Estação das Chuvas

Vida e morte sob um céu cinzento.

Chamado

Publicado por Marden em maio 31, 2012

A muito tempo atrás Pablo ouviu pela primeira vez o chamado do mar. Naquela época ele era apenas uma criança passando as férias junto dos pais em uma pequena cidade litorânea, dessas que só aparecem nos mapas turísticos locais. Os pais haviam saído para uma festa e o deixaram dormindo no quarto, junto do cãozinho de estimação da família. Desta noite Pablo apenas se lembra do chamado, da irresistível vontade de segui-lo e da voz, misteriosa e profunda como o próprio tempo, dizendo “O primeiro sacrifício foi aceito.”. Ele foi encontrado na manhã seguinte, ensopado e coberto por algas, mas ileso. Do seu cão nunca mais foi encontrado nenhum rastro.

Pablo cresceu e mesmo estas lembranças foram se perdendo na nevoa da memória. Tudo que sobrou foi apenas o medo do mar, do qual ele nunca mais se aproximou durante anos, até que durante a época da universidade sua namorada o convenceu a viajar de volta até a pequena cidade. Foi uma viagem tranquila até uma noite onde o desejo dele superou o medo e ela o convenceu a fazer amor com ela no mar. Quando e êxtase ele novamente ouviu a mesma voz, o compelindo a fazer o segundo sacrifício. Pablo então a segurou bem firme debaixo da água escura, até que ela não se debatesse mais. Ele então voltou a si e percebendo o que fez, fugiu. Mas não sem antes perceber que algo se aproximou por debaixo da água para recolher o sacrifício.

A vida de Pablo nunca mais foi a mesma. Pesadelos terríveis o assombravam a cada noite e durante o dia ele via sombras e vultos o perseguindo a todo o instante. Sem alternativa sua família o internou em um hospício. Mas havia algo de diferente nos enfermeiros que o vieram buscar. Eram homens estranhos, que pareciam não piscar e tinham um cheiro salgado tão familiar à Pablo. Para seu horror eles o levaram de volta a pequena cidade. Lá os homens o despiram e o jogaram a mercê do mar sombrio. Lá a voz disse “O ultimo sacrifício é você.”.

Pablo nunca mais foi visto.

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Sala de Espera

Publicado por Marden em abril 30, 2012

Lucio chega esbaforido na pequena sala de espera do hospital e se senta em uma das cadeiras de plástico, tomando algum cuidado para não se sujar ainda mais com o sangue que ainda pinga do curativo improvisado, um pano de prato já completamente manchado de vermelho mas que pareceu não ter impressionado muito a enfermeira que o atendeu na recepção. Ao recuperar o fôlego e sentir passar a sensação de urgência ele, sem entender muito bem o porquê, solta uma sonora gargalhada.

- Me desculpa a intromissão, mas qual é a piada? – Ele ouve uma voz feminina perguntar.

Só então Lucio percebe que não está sozinho na sala. Junto a uma das paredes está um homem jovem em uma cadeira de rodas, usando uma mascara respiratória ligada a um tubo de oxigênio, que encara Lucio com um olhar irritado e, sentada em uma das outras cadeiras de plástico, uma garota segurando uma revista de fofoca de cabeça para baixo enquanto também o encara, mas com uma expressão bem mais divertida.

- O quê? Eu… É… Desculpe. – Responde Lucio ainda atordoado com a descoberta das outras pessoas na sala – Eu só estava rindo da minha situação.

- Entendo… – Ela fala, mostrando uma expressão de estranheza.

- O que foi? Por que essa cara? – Pergunta Lucio.

- Nada, nada. – Ela responde ainda com a mesma expressão – Cada um com suas taras, mas cortar os pulsos não me parece uma diversão lá muito saudável.

- Não! Não foi nada disso que você está pensando. Eu não cortei meu pulso. – Fala Lucio – Quer dizer, cortei, mas não foi de propósito. Enfim, não é todo dia que alguém corta o próprio braço enquanto faz um sanduiche, não é verdade?

