A Primeira

Eu lembro que as unhas dela estavam pintadas de preto.

É engraçado como a memória funciona. Eu não lembro, por exemplo, qual era o filme que estávamos vendo ou ao menos do cheiro dela. Na verdade nem consigo lembrar direito do rosto dela. Consigo rever as partes constituintes, os olhos negros, os lábios vermelhos, o nariz afilado… Mas de forma alguma dá montar elas na minha mente como um todo coerente. Das unhas pintadas eu lembro bem porque ela tinha a mania de colocar as mãos no rosto quando estava entediada. Pensando bem é até lógico eu não lembrar do filme. Minha atenção, afinal, estava em outra coisa.

Ela tinha chegado atrasada na casa onde o pessoal se reunia para ver filme todo domingo. Não nos conhecíamos alem de saber o nome um do outro e ter esse amigo, o dono da casa, em comum. Acabou tendo de sentar do meu lado, pois era o único lugar vago. No começo tentei agir normalmente, mas então comecei sentir o peso do olhar dela sobre mim. Aqueles olhos negros. Isso é algo que eu nunca conseguiria esquecer, mesmo se eu quisesse. Eram olhos cheios de delicadeza e daquele mistério feminino, aquela coisa natural que só depois de muito tempo eu iria entender. Não lembro se conversamos. Lembro de algum papo, mas tenho lá minhas duvidas se eu estava em condições de uma conversa genuína. Mas lembro que eu a fiz rir. Ela não sorria muito, mas tinha um sorriso verdadeiramente lindo, daqueles que ilumina o mundo ao redor. E então senti a mão dela pousar delicadamente sobre a minha. Se antes eu não conseguia pensar direito, agora tudo que vinha a mente era o pulsar descompassado do meu coração. Ela se inclinou na minha direção lentamente e, depois de uma espera que pareceu uma eternidade, meu mundo se preencheu com o doce sabor dos lábios dela.

Foi ai que eu descobri qual o gosto do paraíso.

No Limiar da Meia Noite

– Já fazem mais de duas horas que eles entraram. – Eu resmungo para mim mesmo, olhando impacientemente do relógio para a casa abandonada.

– Café? – Oferece o novato, equilibrando duas canecas fumegando em uma mão enquanto segura um guarda-chuva na outra – Ficar de vigília é uma merda, hein?

– Esperar na chuva faz parte. – Eu falo, tão acostumado a noites frias e miseráveis como essa que mal me lembro como é se sentir quente e confortável – Ossos do oficio, novato.

– Não estava falando da chuva. – Ele responde – Já fazem mais de duas horas, não é mesmo? Tempo demais para um trabalho de rotina.

– Não existe rotina no nosso ramo. – Eu falo, pegando minha xicara de café, mas não deixo de dar razão para ele. O pessoal que entrou é um dos nossos melhores times, já enfrentou coisas que eu nem ouso descrever. Uma simples casa assombrada deveria ser um passeio no parque, a menos que…

Meus pensamentos são interrompidos pelo barulho de tiros e por um horrível urro de dor que nem ao menos parece humano.

– Nossa deixa, novato! – Eu falo enquanto saco a minha arma e corro na direção da casa, percebendo que ele nem ao menos hesita em fazer o mesmo.

Só espero que nossas armas sejam o suficiente.

Apostas

Aconteceu quando eu tinha uns doze anos. Eu estava no sitio dos meus avós maternos, onde sempre a família toda passava as férias de fim de ano, e andava distraído procurando o que fazer, até que eu vi a Cristina. Apesar de ser uma menina, um fator que na época ainda pesava negativamente, nós éramos bastante próximos. Isso era mais por falta de opção do que outra coisa, já que os outros ou eram muito mais velhos ou muito mais novos, enquanto que nós dois havíamos nascido com apenas dois dias de diferença um para o outro.

Cristina estava sentada no banquinho que ficava na varanda da casa, chupando uma manga tão madura que eu conseguia sentir o cheiro a metros de distância. Ela devorava a fruta com um gosto que eu nunca tinha visto, se deliciando a cada mordida, enquanto o sumo escorria pelo seu antebraço e caia em gotas do seu cotovelo. Eu devo ter ficado parado com uma cara de bobo, porque logo ela se voltou pra mim me deu língua e disse:

– Nem vem! É minha e eu não divido!

