Piada

Ela o observava fixamente, sem nem ao menos piscar, pois para ela qualquer movimento em falso poderia significar seu fim. Ela engolia seco e suava as bicas, mesmo com a fria chuva daquela noite de inverno os acoitar impiedosamente. Ele, no entanto, não fazia nada, apenas ficava ali parado e apontando a arma na direção dela enquanto sorria como se estivesse se divertindo imensamente. Ela inicialmente pensou ser uma brincadeira, mas logo ela afastou essa possibilidade. Ele nunca foi disso e ela podia ver em seus olhos, por detrás daquele sorriso jocoso, que ele falava serio.
– O que você quer? – Ela finalmente cria coragem para perguntar.
– Ah, agora você se preocupa com o que eu quero? – Ele responde, alargando ainda mais o sorriso – Achei que tivéssemos de acordo que esse não era um tópico importante.
Há uma súbita mudança na expressão dela, seus músculos se contraindo pela raiva que sente ao ouvir essa resposta. No fim era apenas mais uma cena estúpida que ele estava armado.
– É engraçado como as coisas mudam, não? – Ele continua, ainda sorrindo.
– Pare com isso, já está ficando ridículo. – Ela fala com a voz carregada do mais puro desprezo.
– Parar? Mas nós só estamos começando. – Ele diz alargando seu sorriso.
– Já chega. – Ela prossegue no mesmo tom, agora andando na direção dele – Pouco me importa se você quer perder seu tempo com seus esses teatrinhos idiotas, mas não me faça mais perder o meu.
Ela passa por ele e então começa a se distanciar, mas se detêm ao ouvir o barulho da arma sendo engatilhada.
– Esse seu narcisismo é uma comedia, sabia? – Ele fala – Nem tudo no mundo gira em torno de você. Na verdade a graça da vida é que nenhum de nós faz a mínima diferença.
– Isso é patético. – Ela explode, carregando cada palavra com o ódio que sente – O que você quer? Que eu me desculpe? Que eu diga que estou arrependida do que fiz?
– Como sempre ela nunca me ouve… – Ele falar para si mesmo, rindo como se fosse um pai falando de uma criança enquanto apontava a arma novamente para ela.
– Não me faça rir. Isso ai nem deve estar carregado. – Ela diz o encarando com um olhar desafiador – E mesmo que estivesse você nunca teria coragem…
Ela é interrompida pelo disparo da arma, que a acerta na perna e arranca um urro de dor.
– Pronto agora você vai ouvir. – Ele diz prendendo o riso – Você devia ver a sua cara agora. Absolutamente hilária.
– Por favor… – Ela tenta articular, vendo seu sangue tingir a poça d’água onde caiu de vermelho – Eu não queria…
– Você deveria cuidar disso. – Ele continua ignorando-a e mal segurando o riso – Sangrando do jeito que está você vai acabar morrendo se não correr para um hospital.
Ao dizer isso ele explode em gargalhadas, mal conseguindo ficar em pé, enquanto ela continua tentando inutilmente estancar o sangramento.
– Eu… Eu peço desculpas! Retiro tudo que eu disse! Tudo o que eu fiz! – Ela fala em desespero – O que você quiser, só me ajuda, por favor! Eu não quero morrer…
– Você, você, você… Não consegue pensar em outra coisa alem de si mesma? – Fala ele como se estivesse repreendendo uma criança – Tem que parar de ser tão egocêntrica. Não percebe que nada disso faz a mínima diferença? Depois de perder tudo o que eu lutei a vida toda para conseguir eu pude perceber. Nós simplesmente não fazemos diferença. Não importa o que aconteça, o que façamos a vida continua com ou sem nós. Não é engraçado isso? Nos esforçamos, fazemos coisas impossíveis para absolutamente nada. Simplesmente hilário! E eu devo agradecer a você por me fazer enxergar isso. Depois do que você fez foi que eu consegui enxergar…
Ele então percebe que ela não estava ouvindo, que apenas continuava tentando estancar o sangue, agora quase sem forças.
– …E você nem ao menos me ouve. Era de se esperar, mas confesso que estou decepcionado. Bem, já que o monologo não tem mais sentido vamos tentar um joguinho para animar a noite. – Ele fala enquanto esvazia todas as balas do tambor, exceto por uma.
Ele gira o tambor e então aponta a arma para a própria cabeça e puxa o gatilho, resultando em nada mais que um clique inofensivo, o que o faz rir descontroladamente enquanto ela apenas observa a cena já sem forças, no limiar da consciência.
– Ora, parece que estou com sorte. – Ele diz em meio as risadas – Mas se anime, agora é sua vez.
Ele de novo gira o tambor e engatilha a arma, agora apontando para ela, puxa o gatilho e de novo não há nenhum disparo. Ela nem ao menos esboça uma reação, o que o deixa bastante decepcionado.
– Que sem graça. Você está levando isso a serio demais. – Ele diz enquanto gira o tambor e novamente aponta para a própria cabeça – Será que você realmente não ouviu nada do que eu falei? Não percebe que a vida é só uma grande piada…
Ele é interrompido no momento em que puxa o gatilho, pois o que veio dessa vez não foi um inofensivo clique. O disparo é mortal, espalhando seu cérebro pela rua escura e formando rapidamente uma poça de sangue ainda maior sob seu corpo. Por um momento ela apenas observa em silencio, sem forças para reagir, mas então um riso começa a vir e se avolumar, até explodir como gargalhadas histéricas que ressoavam pelas ruas desertas.

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One Response to Piada

  1. pideto says:

    sabe, o triste é que ela talvez não tenha aprendido a verdadeira lição. o triste é que ela vai contar pros filhos a história do louco que se matou por ela. e não do cara que ensinou que a vida da gente não é tão importante assim e que nós só a valorizamos porque é nossa, como tudo mais que é nosso.

    e isso me frustra e me dá raiva. por que as pessoas não percebem isso? por que elas escolhem não entender? por que permanecer ignorante?

    mas às vezes eu entendo que permanecer ignorante é conseguir sorrir sem parecer louco. Às vezes isso parece ser bom. mas só às vezes.

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