Azar
fevereiro 7, 2010
Meu velho pai costumava dizer que não há nada mais perigoso do que se sentir com sorte. Naquela época eu não entendia muito bem o que ele queria me dizer, mas hoje eu entendo perfeitamente.
Uma pena que isso tenha que acontece justamente hoje. É um dia quente, daqueles que nem os abutres tem coragem de sair da sombra, a não ser para abocanhar algum banquete. É por isso que eles circulam acima de mim. Não que eu consiga enxergar eles com a cara enfiada nesse chão empoeirado de barro vermelho, mas eu posso ver as sombras deles a minha volta. E eu reconheceria essas sombras em qualquer lugar. São as mesmas que circulavam o corpo do meu pai.
De repente ouço passos e sou virado para cima. O sol do meio dia me obriga a fechar os olhos. Eles esperam eu poder abrir os olhos novamente, mesmo que fosse para eu ver apenas três vultos escuros, para começar a falar.
- Você tem muita coragem, garoto. – Fala o vulto do meio, com um sotaque carregado – E também é muito burro. Vir aqui na minha cidade sozinho depois de tudo o que fez.
- É que eu estava me sentindo com sorte hoje… – Eu respondo, me justificando para mim mesmo.
Precisava de mantimentos e havia ganho um bom dinheiro jogando cartas em uma caravana que passava pelo deserto. Não achei que ele fosse me reconhecer. Nenhum dos homens dele que me viu saiu vivo para contar a história. Esse é o grande problema de se sentir com sorte. Nós ficamos descuidados, esquecemos de considerar coisas importantes. Como, por exemplo, que um fazendeiro que eu salvei de ser roubado pelos homens dele resolvesse achar mais importante ganhar uns trocados a mais me delatando do que ajudar a livrar o mundo daquele bastardo.
- Sorte? Moleque, você precisaria de muito mais do que isso para me desafiar nas minhas terras. – Ele falou de novo, emendando com uma risada alta.
- Terras compradas com o dinheiro roubado da diligencia que meu pai guardava. – Eu falo, me esforçando para parecer intimidador. Não que vá dar muito certo.
- Então… Você é filho daquele irlandês idiota. – Ele continua, ainda rindo – E pensar que esse moleque, que matou mais de vinte dos meus homens, veio aqui sozinho para a boca do lobo. Eu diria que eu é que estou com sorte hoje, rapaz.
Ele então lentamente saca um revolver, o engatilha e aponta para a minha cabeça, mas eu não presto muita atenção. Meus olhos se desviam para prestar atenção no brilho vindo do teto de uma casa próxima. O inconfundível brilho metálico do cano de uma arma.
- Agora, moleque, peça perdão ao criador, porque logo logo você vai ter um encontro pessoal com ele. – Ele diz.
- Eu prefiro agradecer a ele por não ser filho único. – Eu respondo.
O primeiro tiro acerta ele no braço, o que o joga no chão, berrando, e faz o revolver parar longe. O segundo mata um dos capangas antes que ele sequer tenha percebido de onde veio o primeiro tiro. O outro capanga percebeu e se vira para responder o fogo, mas o que ele não rinha percebido era a faca que eu trazia escondida na manga da camisa e que eu já tinha me desamarrado. Ele só percebe o erro de ter tirado os olhos de cima de mim quando minha velha e boa lamina já está cravada no seu pescoço.
Ele agora se arrasta, com o braço sangrando aos baldes. Eu calmamente pego a arma que ele derrubou e vou para a frente dele, que balbucia qualquer coisa sobre perdão e me dar um bom dinheiro se eu deixar ele viver.
- Vou te dar uma chance, velho. – Eu falo, esvaziando cinco das seis câmaras do revolver e então girando o tambor – Se você não morrer da próxima vez que eu apertar esse gatilho, eu deixo você vivo para tentar se salvar.
Olhando assim de cima ele não parece grande coisa. Não é o bandido perigoso que assolou meus sonhos por anos e anos. É só um velho gordo e patético, olhando para mim com um misto de expectativa e esperança.