– O quê? – Eu perguntei ainda atordoado por ter sido arrancado do transe.

– Foi o seu Zé Pedro que me deu e só pra mim. Nem adianta pedir.

– Ah, nem quero mesmo! – Respondi com desdém – Vó foi hoje no mercado e eu posso pegar com ela quantas mangas eu quiser.

– Mas nenhuma vai ser tão boa quanto as do seu Zé Pedro. – Cristina falou zombeteira.

De fato não havia nenhuma manga que se aproximasse em sabor das da mangueira do seu Zé Pedro, vizinho dos meus avós. Eram as frutas mais cobiçadas da região que ele, um senhor bastante generoso, entregava de bom grado para as crianças que iam na sua porteira pedir. Eu, no entanto, me sentia impedido de fazer isso pois dois dias antes havia tido uma briga feia com o Paulinho, filho dele, em uma disputa sobre uma bola de futebol. No final acabai com uma bola furada e ele com dois dentes quebrados.

– Nem quero, já disse. – Falei, tentando encerrar o assunto e continuar meu caminho.

Ela esperou eu abrir a porta da casa para fala:

– Aposto que você não consegue pegar uma, pirralho. – Ela sempre me tirava do sério quando me chamava assim, principalmente porque era só dois dias mais velha.

Passei o resto do dia emburrado, ruminando aquela conversa. Eu já conseguia saber que era bobagem encasquetar com uma aposta daquelas, que eu só tinha a perder, mas ser desafiado assim pela Cristina era demais para mim. E eu também não conseguia tirar da minha mente a imagem dela com aquele sumo doce escorrendo pelo seu braço. “Eu preciso conseguir essa manga!”, pensei e na hora do jantar eu já tinha elaborado um plano. Era tudo muito simples. A mangueira era bem perto da nossa cerca. Era só eu esperar todo mundo ir para a cama, pular a cerca e pegar uma das mangas sem acordar ninguém. Durante a janta eu sorri desafiador para Cristina, completamente certo da minha genialidade.

Quando chegou a hora eu me esgueirei pela janela do quarto que eu dividia com o Ricardo e o Alberto, meus primos mais novos, que por sorte dormiam feito duas pedras. Fui descalço para evitar fazer barulho e, com um bocado de esforço consegui pular a cerca. Depois disso foi só uma rápida corrida e uma breve escalada com toda a destreza que só uma criança subindo em arvores pode ter. Apanhei uma das mangas e a mordisquei. Estava ótima, ainda melhor do que de costume, pois essa tinha gosto de vitória, mas não fiquei satisfeito. Faltava alguma coisa. Não era, afinal, aquilo o que eu queria. Isso me deixou irritado. Se eu não queria a manga o que diabos eu queria, afinal? Apanhei outra para levar como prova e me preparei para descer da arvore quando ouvi o latido.

Eu havia esquecido do cachorro. Seu Zé Pedro, que sempre recebia muitas visitas, muitas delas crianças, sempre deixava o seu imenso cão de guarda preso durante o dia, mas o soltava durante a noite. Talvez por isso eu não consegui lembrar dele. Ou talvez porque meus pensamentos estivessem preenchidos com outra coisa. Agora eu estava isolado na arvore, com um cão enorme latindo enlouquecido ao pé dela. Eu fiquei com tanto medo que nem conseguia pensar. Até as luzes da casa do seu Zé Pedro acenderem. Eu não lembro de ter pensado em nada, eu só sabia instintivamente que ele não podia me pegar roubando manga na calada da noite. Joguei com toda a força o resto da manga que eu estava comendo na cara do cachorro. Acertei em cheio e ele mal sentiu, mas nos instantes em que ele ficou atordoado aproveitei para pular o mais longe o possível da arvore e mal toquei os pés no chão comecei a correr em disparada. Acho que nunca corri tão rápido na minha vida. Ainda assim pude sentir o hálito úmido e fedido do bicho atrás de mim. Pulei a cerca praticamente em um pulo só e fui cair em cima dos galhos da roseira da vovó. Tirando uns arranhões feios no braço esquerdo e no pescoço sai inteiro.

Me esgueirei de volta para casa e fui procurar a Cristina. Ela sempre dormia em uma rede na sala, onde passava uma brisa fresca que era uma maravilha nas noites quentes de verão. Eu a cutuquei até que acordasse.