Por alguns instantes ela o olha incrédula e então começa a gargalhar incontrolavelmente, quase caindo da cadeira.

- Isso foi a coisa mais idiota que eu já vi alguém fazendo na vida! – Ela fala, ainda meio que rindo – Como você conseguiu essa proeza?

- Véi, foi um acidente! – Responde Lucio envergonhado – Eu estava fatiando tranquilamente um pouco de lombinho defumado quando me distrai um pouco… E quando dei por mim já estava sangrando como um cavaleiro do zodíaco.

- Se distraiu com o quê? – Ela pergunta, parecendo pronta para rir de novo.

- Isso… É melhor deixar para outra hora. – Fala Lucio, pensando na visão de sua vizinha seminua, que fora a causa de sua distração – Por que se a gente continuar rindo desse jeito acho que o Darth Vader ali vai acabar usando a força para enforcar a gente.

- Entendo. Bem, melhor mesmo guardar essa história para a próxima vez. – Ela diz, enquanto abre um sorriso.

- Próxima vez? – Pergunta Lucio surpreso.

- E nessa hora você deve estar pensando, “Espero que ela não esteja aqui na emergência esperando atendimento ginecológico.”. – Ela fala, com um sorriso que só poderia ser descrito como perigoso.

- Na verdade estava pensando “Tomara que não seja para a obstetrícia.”. – Ele responde no mesmo tom – Mas confesso que isso também é bastante relevante.

- Obstetrícia, hein? – Ela fala, ainda rindo – Senhoras e senhores, temos aqui um pessimista.

- Em um dia como hoje é melhor esperar o pior. – Diz Lucio.

- Bem, não se preocupe quanto a isso. Só estou aqui de acompanhante. – Ela responde.

Antes que Lucio possa responder uma enfermeira entra na sala e o encaminha para o medico. Alguns minutos e cinco pontos no pulso esquerdo depois ele volta a sala de espera, onde não vê mais sinal dela. Há, no entanto, um pedaço de papel colocado sobre a cadeira suja de sangue onde ele estava sentado e Lucio sorri ao ver o que estava escrito:

Um endereço de e-mail e a frase “Face it, tiger, you just hit the jackpot.”.

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Ousadia

Publicado por Marden em março 31, 2012

Cada vez que Gustavo tentava prestar atenção na conversa em que seus companheiros de mesa estavam alegremente engajados ele pensava que definitivamente havia algum problema serio com o mundo. Essa conclusão é a única coisa que em sua mente consegue explicar o fato de tantas pessoas passarem quase uma hora discutindo os méritos artísticos e a “mensagem” passada por um quadrado preto desenhado no meio de uma tela branca. Amaldiçoava mentalmente sua ficante por tê-lo arrastado para essa mostra de “arte” moderna. Normalmente Gustavo inventaria alguma boa desculpa, especialmente considerando que hoje é noite de futebol, mas a promessa de uma boa noite de sexo por ter agradado ela acabou por convencê-lo a ir junto. “Isso que dá pensar com a cabeça de baixo.”, pensa Gustavo ao vê-la com os olhos brilhando com admiração, conversando animadamente sobre a angustia existencial do artista. Com certeza a sessão de sexo estava cancelada, considerando que ela iria falar animada sobre aquilo a noite toda. Ao menos a bebida era muito boa.

- E você Gustavo, o que acha? – Ela pergunta, e de repente toda a mesa volta a atenção para ele.

Gustavo se vê agora entre duas opções: Ou diz alguma frase aleatória sobre o grande talento do artista, ou fala a verdade. “Ah, foda-se a diplomacia.”, ele pensa, “Ta na hora de me divertir um pouco nessa noite.”.

- Olha, pra mim isso é um quadrado preto desenhado em uma tela, ou seja, um desperdício de uma tela perfeitamente boa que poderia ser usada para algum desenho bonito. – Responde Gustavo, se divertindo muito com os olhares de ultraje que os outros o dirigiam.