Ele realmente acha que as chances estão a favor dele. Eu puxo o gatilho e se ouve o estampido seco de um tiro sendo disparado. Ele tem um ultimo espasmo e então para de se mexer, para sempre.
Meu velho pai sempre me dizia que a sorte é como uma mulher temperamental, sempre te abandona quando você mais precisa dela.
A Menina que Via Sonhos
janeiro 30, 2010
Era comum para os observadores casuais verem Julia sozinha, gesticulando para o ar como se estivesse ensaiando os movimentos de uma complexa dança. A maioria logo desviava o olhar, as vezes rindo daquela criança maluca, as vezes sem nem gastar um pensamento alem da surpresa inicial. Os poucos curiosos que demoravam seu olhar eram eventualmente percebidos por ela, que retribuía os olhares com o seu próprio, mais frio e hostil do que uma avalanche de neve. Era sempre assim. Era como ela era, embora ninguém nunca entendesse o porquê, mesmo os pouquíssimos que se esforçavam tentando.
A verdade por trás disso, como é costumeiro, era simples e fantástica demais para que sequer fosse cogitada: Julia enxergava sonhos. Ela os via como bolas de sabão, flutuando no ar, tão leves e tão frágeis que estouravam antes mesmo dela conseguir tocá-los, e isso a irritava profundamente, especialmente com as pessoas ao seu redor, que deixavam sonhos tão maravilhosos para se perderem ao vento. Essa raiva, no entanto, era mais inveja do que outra coisa, já que Julia havia perdido seus sonhos.
Ela não lembrava como nem quando isso havia acontecido, nem sequer lembrava de haver tido eles algum dia, mas Julia tinha certeza de que um dia teve sonhos. Só isso poderia explicar a sensação perda que a esmagava quando via os sonhos alheios estourando diante de seus olhos. Um dia estranhamente, uma das bolhas-sonho, que para surpresa dela não estourou, mas sim pousou gentilmente nas suas mãos.
Os que a viram naquele dia dizem que ela parecia ter pego no ar algo muito precioso e frágil, e que gentilmente aconchegou o que havia capturado para junto de si. E então caiu, vitima de um sono profundo e repentino. E todos, sem exceção, alegam que a viram brotar em sua face adormecida um sorriso como nunca viram em Julia.
Muito tempo passou e Julia ainda dorme. E sorri. E sonha.
A Casa das Lanternas
janeiro 19, 2010
Era uma noite fria de inverno, uma noite onde o vento soprava tão forte que Marina se perguntava se a pequena cabana de madeira onde estava não ruiria, a julgar pelos assustadores rangidos e estalos que ela emitia de tempos em tempos e pelo modo como o vento fazia balançar as inúmeras lanternas que estavam penduradas por toda a casa, todas elas antigas, iluminadas por velas ou chamas alimentadas por gordura. Ela pensou em perguntar se não havia o perigo de a casa desabar ou mesmo de uma das lanternas cair e incendiar o lugar, mas por alguma razão que ela não conseguia entender achou que seriam perguntas muito tolas e então continuou calada.
- Não precisa se preocupar, criança. – Falou a Bruxa, em um tom ao mesmo tempo irônico e maternal – Essa casa já enfrentou tempestades bem piores e saiu ilesa.
Marina concordou com um aceno rápido de sua cabeça, impressionada. A mulher que estava na sua frente não parecia em nada com a velha decrépita e assustadora que ela imaginava ao ouvir as histórias contadas na vila. A mulher que Marina via era jovem, no auge de sua beleza, vestida apenas com um manto leve que pouco fazia para esconder suas curvas e exalava um ar de confiança que fazia parecer com que nada a surpreenderia.
- Você deve saber por que eu vim aqui… – Falou Marina, tentando ir direto ao assunto, achando que não seria inteligente perder tempo com amenidades em uma situação como aquela.
- Não, não sei. – Respondeu a Bruxa, que começou a rir ao ver a expressão abobalhada de Marina ao ouvir essa resposta – Eu não sei ler mentes, criança. Só expressões. Eu imagino do que se trata, mas gostaria de ouvir de você.