– Lucas? – Ela perguntou sonolenta e então esbugalhou os olhos – O que é que aconteceu com você?

– Eu disse que eu conseguia. – Eu falei, mostrando a manga triunfalmente.

– Fica quieto que eu vou pegar o mertiolate. – Ela disse, me ignorando.

– Não, espera, eu já estou ótimo. – Respondi meio que em pânico. Naquela época o mertiolate ainda ardia.

– Se você não ficar quieto eu chamo a vovó e conto o que você fez. – Ela falou, enquanto subia na cômoda onde a vovó deixava a caixinha de primeiros socorros fora do alcance dos mais novos.

Diante da ameaça tive de ceder e fiquei lá quietinho até Cristina voltar com o mertiolate e aplica-lo nos meus arranhões. Devo ter feito caretas horríveis, porque ela se apiedou de mim e começou a soprar as feridas para diminuir a ardência. Ali, com seu hálito sobre o meu pescoço e sentindo seu cheiro, mais doce do que o de qualquer manga, eu finalmente entendi o que eu tanto queria.

Pactos

Elina tenta manter a calma enquanto recita o ritual, tentando ignorar os sinistros efeitos no ambiente que com certeza são seus subprodutos, como sombras se mexendo independentemente ou os agonizantes sussurros que parecem fazer coro as suas recitações. “Não importa.”, ela repete em pensamento, enquanto sua boca parece seguir um ímpeto próprio, dando cada vez mais força às palavras do ritual. Nada importava desde que ela conseguisse o que veio buscar.

O ritual chega ao ápice, as recitações se tornando gritos. Elina saca sua adaga e, com um único movimento fluido corta a palma de sua mão, derramando o sangue pelo chão como uma oferenda. E então silencio. Todo o lugar é tomado por um silencio sepulcral, que Elina consegue ouvir as batidas descompassadas de seu coração. “Será que falhou?”, se pergunta Elina. Então ela ouve os uivos.

***

– Mais chá, senhorita? – Perguntou o mordomo.

– Não… – Respondeu Elina, sem saber exatamente o que dizer ao esqueleto ricamente vestido que a servia – Por favor, chame seu mestre.

Para Elina parecia que a espera já durava uma eternidade. Sua ansiedade não a deixava aproveitar os confortos da luxuosa sala de espera em que se encontrava. No entanto isso também impedia o fato de todos os serviçais serem mortos-vivos de incomodá-la.

– Desculpe o atraso, pequena Elina. – Falou um homem entrando na sala acompanhado por uma estranha mulher, a qual ele cuidadosamente instalou próxima ao grande piano de cauda que dominava a sala. Ela começou a tocar um pequeno trecho de uma canção popular, repetidamente.

– De modo algum, lorde Giorgios. – Falou Elina, polidamente – É uma honra que tenha me recebido.

– Por favor, podemos dispensar essas formalidades e ir direto ao ponto. – Disse Giorgios, sorrindo – Afinal sou um… velho companheiro de sua mãe. Então, o que você quer de mim, pequena?

– Poder. – Respondeu Elina.

Em resposta apenas Giorgios gargalhou.

– Qual a graça? – Perguntou Elina, bastante séria.

– Desculpe, criança. – Falou Giorgios, lutando para retomar a compostura – É só que a ironia de você buscando, e aqui eu vou citar as palavras da sua mãe, minha “magia impura” para ganhar poder para vinga-la.

– Então você sabe. – Disse Elina, lutando para se manter calma diante da menção a sua mãe – Posso entender que isso significa que você aceita me ajudar?

– Claro que eu sabia. Que outro motivo você teria para me procurar? – Respondeu Giorgios – Mas isso não significa que eu vou te ajudar. Não de graça, pelo menos. Só significa que eu estou disposto a ouvir sua proposta.

Elina suspirou e alcançou um objeto em sua sacola, uma pequena bola de vidro enegrecido.

– A orbe de Shandul! – Exclamou Giorgius, esticando institivamente as suas mãos para alcançar o objeto.

– Não tão rápido. – Falou Elina, guardando a orbe – Temos um acordo?

