Invicto

“Isso é tudo que você tem, campeão?”.

O escarnio atinge Rubens com mais força do que qualquer golpe que ele recebeu em sua longa carreira no boxe. O orgulho ferido o faz imediatamente esboçar uma reação, que é prontamente interrompida por mais um soco. “Maldito seja o tempo.”, ele pensa, sabendo que se estivesse no auge teria facilmente dado conta dos três marginais que invadiram sua casa. Ao invés disso se tornara saco de pancadas de um vagabundo anabolizado enquanto os outros dois apenas riam e ansiavam que a brincadeira acabasse para poderem se divertir com Clarissa, sua neta. Rubens ainda se sente culpado ao perceber que a surra o incomoda muito mais do que pode acontecer com ela. “Cê tá acabado, velho.”, fala o marginal enquanto o levanta pelo colarinho com uma das mãos e prepara teatralmente o soco final.

Até então a vida de Rubens havia sido coberta de glorias. Pugilista de uma época onde, em suas palavras, “os deuses lutavam entre os homens”, ele conseguiu a incrível façanha de jamais ter sido derrotado em mais de 20 anos de carreira. Galgou todos os degraus desde as lutas em ringues improvisados nos galpões de fabricas até o olimpo do esporte, onde enfrentou e venceu lendas como Clay e Foreman. Houve um tempo em que mal podia por os pés na rua sem ser atacado por centenas de tietes, mas hoje tudo que restou de sua fama foram o cinturão dourado que adorna sua parede, um paragrafo perdido em meio a sessão de esportes no Guinness e os ocasionais repórteres que consideram que aparecer por 5 minutos na televisão é uma “homenagem justa a um campeão do passado.”. Não que isso o incomodasse. “A fama passa, mas a gloria é eterna.”, era seu lema. Não importava que ninguém lembrasse, ele era o campeão, invencível e invicto. Nada nem ninguém jamais conseguiu tirar isso dele. Até essa fatídica manhã.

Agora Rubens está acabado. Amaldiçoando o destino por um final tão inglório após centenas de oponentes dignos, ele começa a se deixar levar pela inconsciência, pensando apenas de relance no destino de sua neta: “Pobre Clarissa, uma menina tão doce na hora e no lugar errado”. Não há como sair vivo dessa.

Então ele percebe. No fundo de sua consciência vêm as memorias de sua ultima luta. Um combate melancólico em que derrubou o oponente em apenas um round, da mesma forma que as seis anteriores. Foi quando percebeu que não havia mais desafio, não havia mais sentido em continuar. E ali mesmo no ringue ele anunciou sua aposentadoria. Depois se contentou em deixar o tempo o corroer lentamente. E agora o destino o concede um final a sua altura. Um combate de morte contra todas as possibilidades. Essa epifania passa desapercebida pelos marginais, até que o que estava lutando recebe um soco que parte sua mandíbula com um estalo nauseante.  Antes que os outros possam reagir Rubens parte para cima de outro e acerta um direto que parece ter a força de um trem descarrilhado, quebrando seu nariz e arrancando vários dentes. O terceiro tenta atingi-lo com uma faca, mas o velho dança a sua frente com a agilidade de um menino, se esquivando de dois golpes antes de encaixar um gancho e manda-lo para inconsciência. Rubens então percebe o primeiro se levantando enquanto tenta pateticamente balbuciar algo com sua mandíbula partida. Ele vai calmamente em sua direção e o esmurra de novo, e de novo, e de novo… Até que tudo o que sobra da cabeça é uma polpa ensanguentada. Rubens então se volta para Clarissa, que está encolhida em um canto, arfando e com os olhos esbugalhados, e pergunta “Você está bem?”, ao que ela responde com um aceno incerto com a cabeça. Ele então se permite um sorriso.

Quando a policia chega ele ainda está de pé. Sorrindo.

E invicto.

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