Sutilezas

Ana espera, sentada no chão e saboreando os prazeres simples de sentir o chão com os seus pés descalços e observar o brilho frio e distante das luzes da cidade, sem, no entanto, parecer realmente entretida com nada disso.

– Que engraçado. Você sempre me disse que preto não era sua cor. – Ele fala.

– É que ele parecia simplesmente perfeito para a ocasião. – Responde Ana, passando os dedos de leve sobre os bordados de seu vestido preto – Tive que abrir uma exceção. Você por outro lado não muda. Continua aparecendo sem dar aviso algum.

Ele responde o comentário com um dar de ombros e um sorrir de leve, que Ana interpreta como um “Força do habito.”. Um tenso silencio então se segue, embora essa tensão não possa ser percebida pelas expressões dos dois, a dela exibindo apenas confiança e a dele com uma impassividade traída apenas por leves traços de curiosidade. Ela se revela apenas nos frenéticos porem leves movimentos das mãos de Ana.

– Eu sabia que você viria. – Ana finalmente fala.

– Naturalmente, considerando que foi você quem me chamou. – Ele responde.

– Esse tom sonso não combina com você. – Comenta Ana, dando um sorriso forçado – Nós dois sabemos que não foi isso que te trouxe aqui.

– É mesmo? – Ele fala – Então me ajude a lembrar.

– Foi por isso aqui. – Ana fala enquanto puxa uma arma que estava escondida em seu vestido e a aponta para ele, que apenas arqueia uma das sobrancelhas em resposta.

– Bem, eu presumo você tenha esquecido o quão fútil seja isso… – Ele diz, calmamente.

Ana explode em gargalhadas, rindo um riso ao mesmo tempo desdenhoso e triunfante.

– Narcisismo não combina muito com você, querido. – Fala Ana – Quem disse que isso aqui é para você?

Ao dizer isso ela lenta e teatralmente engatilha a arma e aponta para o próprio peito.

– Por isso você veio, não é? – Ana fala em um tom triunfante – Porque o seu trabalho te trouxe aqui. Não é isso?

Ele não diz nada, apenas a fita fixamente, deixando transparecer uma leve tristeza em seu olhar.

– Sem respostas espertas dessa vez? – Ana pergunta – Claro que não. Mas não importa, vamos ter muito tempo para conversar quando você tiver que me levar…

Ao dizer isso Ana aperta o gatilho, mas ao invés do estampido tudo que se ouve é o barulho característico de peças de metal se quebrando. Atordoada ela tenta apertar o gatilho varias vezes, mas sem efeito algum, e então volta seu olhar para ele, que balança a cabeça tristemente.

– Por que essa cara? – Ele pergunta – Essas coisas acontecem. Principalmente quando sua hora ainda não chegou. E, como você pode ter notado agora, eu não vim aqui a trabalho. Eu vim porque você me chamou. E porque eu também sinto sua falta.

Ana não reage enquanto ele solenemente vai embora, parecendo sem forças até mesmo para chorar.

– Mas em uma coisa você está certa. – Ele diz enquanto caminha para longe – Nós vamos ter muito tempo para conversar quando eu tiver que te levar. Só não vai ser hoje.

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2 Responses to Sutilezas

  1. Caba says:

    Gostei do trocadilho dos personagens no fim do texto. Parecem se desafiar a todo o instante… e, no final, “ele” chega a ser bema mais irônico, embora Ana tenha parecido ser mais “esperta” no início.

  2. v. says:

    está bom, man. gosto do jeito como vc faz o trabalho aparecer nos textos. gosto das personificações nao personificadas e humanizadas.
    ficou muito bom.
    FH

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