– O seu preço é mais que justo. – Respondeu Giorgios, de bom humor – Tanto que eu irei adicionar um aviso ao acordo. Vê aquela linda senhorita ao piano? Aquela tocando a mesma melodia sem parar.

– Uma das suas criadas que não saiu certo? – Falou Elina, secamente.

– Não, não. – Disse Giorgios – Essa é minha irmã. Ou melhor o que restou dela após seguir o mesmo caminho que você está buscando. E ela ainda teve sorte. Meu outro irmão teve um destino bem pior. E então, você tem certeza de que quer fazer isso?

Elina hesitou por alguns instantes e então respondeu, cheia de convicção:

– Eu tenho.

***

A última das criaturas ainda gorgoleja com a graganta cortada quando Elina cai no chão devido aos ferimentos. “Cães negros!”, pensa ela, “Atraídos pelo cheiro de sangue, aposto. Que fim estupido.”. Nem o fato de tê-los levado consigo parece servir como consolo.

– Meus parabéns. – Diz uma voz próxima a Elina – Estou sinceramente impressionado, criança.

Elina usa suas últimas forças para se virar, e o que vê é algo que a primeira vista parece um ser humano, mas com buracos negros no lugar dos olhos e uma boca assustadoramente cheia de dentes. Se trata, sem sombra de dúvida, daquele que ela convocou, O Mestre da Escuridão.

– E então, criança? – Pergunta O Mestre – O que eu posso fazer por você? Quer viver?

– Não. – Responde Elina – Quero vingança.

Frente Fria

Chovia naquele dia.

Dias de chuva sempre tiveram esse efeito quase hipnótico sobre mim, desde quando eu consigo me lembrar. As luzes de neon, já onipresentes em noites normais, agora parecem pintar a cidade com suas cores berrantes e promessas descartáveis, contrastando com o opressivo cinza do céu e do mundo. Uma imagem que me vem à cabeça é a do final de um filme que eu vi a muito tempo: Um palhaço fazendo sua apresentação e rindo, enquanto suas lagrimas borram toda a sua maquiagem, a única coisa colorida em um filme preto e branco. Era exatamente nisso que eu pensava enquanto dirigia para o local da chamada.

Como de costume cheguei no meio de um circo, com os personagens de sempre no picadeiro: os mestres de picadeiro uniformizados tentando pôr ordem no pardieiro, sendo importunados pelos abutres amestrados da imprensa, todos sem exceção tentando entreter o público que olha curioso. E ei que surge o magico, para desvendar o grande mistério com suas habilidades sobrenaturais? Eu disse magico? Muita pretensão da minha parte. Na verdade sou só mais um palhaço.

O lugar era uma casa pobre, um apartamento para ser mais especifico. Um daqueles prédios de conjunto habitacionais que eu visito dia sim, dia não. Ítalo lia o relatório e eu ouvia sem prestar muita atenção. Era o de sempre: Uma moça morta, prostituta, provável homicídio… O de sempre. Isso até eu encontrar ela.

Ela era linda. Talvez ao ouvir isso você comece a fazer piadinhas sobre as preferencias da minha profissão. Eu apoio em absoluto esse tipo de senso de humor, mas ao fazer isso você perderia o foco da história. Ela não era bonita no sentido clássico da palavra, pois era magra demais, emaciada mesmo, e mal cuidada. A beleza, contudo, estava em seu olhar. Não era vazio como todos os outros que eu tinha visto antes. Não, este era cheio de tristeza e resignação, como a imagem de um mártir em um ícone bizantino. Você tinha de ver como o sangue se espalhou pela parede onde ela estava encostada, como se fosse asas de um anjo abatido. E a chuva, defletindo as luzes de neon, emoldurava tudo com um ar divino.

Depois desse dia não consegui parar de pensar nela. Fiquei obcecado, admito. Não com a garota, mas sim com a cena. Tudo tão perfeito! Pena que nunca conseguimos descobrir o autor. Era o tipo de caso com que ninguém se importa e acabou sendo perdido entre caixas e mais caixas de arquivos empoeirados. Passei muito tempo arrasado, até que finalmente percebi que, seguindo uma citação famosa, a imitação de fato é a forma mais sincera de elogio. E é por isso que estamos aqui, querida.

Agora fique quieta, por favor. Prometo que não vai doer por muito tempo.

Aurora

Queria poder dizer que te esqueci, Aurora.