- Você não entendo. – Fala um dos outros com um risinho afetado – O que está nessa tela é a ousadia do artista desafiando os conceitos tradicionais e castradores da arte…

- Não. Ousadia é comer mulher de delegado. Isso ai é um trabalho de geometria do maternal, daqueles que ensinam as criancinhas a reconhecer as formas geométricas. – Fala Gustavo antes de beber mais um gole e se levantar – Agora, se me dão licença, vou ali no bar procurar alguma televisão ligada, para curtir o segundo tempo.

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Doce Neurose

Publicado por Marden em fevereiro 29, 2012

Eu acho que eu não preciso te dizer que você está ficando neurótica, querida.

O quê? Claro que eu não estou te chamando de maluca. Estou chamando de neurótica, é completamente diferente. Evidente que é. Nem me venha com esse papinho furado de semântica, eu quis dizer o que eu disse, e ponto final. Que mania que você tem de torcer as coisas que eu digo!

Não, não precisa chorar, né. É claro que eu ainda te amo, querida. Mentira, eu nunca disse que você era burra. Eu só apontei para você um erro bem obvio que você cometeu… Sim, você está errada! Não tem como… Ok, ok… Não vamos começar isso de novo.

Ai, ai, as coisas que a gente faz por amor…

Eu admito, a trilogia nova é bem melhor que a original. Satisfeita, agora? Isso, um sorriso iluminando esse rostinho lindo.

Agora vem, larga essa faca e deita aqui comigo.

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Coisas da Vida

Publicado por Marden em janeiro 31, 2012

As 7:15 da manhã, no ônibus a caminho da universidade, a única coisa em que eu consigo pensar é que eu deveria ter ficado dormindo até meio dia, quando eu almoçaria e ai voltaria a dormir.  Em um mundo perfeito minhas manhãs seriam assim, ou pelo menos as manhãs de chuva depois de uma madrugada passada em claro corrigindo uma dissertação. Infelizmente eu vivo em um mundo onde meu orientador diz que é imprescindível acordar cedo hoje para entregar a dissertação no prazo, então cá estamos nós. Mas bem, até que a situação não está tão ruim. O ônibus está vazio e eu vou sentado, apreciando a paisagem enquanto curto uma boa musica. Isso sem contar, claro, em apreciar as ocasionais mocinhas bonitas que vão entrando ao longo do caminho. Ok, a paisagem não vale nada, mas ao menos as mocinhas valem. De vez em quando. Seria muito bom ter uma para poder descansar os olhos nessa viagem longa.
E, como que respondendo às minhas preces, ela sobe no ônibus. Com certeza não existe nada melhor do que uma mulher com um bom timing.
Não é todo dia que aparece no meu caminho uma bela mocinha de olhos amendoados, tanto que eu até me distraio enquanto olho para ela. Tenho a impressão até de que acabei deixando sair um “Pooooxa…” em voz alta, o que provavelmente foi o que eu fiz a julgar pelo sorriso da velhinha sentada a minha frente. Eu tento disfarçar cantarolando uma musica imaginaria com “poxa” na letra, sem muito sucesso, até que percebo que ela senta do meu lado.
Pelo jeito hoje é meu dia.
Certo, e agora, o que eu faço? Puxar conversa era uma boa, mas estando os dois com fones de ouvido fica difícil. Maldita modernidade. Vamos tentar algo mais básico então, aquele olhar de lado meio disfarçado. Hum… Ainda mais bonita de perto. E cheira tão beeeeem… Foco! Mantenha o foco, homem! Olha só, ela também ta olhando pra cá. Contato estabelecido! Certo, agora sim podemos voltar a pensar na conversa, mas conversar sobre o quê? Pergunta idiota, musica, claro! Bem, o que será que ela está ouvindo? Pelo jeitinho dela, tipo “menina que chora ouvindo los hermanos”, nas palavras de um amigo meu, não parece ser nada promissor. Se bem que eu posso tentar uma cantada como “Posso ser seu cara estranho?”. Hum… Melhor manter minha dignidade. Já sei! Vou tirar um fone, sorrir pra ela e oferecer dizendo algo como “Aceita uma musica?”. É, um bom plano. Vamos lá… Ei! Por que ela está levantando? Ah… Chegamos no terminal da universidade.
Droga.
Não consigo pensar em nada pra dizer enquanto ela segue o caminho dela sem olhar para trás. Bem, pelo menos foi uma viagem divertida. Agora só me resta encontrar meu orientador e torcer para ter sorte de novo na viagem de volta. Falando no diabo, olha ele me ligando.
- Diz, chefe.
- Eu não vou poder ir hoje. Meu cachorro ficou doente, vou ter que levar ele no veterinário. Outro dia nós marcamos, ok?
É… Hoje não é meu dia.