- Um rapaz, meu amor. – Falou Marina com toda a firmeza apesar da face ruborizada – Ele se perdeu no mar e eu quero trazê-lo de volta.
- Ah, sim… Sempre um rapaz. – Disse a Bruxa, parecendo, por um instante, perdida em seus pensamentos – Idiotas, todos eles. Pensam que suas vidas pertencem só a eles, para entregá-las a mercê do mar. Sim, eu posso trazê-lo de volta, criança. Mas você está disposta a pagar o preço?
- Eu pago qualquer preço que for necessário. – Respondeu Marina com toda a convicção.
- Mesmo que esse preço signifique que ele não voltará para você? – A Bruxa perguntou.
Marina se calou, sua coragem vacilando. Valeria a pena salva-lo se não fosse para si? Não haveria outra forma? Ela pensou que talvez pudesse roubar uma das lanternas e com ela guiar seu amado para segurança, mas logo desistiu. Mesmo que conseguisse passar pela Bruxa, como achar a lanterna certa, a que traria seu amado de volta e não algo terrível vindo das profundezas? Marina podia apenas escolher entre qual peso carregar consigo daquele momento em diante.
- Eu… Aceito. – Falou Marina, hesitante e olhando para o chão – Por favor, salve ele.
- Muito bom, criança. – Fala a Bruxa, sorrindo largamente enquanto estende a mão para pegar uma das lanternas – Tive de esperar muito por isso.
Naquela noite um rapaz alcançou a terra, ensopado e quase morto, caindo ao lado de uma lanterna acesa que estava na praia. Mais tarde ele contaria a seus amigos e depois a seus filhos e netos, como a luz daquela lanterna apareceu para ele em meio a tempestade e o guiou para salvação.
Marina, porem, nunca o ouviu contar essas histórias, nem tinha tempo para tanto, pois agora cuidava de sua velha cabana de madeira. E lá, em meio a inúmeras lanternas sempre acesas, ela espera.
A Janela Quebrada
janeiro 11, 2010
Essa casa está morrendo.
Ao menos é essa a impressão que ela me dá. Talvez por causa das paredes que um dia foram brancas estarem cinzentas, do mesmo jeito das cortinas que balançam pesadas nessa brisa fria. Ou talvez seja essa brisa fria que entra por aquela janela quebrada. A quanto tempo ela tá assim? Um mês? Um ano? O tempo as vezes passa de um jeito deixa de ser confiável.
O que eu sei que essa janela já estava assim no dia que ela se foi. Era um dia claro, daqueles bonitos, com passarinhos cantando e tudo mais. Eu acordei meio tarde e fui observar o movimento da rua pela janela. Foi quando eu a vi pela ultima vez. Ela tinha aquele mesmo olhar, belo e triste, o mesmo que me fez falar com ela naquela fila de mercado. Nossos olhares se encontraram por um instante antes dela ir.
Eu queria ter gritado, corrido, ter feito alguma coisa. Deveria ter feito isso. Talvez não desse em nada, talvez acabasse como uma daquelas cenas de filme. Mas em vez disso eu só fiquei lá, parado, observando ela ir embora através daquela janela.
No começo eu não senti muito. Era até divertido poder bagunçar a casa, deixar a tampa do vaso levantada e coisas do tipo. Eu finalmente era um rei. Mas com o tempo surgiu um vazio que nada podia cobrir, tanto que até a casa sentiu isso.
Começou com algumas manchas nas paredes, montes de poeira nos moveis, nada demais. Nada que eu não pudesse resolver com um pouco de disposição. Mas isso eu já não tinha. Nem valia a pena.
Agora tudo o que faço é olhar para rua por essa janela quebrada, esperando por alguem que sei que nunca vai voltar.