Mas quando olho para o céu em um dia claro ele me lembra o azul dos seus olhos, Aurora. Quando acordo me pego ouvindo sua respiração. E parece que eu sonho com você. Uma das moças que eu trouxe para nossa… Não, minha cama agora. Enfim. Uma das garotas que eu trouxe para minha cama me perguntou “Quem é essa Aurora?” quando acordou. Disse que eu fiquei chamando seu nome a noite toda.

Não pense que isso é por falta de esforço, Aurora. Muito pelo contrário. Troquei de carro para deixar de encontrar aqueles papéis de bala coloridos que você espalhava por ai. Mudei até de casa para deixar de escutar seu sorriso ecoando pelas paredes. Mas nada disso adiantou, Aurora. Acredita que eu ainda sinto seu cheiro no meu colchão? Um colchão novo onde você nunca deitou.

Talvez eu esteja pedindo demais. Nós fomos felizes juntos. Esquecer você seria esquecer tanto de mim mesmo que eu nem me reconheceria. Acho que esse é o problema.

Só queria que você não tivesse deixado em mim tanto de você.

Amor em 10 Faixas

Always

Me escuta. Só me escuta um pouco, tá bom? Eu sei que já não somos o que éramos antes. Não pense que não percebo que faz tempo que você evita me olhar nos olhos. E suas mãos, elas acenam com um adeus. Sei que você está pensando que isso é o fim. Mas aqui estou eu, tentando. Sei que não podemos ignorar todas as brigas e todas as magoas, mas cada vez que eu penso em seguir em frente eu percebo o quanto sinto falta da sua risada, do seu sorriso. Eu vejo que, se tem algo pelo qual vale a pena brigar, esse algo somos nós. Mesmo que signifique brigar com você. Então, vamos tentar de novo, pra valer?

Universally Speaking

Ele a viu. Seu rosto era belo e cansado, se destacando entre a multidão cinzenta. Ela sorriu. Um sorriso vermelho-sangue, delicado e selvagem. E naquele momento ele soube o que era aquilo que os poetas passam a vida tentando descrever.

Another Turn

Ele espera pacientemente enquanto se abriga atrás do sofá, se protegendo da chuva de objetos que ela lança através da sala. Quando a munição dela parece ter acabado ele se levanta, se esquivando de um vaso por pura sorte, e avança rapidamente na sua direção. Ela acerta um tapa em seu rosto, tão forte que ele sente o gosto de sangue em sua boca. Ele tenta segurá-la e os dois acabam caindo no chão, um por cima do outro. E então se beijam acaloradamente. Ambos sabem que isso tudo é loucura. Mas mudar é difícil e então este será um jogo sem fim.

Loteria

Ela diz que o nome dela é Cleópatra, como a rainha do Egito. Nome de guerra, claro. Ela nunca me disse seu nome, mas com certeza deve ser algo prosaico demais, porque só mesmo um nome de rainha para fazer jus a sua figura. E que figura. As pernas mais bonitas que deus colocou para andar nesta terra. Um rosto que derrubaria um império, coroado com o sorriso desdenhoso de quem está ciente disso tudo. E como ela ri quando prometo tirar ela daqui. Quando cheio de esperança digo “Te dou o mundo inteiro, mais o carro do ano.”. No fim ela sempre me cala com um beijo e puxa para o seu abraço quente.

Walking After You

Já não consigo dormir na nossa cama. Ela fica tão vazia e fria sem você que é simplesmente insuportável. Tentei me mudar para o sofá, mas cansei de acordar abraçado com o cachorro. Engraçado, não é? Pensei que seria mais fácil. Mas as coisas simplesmente não vão funcionar sem você, na realidade. E tudo que eu posso fazer é rolar nessa cama vazia e esperar que o sono venha. Esperar por um milagre. Esperar que você volte.

One

– Oi.

– Oi.

– Eu só preciso pegar minhas coisas, não vou demorar muito.

– Tudo bem.

– Aceita um café?

– Não, obrigado.

– Sabe… É bom te ver de novo.

– …

– Eu queria conversar.

– Não. É muito tarde para tentar trazer o passado à tona.

– Nunca é tarde demais. A gente ainda se ama.

– Não é suficiente. Não mais.

– Eu te desapontei? Eu te pedi demais, foi isso?