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Angustia

Publicado por Marden em dezembro 31, 2011

- Me sinto vazio. Me sinto incompleto. E isso me persegue, me assombra a cada segundo desperto.
- O que te falta?
- Não sei.
- Você tem de saber.
- Então me conte.
-…
- Por favor.
-…
- Por favor, por favor, por favor!
- Não posso. Você precisa descobrir sozinho.
- Mas… É tão difícil lembrar. É como tentar me recordar de quando eu nasci.
- Você deveria saber.
- Eu não entendo.
- Como posso te ajudar dessa forma?
- Mas eu não entendo!
- Logo.
- Me sinto vazio. Me sinto incompleto. E isso tem que parar.
- Logo…

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Negocio de Familia

Publicado por Marden em novembro 2, 2011

O negocio começou a mais ou menos uns 60 anos, com minha avó. Na época todos a chamaram de louca por vender a enorme fazenda que ela havia herdado do pai para montar esta funerária, mas ela costumava retrucar que não podia depender do mercado do café tendo que criar três filhos sozinha, e, nessa hora ela costumava abrir um sorriso sinistro, clientes nunca faltavam para este ramo. Isso é o que ela costumava contar, pelo menos. Um dia meu pai me contou que ela, em seus últimos suspiros, confessou que fez isso para ter meu avô sempre por perto. Engraçado como no fim estamos todos vivendo no legado dele.

Aqui tem uma foto dela na época da inauguração, ao lado do crematório. Foi o primeiro do país, sabia?

Meu pai foi o herdeiro depois que ela morreu, mesmo sendo o filho mais novo. Não que os outros dois não tivessem gosto pelo negocio. O problema era justamente o contrario. O tio Jonas, o mais velho, era um verdadeiro artista. Conseguia maquiar os clientes de um jeito que parecia que estava apenas dormindo. Eu mesmo vi um ou dois que ficaram até mais bonitos do que quando eram vivos. Muita gente vinha de longe e pagava caro pelos serviços dele, até mesmo ignorando os rumores que as línguas maldosas espalhavam. Meu pai me contou que o tio Jonas sempre repetia que jamais havia feito nada a nenhuma delas que elas não quisessem. A família conseguia manter a situação abafada até aparecer a prima Ligia. Tem gente que considera o nascimento dela um milagre, outros um ato do diabo, até mesmo um sinal do apocalipse. Eu lembro bem daquela noite e pelo menos o cenário dava algum credito a teoria apocalíptica. Chuva pesada, raios e trovões, parecia aquela cena do Frankenstein, aquele com o Bela Lugosi. Depois do nascimento o tio Jonas foi ficando mais retraído, nem mesmo ia para o estúdio. Depois de um tempo ele sumiu e ninguém nunca pode explicar o porquê. Ligia quando fala disso simplesmente da os ombros e diz que “A mamãe sentiu saudades.”.

Quanto ao tio Lucio eu prefiro te poupar dos detalhes. Esse problema resolvemos em família, como tinha de ser. As vezes, nas noites mais tranqüilas, podemos ouvir uns gritos abafados vindos da ala norte, onde enterramos ele.

