La Lune
Novembro 12, 2009
Era uma tarde de inverno quente e abafada como uma sauna de hotel barato, e eu estava acabando de chegar no escritório depois de uma noite cheia de trabalho. A cidade estava mais agitada que beata em inaugurarão de sex shop, isso porque fazia menos de uma semana que Albert McRoy, o grande líder da maior organização do submundo, O Sindicato, foi assassinado. Isso podia significar o caos para a cidade como um todo, mas para mim era uma época de vacas gordas, tanto que eu até podia escolher que casos pegar. Assim eu cheguei no escritório, peguei o jornal da manhã e fui relaxar na minha confortável poltrona. Pensava em tirar o resto do dia de folga, tinha ate colocado os pés sobre a mesa, quando ela bateu em minha porta.
- O senhor está ai, senhor Ramirez? – Soou uma sensual voz feminina do lado de fora do escritório.
- A porta está aberta, pode entrar! – Eu gritei em resposta.
Até pensei em dispensar a moça, mas pensando bem, não faria nenhum mal ver se a dona daquela voz era tão sensual quanto a mesma. Eu poderia dispensa-la a qualquer momento, caso fosse algum caso muito problemático e tinha a chance de ganhar, no mínimo, uma bela visão. Quanto a isso eu não me decepcionei, nem um pouco.
Ela entrou no meu escritório com um ar aflito, o que contrastava dramaticamente com seu andar, sinuoso como o de uma pantera. Usava um vestido vermelho de seda sob medida que revelava mais do que escondia suas curvas, que assim como os óculos escuros de marca denunciavam que a moça não era uma qualquer.
- Ótimo, mais um caso complicado. – Eu resmunguei para mim mesmo enquanto tratava de me aprumar. Mal sabia eu o quão certo estava.
Ela se sentou a frente da minha mesa, dando uma cruzada de pernas que quase me fez quebrar o pescoço, e então tirou os óculos escuros e olhou nos meus olhos. Logo de cara eu pude ver que a moça devia estar mais encrencada que um gato preso dentro de um canil, pois tinha umas olheiras enormes e um olhar de desalento que me atingiu como um trem desgovernado. Isso só podia significar encrenca, e das grandes.
- Eu preciso de ajuda, senhor Ramirez, e só o senhor pode me ajudar. – Ela falou, sua voz sensual cadenciada pela ansiedade.
- Claro que sim, querida. – Eu respondi com um sorriso cretino no rosto – Sou o melhor do ramo, afinal.
- Também por isso… – Ela fala, colocando um envelope sobre a minha mesa – Mas creio que envolva algo mais… Pessoal.
Eu peguei o envelope lentamente, analisando a reação dele para ver se não havia nada errado. Ela pareceu ainda mais ansiosa, embora tentasse a todo custo esconder isso. Então eu desviei minha atenção para o envelope e dentro dele havia apenas uma folha de papel dobrada, na qual eu pude notar varias manchas de sangue seco. Aquilo não estava cheirando bem, mas a curiosidade me impeliu a abrir a ler o que havia lá. Estava escrito “Para J. Ramirez. Você vai achar a chave onde meu coração sempre esteve.”, em uma letra bela apesar de ser claro que foi escrita na pressa. Uma letra familiar. A letra da Erica. Faziam vários anos que eu não lia nada que ela escrevesse, mas não tinha como eu esquecer da letra dela, assim como de todo o resto.
- O que significa isso? – Eu perguntei, temendo o pior mas disfarçando com uma frieza cínica. Não se vive muito no meu ramo se você demonstrar suas fraquezas para os outros.
- Quer dizer que o senhor não sabe? – Ela respondeu com um ar de completa surpresa – Mas saiu em todos os jornais hoje!
Aparentando toda calma do mundo eu abri o jornal e vi, estampada em letras garrafais, a manchete: “Famosa cantora La Lune encontrada morta em seu apartamento. Policia suspeita de assassinato.”. Boa parte do resto da pagina estava ocupada com uma foto dela, morta sobre uma imensa poça de sangue seco.
Erica estava morta. A noticia me atingiu como um trem descarrilhado passando por cima de uma fileira de carros.
- Ah, entendo… – Eu falei em um tom tão frio que deve ter saído vapor de condensação da minha boca – E qual seu envolvimento com isso, senhorita…
- McRoy. – Ela completou, com uma estranha mistura de orgulho com vergonha – Julia McRoy. Eu era… Amiga da senhorita Lune.
- E da família do inglês. – Eu atalhei.
- Não chame meu pai assim. – Ela respondeu, visivelmente alterada.
- Ora, ora, não precisa ficar exaltada, querida. – Eu falei, caprichando no cinismo - Não tenho nada contra sua inocente família. Só me fale do caso.
- Pois bem. – Ela falou, visivelmente engolindo a raiva – O senhor deve saber que a senhorita Lune era… Amante do meu pai. Ficamos amigas depois da morte dele. Ontem quando eu fui visita-la eu a encontrei morta, com essa carta nas mãos.
- E então você veio aqui. – Eu completei.
- Não foi por escolha minha. – Ela continuou – Aparentemente ela confiava muito no senhor e se alguém pode resolver esse caso, esse alguém é você, senhor Ramirez.
- Bem, senhorita McRoy, eu verei o que posso fazer. – Eu falei – Quanto ao pagamento, nós acertaremos no fim do caso.