Nada
janeiro 9, 2010
Ele a vê, caída em meio as chamas que persistiam em não morrer, rodeada por corpos de outros soldados, todos com seus uniformes disparates homogeneizados pela lama ensopada de sangue que os recobria. Todos eles, que já foram tanta coisa, tão diferentes, agora são iguais não sendo mais nada. Se ele percebe ou aprecia essa ironia ele não demonstra. Ele apenas se aproxima dela, se abaixa e delicadamente apóia a cabeça dela em seu peito.
- O que você está tentando fazer? – Ela pergunta, com sua voz já falhando e carregada de duvida.
Ele olha em silencio para os arredores, como que querendo encontrar uma resposta, mas sorri sem graça sabendo que não encontrará resposta alguma.
- Nada. – Ele finalmente responde, mais baixo que um sussurro – Absolutamente nada.
Bonança
janeiro 1, 2010
- Sabem, aqui me lembra a casa da vó Branca. – Falou Mauro, de repente, surpreendendo os dois que esperavam próximos ao seu leito no hospital.
Era um quarto pequeno e branco, como todos os quartos de hospital, onde a cama onde Mauro deitava ocupava a maior parte do cômodo, sendo boa parte do resto do espaço ocupado por duas desconfortáveis cadeiras plásticas onde sentavam Marco e Lucas.
- É o cheiro do desinfetante. – Comentou Marco com um meio sorriso de satisfação – Ela trabalhou nesse hospital por mais de 30 anos e ainda compra o mesmo que usam aqui.
- Eu jurava que era pelo bom tratamento. – Respondeu Mauro sorrindo – Até me deram banho…
- Poderia não falar nisso? – Falou Lucas, com um visível desgosto – Não foi lá muito agradável…
- Vocês… Me deram banho… – Disse Mauro, incrédulo.
- A gente não podia deixar isso sobrar para alguma pobre enfermeira. – Comentou Marco, visivelmente desgostoso – Não no estado em que você estava.
Os três ficaram calados, gerando um silencio constrangedor que ecoava pelas paredes brancas do hospital, até ser cortado por uma risada de Mauro.
- Então… – Ele falou enquanto fazia um risinho afetado – Foi bom pra vocês também, amores?
Os três riram juntos, um sorriso compartilhado em longos anos de convivência, até que são silenciados pelo olhar irritado de uma das enfermeiras.
- Não falei que a gente devia ter deixado ele lá na ponte? – Falou Lucas, que ainda segurava o riso.
- Pelo visto você já está melhor. – Comentou Marco.
- Sim. Nada como um pouco de glicose pela manhã para renovar as forças. – Respondeu Mauro – Quando vão me liberar?
- Acho que agora é só questão do medico vir te examinar. – Falou Marco – E não me venha com esse “pela manhã”. São três horas da tarde.
- Já? Achei que o nosso primeiro dia sem ela fosse começar mais cedo. – Disse Mauro, que então olhou pela janela – Mas pelo menos é um dia bonito.
Os sorrisos de Marco e Lucas morrem e em seu lugar brotam expressões de tristeza mal disfarçadas.
- Ué, por que essas caras de enterro? – Perguntou Mauro – Até onde eu sei o funeral dela foi ontem.
- Para de falar assim, Mauro. – Falou Lucas, visivelmente irritado.
- Por que? – Insistiu Mauro – Qual o sentido de manter esse luto?
- O mesmo de beber até quase morrer no dia do funeral dela. – Disse Marco – Idiotice, irmão.
- A mesma idiotice que te fez ficar sem dormir desde que ela morreu, mano. – Retrucou Mauro – Me escutem. Ela deixou a gente, e cada um de nós teve que fazer isso tudo para conseguir aceitar isso. Mas agora é hora de deixar ela.
- Falar assim é fácil… – Resmungou Lucas.
- Não. De maneira alguma. – Respondeu Mauro – Mas é o que precisamos fazer. Somos homens livre agora, para o bem ou para o mal.
- Detesto admitir, mas ele está certo. – Falou Marco.
- Então sorriam, camaradas.- Falou Mauro – Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas. E pelo menos a chuva parou.