Desse modo o negocio ficou com meu pai e depois que ele morreu passou para mim. A prima Ligia anda sempre por perto. Ela foi criada pelos meus pais, mas sempre foi mais ou menos como uma gata vadia, aparecendo só quando da na telha e sumindo sem avisar. Minha mãe passou a vida toda tentando colocar algum juízo na cabeça dela, mas sem muito sucesso. Quando ela está por perto costuma assustar as pessoas com seus olhares profundos e avisos repentinos. Não sei bem o quanto disso que ela faz é serio e o quanto é brincadeira, mas em ambos os casos não se poderia esperar nada diferente de alguém que sempre esteve mais do lado de lá do que de cá.

E essa é a historia do nosso negocio e é o que você precisa ouvir no seu primeiro dia aqui. Talvez seu bisavô tenha algo mais para te contar e se ele te encontrar ouça atentamente tudo que ele te dizer.

No fim nós estamos vivendo o legado dele.

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Perfeição

Publicado por Marden em outubro 10, 2011

A noite está perfeita.

A lua cheia pairando acima de umas poucas nuvens que enfeitam o céu, a musica suave saindo da pequena lanchonete na esquina, os casais abraçados enquanto andam tranquilamente pelas ruas… Tudo perfeito.

Ironicamente a única coisa que destoa desse clima sou eu, andando de um lado para o outro na frente da entrada do cinema como um vira-latas na frente de um açougue. Tudo isso porque a condução demorou mais do que eu esperava. Bem que dizem que o diabo está nos detalhes…

Até pensei em entrar no meio da sessão, mas não, melhor não. Alem do mais duvido que eu conseguisse prestar alguma atenção ao filme com ela lá dentro. Tento então me distrair enquanto espero pelo final do filme, mas meus pensamentos sempre acabam escorregando de volta para ela. E não poderia ser diferente. Como eu poderia afastar da minha mente uma criatura tão linda, divina, perfeita? Como eu sequer poderia cogitar esquecer, por um instante que seja, de sua pele macia como seda, seus olhos brilhantes como jóias, seus lábios finos que se abriam em sorrisos que mais parecem uma visão do paraíso… Enfim, a perfeição em forma de mulher.

Fico então pensando no que dizer quando a encontrar na saída da seção. Fingir que estava passando por ali e a encontrei por acaso? Não, muito manjado. Puxar conversa comentando sobre o filme? Eu olho pro cartaz ao lado da bilheteria e vejo que é um filme com algum titulo inelegível, dinamarquês provavelmente, em uma seção de arte. Dificilmente algo que eu possa deduzir um enredo, e mesmo que eu pudesse deve haver tão pouca gente lá dentro que com certeza ela saberia que eu não vi o filme. E é claro que eu não deveria tentar enganar ela, afinal de contas eu a amo. E também ela não é burra. Com os seus óculos de aros grossos de intelectual e gosto para filmes de arte ela com certeza deve ser mais inteligente do que eu.

Não, não, não. Estou pensando da maneira errada. Deveria ser sincero, pois é assim que se faz com quem se ama. Sim, direi que me atrasei. Talvez uma surpresa para compensar… Flores! Sim, toda mulher adora flores, e ela não deve ser diferente. Não que eu esteja dizendo que ele é igual as outras, longe disso, pois desde a primeira vez que eu a vi percebi como ela era especial, mas existem certas coisas que são inerentes a alma feminina. É parte de sua natureza, de seu charme, sua perfeição.

Fico me perguntando o que escolher. Rosas? Não, muito clichê. Girassóis? Muito chamativos. Jasmins? Nossa relação vai mais alem disso… Narcisos. Perfeitos para ocasião. Eu pago o florista e volto ao meu ponto de espera, me inebriando com o perfume das flores e cantarolando uma musica do Sinatra que estava tocando na lanchonete próxima, e então vejo o pequeno grupo de espectadores sair do cinema. Timming perfeito, assim como tudo mais nessa noite.