– Não. E me dói muito te ver assim. Mas eu não posso voltar. E eu não posso continuar me agarrando ao que você tem, quando tudo o que você tem é dor. Me desculpe.

Que Pena

Nunca na vida você vai conhecer um sujeito mais devotado para sua mulher do que ele era. Nunca chegava em casa tarde e todo dia fazia questão de levar uma rosa para sua pequena. Diabo, ele era capaz de largar o futebol de domingo por causa dela. Por isso todo mundo achou que o mundo dele ia acabar quando ela foi embora. Grande engano. Não que ele tenha deixado de gostar dela. Qualquer um pode ver pela cara de bunda que ele faz quando ela passa na rua que o sujeito ainda ama aquela mulher. Mas naquele mesmo dia ele apareceu no pagode dançou, cantou e, no final da festa, já meio bêbado e agarrado com duas morenas, disse “A vida continua e eu não vou ficar sozinho no meio da rua esperando que alguém me dê a mão.”. Você tem de respeitar um sujeito desses.

Sirens

Você dorme tranquila sobre meu peito nu, com um semblante tão feliz que parece mentira. Eu seguro sua mão e sinto sua respiração. Só pra checar que você está segura. Chega a ser engraçado. Nunca tive medo de nada a minha vida toda. Eu ria da morte. Até você chegar. Agora eu tenho algo a perder. É tão complicado isso. Tanta coisa pode acontecer… Mas se eu ficar pensando demais isso nunca vai sair da minha cabeça. Você está aqui e somos felizes. E rezo para que mesmo que tudo mude, que isso se mantenha.

Se Tiver de Ser na Bala, Vai

Quando ele descobriu que ela já tinha namorado, pensei que ele fosse desistir. Quer dizer, antes disso ele sempre foi um cara ajuizado. “Cara, você conheceu essa doida outro dia. Conversaram por duas horas e você sai feito um maluco atrás dela. Você nem sabe onde ela mora!” eu dizia, tentando pela primeira vez na vida colocar juízo em alguém. Sabe o que ele respondia? “Nem que eu bata em todas essas portas até encontrar”. E por incrível que pareça ele encontrou. Foi o namorado que abriu a porta, mas ele passou direto e encontrou ela na sala de estar. Ali mesmo ele se declarou pra moça, abrindo o coração e dizendo coisas como que ia amar ela como um raio que se opõe ao curso do céu ou algo do gênero. Sempre foi meio poeta, sabe? O namorado, claro, não gostou nada disso. O cara jogou ele porta a fora e começou a descer o cacete nele, que nem ao menos reagia. Ele somente esperava a resposta dela. Ela disse sim e mandou o agora ex-namorado embora. O cara fez uma cara de paspalho sem tamanho e saiu xingando deus e o mundo. E os dois, ali mesmo na calçada, ele com o rosto mais parecendo um prato à bolonhesa, se olhavam apaixonadamente como se estivessem em parque em pleno piquenique de domingo. “Por que você demorou tanto?”, ela perguntou. ”Você não disse onde morava.”, ele respondeu sorrindo. Coisa de maluco, se você quer saber.

Jungleland

Ele confere o endereço duas vezes antes de sair do carro, não porque tenha alguma dúvida de que esteja no lugar certo, mas porque a ansiedade era demais. Fazia quase um ano que ele não a via, desde que fugira das antigas dividas e a deixara para trás nessa cidade. Desde então ele trabalhou duro e se manteve na linha. Não era aquele tipo de vida que ele queria dar a ela. Ela merecia coisa melhor e para isso ele tinha de se tornar um homem melhor. E nesta noite ele apresentaria esse novo eu para ela e juntos construiriam longe dali os sonhos que tanto planejaram enquanto bebiam cerveja sentados sobre o capô do carro e aproveitando a chuva morna de verão. Ele desce do carro, ajusta suas roupas e bate na porta dela. Ele percebe um movimento dentro da casa, mas passam-se vários minutos até que a porta se abra. Ela o recebe com uma arma apontada para o peito dele e atira. Ninguém vê a ambulância ir embora, ou a garota apagar as luzes de seu quarto. Quanto a ele, os poetas das ruas apenas balançam a cabeça e dizem tristemente que terminou ferido, nem ao menos morto.