Amor

Ele chega na frente da casa ainda durante a manhã, e por um tempo se perde imaginando se ela estava tão ruim quanto parecia ou se apenas a luz do sol e as suas lembranças não faziam tudo parecer pior. Ele desce do carro e atravessa o jardim enquanto lutava contra a impressão de que não deveria estar ali. Algo estava errado, ele sentia em seus ossos, mas não conseguia racionalizar o que era. Não era a aparecia da casa, que parecia uma versão morta viva da que ele havia visto na ultima vez que esteve lá, nem a mensagem que Lucia havia deixado em sua secretaria eletrônica, que era o que havia feito ir até lá, que foi até um pedido bastante cordial e amigável para que ele fosse visitar ela e o Julio, mesmo com a voz dela agora rouca e miúda por causa da doença. Era apenas uma sensação estranha, algo indistinto que veio desde que ele havia ouvido a mensagem pouco depois de acordar, algo ameaçador, ruim, e que agora se tornava pior a medida em que se aproximava. Ainda assim não havia hesitado em atender ao chamado, pois era sempre assim quando se tratava da Lucia, o que o fazia se sentir um idiota. Por um momento, enquanto olhava o jardim agora morto, ele se lembrou da festa de casamento que havia acontecido ali, apenas alguns anos antes, mas tudo estava tão diferente. Ele chega na porta e toca na campainha e, sem obter resposta, insiste até que tenta empurrar a porta, que estava aberta. Ao entrar ele percebe um ar pesado, morto, ainda pior do que do lado de fora, com todas as janelas fechadas com pesadas cortinas permitindo apenas a passagem difusa de alguns pobres fachos de luz e a televisão da sala ligada em um volume baixo, como se alguém estivesse assistindo na madrugada e estivesse receoso em acordar os parentes durante a noite. Entretanto, fora esse estado de abandono momentâneo a casa por dentro parecia bastante limpa e tinha sinais de uso recente. Ele começa a chamar pelos donos da casa e depois de algum tempo ouve uma voz fraca, vinda do andar de cima, respondendo. Era Lucia. Ele se controla e sobe as escadas devagar, esperando ver Julio cuidando dela, mas para sua surpresa ela estava sozinha em um dos quartos. Ele mal a reconheceu. Por um momento ele duvidou que aquela criatura esquelética, cujos cabelos caiam aos tufos sobre o travesseiro e a pele quase repuxada sobre os ossos a faziam parecer mais um daqueles cadáveres ressequidos que são encontrados em tumbas de civilizações perdidas, fosse a mesma menina que havia conhecido a tanto tempo ou a bela mulher que havia visto pela ultima vez. Ela o recebe com um sorriso de boas vindas, tão agonizante que ele precisa se conter. Lucia percebe isso então emenda o sorriso com:

– Ora, vamos, eu não estou tão mal assim, estou?

Ele balança a cabeça negativamente, enquanto tenta esboçar um sorriso. Sempre havia admirado esse senso de humor dela.

– Eu recebi seu recado. – Ele fala, tentando iniciar uma conversa.

– Eu sei que recebeu. – Responde ela – De outra forma você não teria vindo.

Ele tenta dar alguma resposta, mas então se cala, porque aquilo era verdade. Desde o casamento dela com Julio ele havia passado a evitar encontros com os dois, especialmente quando soube que ela havia adoecido, achando que seria melhor para todos assim, ou pelo menos melhor para ele. Ficaram algum tempo em um silencio constrangido até que ela falou:

– Você lembra do dia em que a gente se conheceu, não é?

Ele responde balançando a cabeça. Por um momento se perde nas lembranças de um dia comum da sua juventude, quando desenhava distraído e então de repente lá estava ela, sorrindo para ele. Ficaram logo amigos e depois disso viviam grudados um no outro. Ele não sabia responder quando havia se apaixonado por ela, apenas que de uma hora para outra não conseguia imaginar viver sem ela, algo que teve que aprender rápido, porque logo ela conheceu Julio. Ele nunca guardou ressentimentos para com Julio. Era um bom sujeito e tão apaixonado por Lucia quanto ele, talvez mais.