Lá está ela, vindo na minha direção. Eu sorrio e estendo as flores pra ela, que passa direto, como se nem me conhecesse. Por que ela faz isso? Ela sabe que eu odeio esses joguinhos, tem que saber. Tudo bem, eu a amo então deixo passar. Eu a sigo, esperando que a brincadeira acabe, mas ela parece seguir cada vez mais rápido, como se estivesse fugindo de mim pelas ruas agora vazias. Por que insistir com isso? Será que ela não percebe o quanto me machuca me tratar assim?
Ela com certeza deve estar querendo brincar comigo, então eu entro na brincadeira também. Corto caminho por um beco próximo e a surpreendo alguns quarteirões a frente. Eu a puxo para dentro do beco. A puxo pelos cabelos, com tanta força que ela cai no chão. Sim, eu sei que isso dói, mas isso é amor. E o amor machuca. Eu estendo as flores para ela, mas ela começa a gritar. Porque tanto empenho em estragar a perfeição desse momento? Não posso permitir que ela faça isso. Eu rapidamente a agarro e coloco lenço com clorofórmio em cima do rosto dela, que fica se debatendo, tentado se libertar dos meus braços. Por que elas sempre fazem isso? Por que nunca aceitam que pertencem a mim? Não importa agora, porque lentamente ela percebe a verdade e se entrega sem resistir mais, assim como as outras. Agora ela está deitada, ainda mais linda sob a luz desse belo luar nessa noite perfeita, e é toda minha. Sua pele, seus cabelos, seus olhos, seu coração… Tudo pertencem a mim. Para sempre.

E isso é perfeito.

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Bravata

Publicado por Marden em setembro 5, 2011

Não, eu nunca a amei.

Mesmo apesar de tudo, ela foi só algo que veio sem aviso, como uma daquelas chuvas de verão que inundam metade de uma cidade, e o seu efeito na minha vida foi igualmente calamitoso.

Paixão? Não nego. Fui arrebatado desde o primeiro momento em que a vi. Ela com seus olhos profundos, que pareciam estrelas recém saídas do céu.

Mas nunca a amei.

Então o tempo passou e a paixão já não queimava com a intensidade de antes e eu a fui perdendo aos poucos. A cada dia ela ficava mais distante e eu podia ver seu interesse por mim ir lentamente se esvaindo de seus olhos, até que finalmente ela se foi. Simples assim. Me pergunto como eu posso não ter previsto um final tão obvio.

Hoje nada é como era antes e dificilmente voltará a ser. As musicas não tem mais a mesma graça, os dias não têm mais o mesmo calor, nem ao menos comida tem mais o mesmo gosto. E as vezes me pego sorrindo ao me lembrar dela.

Meu único conforto é me agarrar a uma bravata que nem mesmo eu consigo acreditar: Eu nunca a amei.

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Tarde Qualquer

Publicado por Marden em agosto 23, 2011

Ela se senta pesadamente à pequena mesa na cozinha de sua casa, suspirando pesadamente de cansaço. O dia havia sido longo e a dias que as dores nas costas a estavam matando, mas este seu pequeno ritual de repouso, um pouco de chá enquanto observava o sol se pondo atrás de seu belo jardim, fazia com que a vida de algum modo parecesse melhor do que era.

A porta dos fundos se abre.

Ela o vê entrar pela porta aberta, andando com o cuidado de quem se aventura na caverna de um urso, e observa, com um choque profundo e inesperado, o quão diferente ele está. A perturba principalmente o olhar que ele lhe dirige, tão frio como o de um cadáver olhando para seu assassino, não mais cheio daquela inocência que a encantava tanto.

- Então você veio mesmo. – Ela fala, sorrindo cordialmente para esconder a insegurança – Pode se sentar. Quer chá?