Nunca
dezembro 27, 2009
Ele olha para mim assustado, se debatendo inutilmente contra as correntes, enquanto eu espero sentado nas amuradas de pedra negra do castelo. Com o barulho que esse traidorzinho miserável faz não vai demorar muito. Nunca demora. Pela janela eu vejo os restos apodrecidos do galeão encalhado e lembro dos seus terríveis tripulantes, um tanto saudoso até. Isso aqui perdeu muito da graça sem o capitão. Tínhamos luta, ação, perigo… Até isso aquela maldita me tirou. Pensar que fui eu quem a trouxe para cá, para o paraíso eterno. Naquela época o verão durava para sempre e eu e os perdidos voávamos livres, brincando. Até ela vir. Ela veio com suas histórias, suas promessas e nos cativou a todos. Levou embora os perdidos, os deu um “lar de verdade”. Mas não para mim. Não havia lugar para mim no que ela criou. Eu ainda tinha esperanças na época. A observei mudando, crescendo e finalmente me esquecendo. E então o inverno chegou.
Eu ouço o tic tac se aproximando devagarzinho por debaixo da água e sorrio, o que parece assustar ainda mais o traidorzinho. Ele se debate ainda mais, mas o crocodilo acaba rapidamente com esse incomodo. Uma mordida e pronto. Ele coloca a cabeça para fora da água e me encara. Hoje acho que ele é a única criatura que me entende aqui. Durante o inverno eu trouxe novos perdidos aqui e logo o verão voltou. Mas eu sabia que devia proteger essa terra. E para isso eu uso ele. Ele vagava sem sentido, tendo matado seu nemesis. Agora ele devora os traidores. Os que querem voltar para casa. Porque nunca mais vou deixar que destruam o paraíso como aquela maldita Wendy fez. Nunca.
Miragens
dezembro 26, 2009
Tudo estava em silencio. A casa, a rua… Todo o mundo parecia simplesmente ter parado, morrido. O único sinal de vida que Isabela percebia era sua própria respiração arfante enquanto ela tentava se controlar, encolhida em um canto do seu quarto e agarrada com seu ursinho de pelúcia.
- Isso não pode estar acontecendo, não é senhor feliz? – Ela fala, segurando o ursinho na altura dos olhos enquanto sorria nervosa e desesperadamente – Ninguém pode sumir desse jeito, não é? Pessoas não são miragens.
Ela se levanta e começa a andar, confusa, de um lado para o outro do quarto. Isabela não percebe nenhum movimento nas ruas e as luzes que penetram em fachos através das persianas apenas tornam a escuridão do seu quarto ainda mais ameaçadora. Ela continua carregando o ursinho apertando ele contra o corpo a medida em que andava.
- Eu preciso chamar alguém. – Ela fala para si mesma em um sussurro – Mas ninguém está aqui… Mamãe não fala do papai faz dias, desde que ele sumiu. A Laura… Todo mundo agiu como se ela não existisse.
Ela para e se senta ao pé da sua cama, novamente segurando o ursinho na altura dos olhos.
- Mas ninguém pode sumir desse jeito, não é senhor feliz? Pessoas não são miragens. E a Laura não foi um sonho. Não pode ter sido. Nós fomos a loja de doces hoje e compramos um montão. Eu sei que fomos. Minhas mãos ainda cheiram a doce. – Ela diz e então sorri para o ursinho – Mas você não se esqueceu dela, não é senhor feliz? Eu sei que você se lembra. Você nunca esquece ninguém.
Isabela aperta então um botão escondido no pelo do ursinho e começa a ouvir uma gravação. Primeiro em uma voz eletrônica que dizia “Aqui é o senhor feliz! Deixe uma mensagem para alguém especial e encha seu coração de felicidade!” e depois vinha outra, caseira e cheia de chiados, onde uma voz de menina falava. Era Laura. Dizia: “Bela, eu falo aqui para você nunca, nunca esquecer…”. A mensagem então se perdia, sendo substituída apenas por estática.