– Lembro sim, o que tem isso? – Ele responde.

– Só lembrei daquele seu desenho. – Continuou ela – Aqueles narcisos seriam um ótimo presente agora, não acha?

– Para com isso. – Ele responde serio – Você tá bem longe de morrer.

Lucia começa a rir como se tivesse ouvido uma criança dizer uma bobagem e ainda rindo fala:

– Me faz um favor. Pega aquela caixa em cima da mesinha e abre ela.

Ele vai ao local onde ela indicou, onde havia uma pequena caixa de madeira bastante velha, que parecia um dia ter sido decorada com letras ou desenhos feitos a tinta dourada, da qual só restavam traços, e a abre, vendo então que dentro haviam um velho revolver e duas balas.

– O que raios é isso? – Ele pergunta.

– Um revolver. – Lucia responde com um tom sarcástico – É uma velha herança de família. Foi com ele que o meu avô se matou a mais de 50 anos.

– E por que eu estou com ele agora? – Ele insiste perguntando.

– Porque você vai usar ele para me matar. – Fala ela, dessa vez com toda a seriedade.

Ele olha pra ela e vê que não estava brincando.

– Você tá louca! – Ele responde – Cadê o Julio? Ele pode tirar essa idéia maluca da sua cabeça!

– Ali. – Falou ela apontando para a porta entreaberta do banheiro do quarto, com um sorriso assustador nos lábios.

Ele vai até lá sem perceber que ainda estava com a caixa na mão e quando entra se depara com o corpo de Julio, enforcado com se próprio cinto. Ele volta em choque para perto de Lucia e ele ainda continuava rindo.

– Ele está morto…? – Ele pergunta ainda abalado.

– Sim. – Responde ela com uma calma fria – Não teve coragem pra aceitar minha proposta e acabou se matando. Ele sempre foi um fraco.

Ele recua assustado após ouvir isso, ouvindo nessa frase aquele mesmo tom de ameaça oculto na mensagem deixada na secretaria eletrônica.

– Agora você vai terminar o serviço. – Ela continua.

– E por que você acha que eu vou fazer isso? – Ele pergunta em pânico.

– Porque eu quero. – Ela responde sorrindo. – Porque você me ama.

Ele então para e começa a olhar fixamente para Lucia. “Talvez eu faça um favor com isso,” ele pensa, “tanto para ela quanto para mim.”. Ela nota a mudança na expressão dele e começa a sorrir ainda mais.

– Como eu pensei… – Ela fala.

Ele engatilha a arma lentamente e aponta para o peito dela.

– Antes me responde uma coisa. – Ele fala. – Você algum dia me amou?

– Você sabe que não. – Lucia responde secamente.

– Você poderia mentir. – Ele fala agora em um tom desesperado – Que diferença faria isso agora?

Ao ouvir isso Lucia começa a gargalhar, alto e com força, de um jeito que parecia impossível para alguém no estado dela.

– E por que eu te daria esse gostinho? – Respondeu ela entre os risos. – Mas pode usar a outra bala, se quiser…

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2 Responses to Amor

  1. Lud says:

    O texto tem algumas falhinhas de revisão, mas tá bem consistente. Amei o final. A tirada foi foda. Eu gosto dessas coisas que fogem do final que a gente imagina.

  2. v. says:

    como a lud apontou as falhinhas de revisão… elas existem. mas o texto supera essas coisas.
    muito foda essa final.
    digno de “mulher é foda”.
    eu daria um tiro no estomago dela e deixava ela se digerindo.
    ser bonzinho e fazer as vontades da mulher imediatamente não dá, demonstra fraqueza.
    muito foda MESMO.
    FH

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