria ela com o serviço antes do almoço.

Assim nós ficamos no sofá da sala, ela meio contrariada no começo, mas depois acabou gostando da idéia, mesmo por que fazia um bom tempo que nós não tirávamos um tempinho pra ficar curtindo um ao outro desse jeito. Mas eu não pude deixar de notar que ela parecia tensa, preocupada, não conseguia relaxar. Nem tentei falar com ela sobre isso, porque sabia que ela detestava falar sobre os problemas dela e a ultima coisa que eu queria naquela hora era irritar ela, mas comecei a puxar conversa pra tentar distrair ela, o que até que deu certo, e ficamos batendo papo até perto de meio dia.

Nós levantamos e fomos fazer o almoço, o que significa que ela fazia o almoço enquanto eu terminava de lavar os pratos. Ou pelo menos esse era o plano. Logo quando chegamos na cozinha notei que ela, em vez de começar a preparar a comida simplesmente ficou parada, pensativa e com uma expressão tão miserável que eu não pude deixar de chegar junto. Esse é o instinto quando você vê alguém que você ama sofrendo, ir lá e tentar fazer o que puder. “Nunca esqueça que eu te amo, entendeu?”, ela perguntou quando eu cheguei perto. Foi ai que ela se virou. Eu nem vi o que aconteceu, só senti dor, muita dor, e percebi que não conseguia respirar. Minha boca se encheu com o gosto de sangue, enquanto minhas pernas fraquejavam e a vista começava a escurecer. Eu tentei olhar para cima, olhar nos olhos dela e perguntar o porquê, mas tudo que consegui fazer foi me agarrar nas roupas dela enquanto me arquejava e caia na direção da poça de sangue que se formava aos meus pés.

E assim acabou aquela manhã.