- Não, não! – Grita Isabela desesperada. Ela primeiro tenta tocar a mensagem de novo, mas só há estática, e então começa a chacoalhar violentamente o ursinho e a batê-lo no chão, até que ele se rasga e espalha todo o seu estofado pelo quarto. Ela então, arfando e tremendo, o joga longe e quando ele bate na parede a mensagem começa a tocar de novo. Primeiro a mensagem eletrônica e depois começam os chiados de uma mensagem caseira.
- Não tem mais ninguém. Ninguém. Ninguém. – Diz uma voz que Isabela reconhece como a sua própria – Todos sumiram. Mas eu ainda tenho o senhor feliz. Tudo vai ficar bem. Porque você nunca vai me abandonar, não é senhor feliz?
Isabela, percebendo o que fez, se aproxima dos restos do ursinho e tenta desesperadamente junta-los e concertá-los, mas já era tarde. Então as luzes se apagam. Naquela escuridão tudo estava em silencio. A casa, as ruas… Tudo. Era como se o mundo todo tivesse parado. Ou morrido. O único sinal de vida estava em um dos quartos.
Era uma respiração arfante e em pânico de uma menina.
Guarda-Chuva
dezembro 15, 2009
O menino anda cabisbaixo ao lado de seu pai enquanto a chuva cai pesadamente sobre eles. Seu cabelo molhado cai deselegantemente sobre seu rosto, o que o faz sentir um pouco aliviado, pois assim esconde os hematomas que estavam espalhados por sua face. O pai, por sua vez, o observava enquanto caminhava ao seu lado, quase como se o estivesse estudando, com uma expressão que dizia que ele tinha algo para dizer, mas que ainda não havia decidido como começar a conversa. O pai então de repente para e, sorrindo para si mesmo, abre o guarda-chuva.
- Sempre esqueço de usar essa coisa… Vem, filhote. – Ele fala puxando seu filho para baixo do guarda-chuva – Sua mãe vai ficar uma fera se eu te deixar chegar em casa todo ensopado. E você aproveita e me conta o eu aconteceu.
- Eu… Briguei, pai. – Fala o menino, cabisbaixo, com o gosto de sangue amargando cada palavra.
- Eu percebi, porque bem, isso está na cara. Literalmente. – Responde o pai, deixando escapar um risinho pela observação – O que eu quero saber é sobre os eventos que levaram a tal briga.
- Não foi nada. – Insiste o menino, ainda cabisbaixo – Eu só briguei. Nada demais.
- Então não teve nada a ver com aquele menino que você salvou de levar uma surra? Como era o nome dele? Paulo, acho. – Pergunta o pai.
O menino então olha para seu pai, que por sua vez o observa novamente com um olhar de como se o estivesse estudando, mas dessa vez esse olhar é acompanhado por uma expressão tristonha.
- É Pablo, eu acho. – Responde o menino, dessa vez olhando nos olhos do pai – Não conheço ele direito.
- Então nem amigo dele você é… – Continua o pai, sua expressão ainda mais triste.
- Não. Mas eu não podia… – Fala o menino, tentando se articular em uma explosão de gestos.
- Não podia deixar aqueles três baterem nele daquele jeito. – Completa o pai – Não é mesmo?
- Como você soube? – Pergunta o menino.
- Aquela ruivinha amiga sua. – Responde o pai, com um risinho que ele sabia que o filho só entenderia alguns anos mais tarde – E não fique irritado com ela, porque ela só me contou para te livrar de alguma encrenca.
O dois param em um cruzamento, esperando o sinal abrir, um de pé do lado do outro mas em silencio e com olhares distantes, perdidos em seus pensamentos.
- Desculpa pai. – Fala o menino, novamente olhando para o chão.
- Não. – Fala o pai – Não precisa se desculpar. Você não fez nada de errado, filhote. Na verdade você fez o certo. E esse é que é o problema.
- Eu não entendo… – Fala o menino, olhando confuso para o pai, que por sua vez olhava para o horizonte.
- Você fez o que era certo, mesmo tendo que partir pra cima de três moleques maiores que você. – Continua o pai – Então é a primeira vez que você faz esse tipo de coisa completamente idiota simplesmente porque era o certo a se fazer. Não sei se foi porque eu acabei te criando bem demais, mas você é assim mesmo. Você é uma pessoa boa.