Ele puxa uma cadeira e se senta de frente para ela, deixando a mesa e ainda algum espaço entre os dois, ela nota, então puxa um caderninho do bolso, rapidamente rabisca algumas palavras e o entrega.

- “Eu nunca gostei desse troço. Achei que se lembraria.” – Ela lê em voz alta e então responde – Lembro sim. Só que tanta coisa está diferente que eu achei melhor perguntar.

“E quem podemos culpar por isso?”, ele escreve em resposta.

- Desculpa… – Ela fala, olhando fixamente para a imensa cicatriz que cruza o pescoço dele.

Ele sorri, balançando a cabeça do mesmo modo que alguém que acabou de ouvir uma criança de cinco anos de idade dizer que o cachorro comeu seu dever de casa, e então escreve “Claro. Isso com certeza resolve tudo. Devemos agora nos abraçar e tomar chá com torradas enquanto vemos juntos a novela das seis?”.

- Não precisa ser cínico. – Ela responde, visivelmente ofendida – Eu só queria dizer realmente sinto muito. E que eu fui sincera quando disse que te amava.

Novamente ele a fulmina com um olhar gélido. Ela tenta encará-lo, mas acaba sucumbindo e desviando o olhar.

- Só faça logo o que você veio fazer aqui. – Ela diz, olhando para baixo – Antes que o meu marido chegue. Eu mereço o que quer que seja, mas não quero que ele se envolva nisso.

“Não se preocupe”, ele escreve, “ele não vai chegar tão cedo.”.

- O que você fez com ele? – Ela pergunta, exaltada, enquanto ele lhe passa a resposta – “Nada.” Como assim nada?

Ele sorri novamente e então escreve “Pode ligar para ele se quiser. Mas ponha no viva voz. E nada de gracinhas.”.

Quando ele lê, ele saca sua pistola e a coloca sobre a mesa, bem próxima a sua mão.

Ela disca rapidamente o numero, e então coloca o aparelho em cima da mesa.

- Alô, querida? – Diz o marido do outro lado da linha.

- Oi amor. – Ela fala – Tudo bem com você? Estou ligando para saber se você vai demorar.

- Tenho más noticias, querida. – Responde o marido – Roubaram o meu carro hoje. Agora vou ter que ficar aqui preenchendo a papelada da ocorrência na delegacia. Vou acabar me atrasando um bocado.

- Nossa! E esta tudo bem com você? Te machucaram? – Ela pergunta, fingindo surpresa enquanto ele sorri de satisfação do outro lado da mesa.

- Não, foi só o carro. – Fala o marido – Eu estava no trabalho quando levaram. Sorte que nunca deixo nada lá. Agora eu preciso desligar, querida. Te amo.

- Também te amo. – Ela fala antes de desligar e se voltar para ele – Muito esperto. Usou o carro dele para passa pela segurança do condomínio, não foi? Sempre disse para o meu marido que aquele fumê todo não era boa idéia, mas ele me ouve?

Ele escreve “Quem diria, logo você vivendo como dona de casa dondoca, em condomínio fechado, passando o dia só esperando o maridinho para o jantar.”.

- Não é assim. Eu trabalho também, ora. Pago minhas contas e ajudo na casa. Só que agora eu estou de licença. – Ela fala, se mexendo um pouco para mostrar a ele grande barriga de gravidez – Por hora estou cuidando dessa mocinha em tempo integral.

Ele levanta, com a arma em punho, para perto dela.

- Uma pena que não vou poder ver essa pequena crescendo. – Ela fala enquanto acaricia a barriga, mal contendo as lagrimas.

Ele, por sua vez, entrega para ela outro papel, onde está escrito “Não vou te matar.”.

Ela então sorri, aliviada, deixando suas lagrimas de alegria correrem até perceber que mais uma vez ele a encara com o seu olhar frio como uma lapide de mármore. Ele encosta a arma na barriga dela e então tira de seu bolso uma folha de papel, já amarelada e com escrita gasta, onde está escrito:

“Agora estamos quites.”.

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