Sobrevida

Eu conheci a Nina na noite em que o Cadu se matou. Eu tinha chegado um pouco mais tarde em casa naquela noite, depois de um dia muito puxado no trabalho. Quando entrei em casa notei que havia mais alguém na sala, mas decidi ignorar e subi para o meu quarto. Normalmente o Cadu ficava lá, sentado no escuro, curtindo a fossa dele e naquela noite eu estava sem paciência para discussões. Só voltei a descer depois de tomar um banho e relaxar um pouco. Quando cheguei na sala a pessoa ainda estava lá na sala com as luzes apagadas. Eu suspirei e acendi a luz, já esperando a discussão com o Cadu. O que eu vi não foi o que eu esperava. Em vez de o Cadu estar deitado no sofá olhando para o teto ele estava esparramado num canto da sala com a cabeça no colo de uma moça, que olhava fixo para ele enquanto soluçava quase convulsivamente. Eu puxei uma cadeira e me sentei perto dela, que finalmente voltou seu rosto para mim. Estava com a cara inchada de choro, com olheiras enormes e uma expressão de tristeza daquelas que desafiam qualquer palavra a descrevê-las.

– Você deve ser o Alberto. – Ela disse, se esforçando para falar por entre os soluços.

– E você deve ser a Nina. – Eu respondi – Imagino que você possa me contar o que aconteceu aqui.

– Você é realmente como ele dizia. – Nina falou com um leve tom de ressentimento – Realmente nunca deu a mínima para ele.

– Uma pena que não seja tão esperta quanto ele dizia. – Eu falei, não conseguindo segurar uma risada cínica – Se for para ficar levando em conta o que ele dizia vamos ter que concluir que fui eu que forcei ele a misturar uísque com soníferos. – Continuei enquanto apontava para a garrafa e a caixa de remédio vazios em cima da cômoda – Igualzinho a como a nossa mãe se matou. Sem imaginação como sempre.

– Se você sabe tanto porque me perguntou? – Nina me perguntou.

– Só que não foi isso que eu queria saber. – Eu respondi – Eu quero saber é como aconteceu isso tudo, porque eu não acho que você viria aqui para ficar parada vendo ele se matar. Então vou perguntar de novo, o que aconteceu?

– É minha culpa. – Nina falou – Eu tenho uma doença. Terminal, incurável. Quando o Cadu soube ele disse que podia dar um jeito. Que no fim tudo que eu precisava era mais tempo e que isso ele podia me conseguir. Eu briguei com ele. Já tava cansada de tentarem achar uma cura para mim. Então hoje eu resolvi vir aqui, para conversar. Eu não devia ter descontado tudo em cima dele naquela briga. Eu encontrei ele aqui no chão. Quando me viu ele sorriu e me disse que agora eu ia ficar bem. Foram as ultimas palavras dele.

– De certo modo, ele estava certo. – Eu falei – Ele te deu o tempo de vida que ele tinha. Eu sei que você não vai acreditar, mas eu quero que você preste atenção em si mesma. Quando se está doente você sente que tem alguma coisa errada, ainda mais quando se está morrendo. Me diga, você sente isso ainda?

– Não… – Ela respondeu, incrédula – Mas isso é impossível!

– E ainda assim é verdade. – Eu continuei – Ele te deu uma vida nova. Sugiro que aproveite.

Ela parecia tonta depois de ouvir isso. Olhou longamente para o Cadu e depois me olhou nos olhos e perguntou:

– E como eu posso fazer isso sabendo o que essa vida custou?

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One Response to Sobrevida

  1. v. says:

    toda coisa nova tem um preço.
    muito foda esse questionamento, man.
    muito bom o texto.
    FH

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