- Você fala isso como se fosse ruim, pai… – Fala o menino, preocupado com o tom do pai.
- Infelizmente é, filhote. – Fala o pai se abaixando para olhar nos olhos de seu filho – Porque nesse mundo isso só vai te trazer problemas. Muitas vezes você vai se dar mal, como hoje, ou pior, muitas vezes você não vai conseguir fazer diferença alguma. Você vai sofrer muito, filhote, e não há nada que ninguém possa fazer.
O menino olha longamente nos olhos de seu pai e fica em silencio, como que digerindo as palavras ditas por ele, e então sorri.
- Mas as vezes eu vou fazer a diferença. – Fala o menino sorrindo – Pra mim já está bom.
O pai olha para seu filho, ainda sorrindo com o rosto cheio de hematomas, e mostra uma expressão que mistura orgulho e tristeza. Seu filho seria um grande homem e ele gostava de pensar que tinha algo a ver com isso.
- Vamos pra casa, filhote. – Ele finalmente fala.
Inverno
dezembro 10, 2009
Ele olha para seu refugio e quase não o reconhece, suas sombras e tons de preto desbotadas pelo cinza que tomava tudo ao redor, assim como seus tesouros, segredos guardados com tanto cuidado, sumindo pouco a pouco como se fossem feitos da poeira que outrora os recobria. Causava a ele uma certa tristeza constatar que o lar que havia criado para si se tornava cada vez mais o beco amontoado de lixo que os mundanos viam e que de seus bichos, pequenas criaturas rastejantes da escuridão que ele mantinha por perto para nunca se esquecer de onde havia vindo, não haviam nem mais rastros, apenas lembranças. Lembranças são tudo que restou para ele e os outros que ficaram para trás, e talvez nem isso dure muito.
Ele pensa em tudo que havia visto desde que havia nascido quando os primeiros homens contemplaram a escuridão pela primeira vez. Medo, era isso que ele era, mais até do que todos os outros do seu povo. Era o progênito da escuridão, o primeiro pesadelo, o único que se lembrava dos tempos em que arrastava pela escuridão do desconhecido dos sonhos no Éden. Em suas memórias haviam visões do Éden, dos caídos e de sua rebelião, da guerra que se seguiu. Fora testemunha da morte de Abel e das maldições sobre Caim. Testemunhou ascensão dos Thuatha e a queda dos Fomori, assim como a formação das grande cortes. E tudo isso agora corria o risco de se perder, tudo pela simples descrença daqueles que inadvertidamente o haviam criado.
Seu pensamento vagueia para os outros. A maioria foi embora, deixando o mundo para trás assim como os nobres haviam feito muito antes, se exilando no que resta do sonhar, dessa vez para nunca mais voltar. Ele se recusou a partir, ficou assim como todos os outros orgulhosos, teimosos ou corajosos demais para se salvar daquela forma. Desses poucos ainda restam. A maioria já se perdeu, tendo sido esmagados pela banalidade mundana, esquecidos de quem são levando vidas miseráveis sem nem ao menos se lembrarem do porquê. Os que como ele ainda se lembram de quem são vivem como homens condenados, fazendo tudo o que podem para aproveitar seus últimos dias de vida. Ele os sempre, ou jogados pelas ruas depois de noites de excessos ou então junto aos perdidos, aproveitando o tempo com aqueles para quem já foram importantes mas que hoje nem ao menos se lembram deles.
Ele olha a rua e vê apenas pessoas cinzentas em seu mundo cinzento, sem lugar para sonhos. E então, entre eles uma criança, cujas cores se destacam no meio do cinza, o olha fixamente e ele sabe o que ele vê. Escuridão. Medo. Ele sorri. Essa era a razão por que não só ele mas todos os outros haviam ficado. Ainda existiam aqueles que ousavam sonhar. “Porque nós, sonhos,” ele sussurrava, como se fosse um grande mistério do universo “somos antes de tudo feitos de esperança. Como poderíamos desistir assim?”