Ela assentiu e se retirou do meu escritório, com o mesmo andar sensual que usou para entrar, mas dessa vez eu nem prestei atenção. Minha mente estava focada no caso. Erica morta. Uma carta misteriosa escrita para mim. E ainda tinha aquela garota, filha do McRoy.
E tudo que eu queria era um dia de folga.
*********
A casa dela estava uma bagunça, o que era obvio se tratando do que aconteceu, e ainda mais obvio porque os policiais da delegacia de homicídios vieram vasculhar a cena em busca de provas. Tudo para impressionar os jornais, claro. Passei com cuidado pelos cacos de vidro espalhados pelo chão, tentando não fazer barulho, pois mesmo tendo subornado o policial que vigiava o apartamento não era prudente chamar atenção, pois não queria acabar sendo o bode expiatório da vez. Me detive olhando a enorme mancha de sangue seco que estava em um dos cantos da sala de estar e não pude evitar de pensar no quanto ela deve ter sofrido, pois era evidente que sangrou até a morte. Eu rangi os dentes e tratei de me concentrar no trabalho. Fiz uma busca rápida na casa, mas tudo que encontrei foram moveis revirados e objetos sem valor jogados pelo chão. A única coisa que eu descobri nessa busca foram as malas dela, em um canto do quarto. Estavam tão reviradas quanto a casa, mas pelo volume de objetos e roupas em volta delas pude perceber que elas estavam feitas antes. Ela estava se preparando para viajar e a julgar pelo tamanho das malas ela não voltaria tão cedo. Estava claro que ela havia sido surpreendida quando se preparava para fugir. Alem disso haviam os porta-retratos, todos quebrados e espalhados pelo chão, exceto por um, que estava intacto e ainda no lugar, só que sem a foto. Já estava de saída quando fui surpreendido pelo detetive Lima entrando pela porta. Ele não parecia nem um pouco surpreso com minha presença ali, e para ressaltar isso tratou de fingir descaradamente uma expressão de surpresa.
- Mas olha o que temos aqui. – Ele falou – Como se não bastassem os abutres da imprensa circulando cadáver da pobre moça agora temos um rato também?
- Um prazer como sempre te ver, detetive. – Eu respondi o cumprimentando com o mesmo tom descaradamente falso.
Ele sorriu e circulou a sala, indo diretamente para o armário de bebidas, abrindo uma garrafa de uísque e se servindo sem o menor pudor, como se fosse o dono da casa.
- Pelo visto você não mudou nada. – Eu falei em um tom calculadamente ofensivo – Continua sendo movido a álcool. Vai me fazer as perguntas que quer fazer agora depois do primeiro gole ou eu vou ter que esperar você terminar a garrafa?
A expressão dele mudou, passando do sorriso de satisfação para uma carranca de raiva. Tive de se segurar muito para não rir, porque era sempre tão fácil irrita-lo e eu sempre conseguia enrolar ele assim.
- Não banque o espertinho comigo, Ramirez. – Ele respondeu já rangendo os dentes – Porque você não é assim tão esperto quanto pensa.
- Não sou? – Perguntei em um tom irritantemente jocoso.
- Você voltou a cena do crime. – Ele continuou, ainda mais irritado – Não tem como negar.
- Nossa, estamos mesmo desesperados, hein? – Eu respondi – Imagino que os repórteres estão mesmo no seu pé. Levando em conta sua já conhecida competência não é nenhuma surpresa…
- Então me explique isso. – Ele fala, tirando do bolso e me jogando um retrato.
Era uma foto antiga, onde se via dois jovens sorridentes, daqueles que acham que o futuro a sua frente vai ser brilhante como luzes de néon, sentados em uma bela praça suburbana com uma arvore frondosa ao fundo. Éramos eu e Erica. Isso havia sido antes das nossas vidas tomarem rumos diferentes, antes dos shows, do cabelo tingido e do nome artístico que a tornaram famosa. Eu sorri para mim mesmo quando vi a foto. Não imaginava que ela havia guardado aquilo. E também, porque sabia que o Lima não me mostraria isso se tivesse algo contra mim.
- Achei isso entre os outros retratos, o único intacto. – Ele prosseguiu, retomando seu tom de triunfo, como se esperasse que eu caísse de joelhos confessando tudo – Todos os outros, quebrados, tinham…
- Fotos dela no palco ou com o Inglês. – Eu atalhei – Nada mal, talvez você até consiga fazer valer o seu salário.
Ele voltou a ficar irado, quase quebrando o copo de vidro nas mãos, mas eu continuei.
- Não nego que conhecia ela. Na verdade é por isso que eu estou aqui. – Eu então baixei o tom de voz e olhei serio nos olhos dele – Eu vou descobrir quem fez isso com ela, custe o que custar.
Ele notou a seriedade no meu olhar e relaxou, enquanto eu saia pela mesma porta que ele usou para entrar.
- E não se preocupe, eu vou deixar todos os créditos pra você. Eu sei que você precisa. – Eu falei, dando uma ultima alfinetada.
***********
O Frank’s estava vazio naquela noite e não sem razão, já que era o único estabelecimento da cidade que não estava “prestando tributo” a falecida e já endeusada celebridade. Essa foi a razão que me fez ficar por lá, beber um pouco e pensar na vida, olhando para o nosso retrato antigo com uma cara de cachorro que perdeu seu brinquedo favorito.
- Pelo visto ela já era bem bonita desde essa época. – Falou o Chico, dono do bar, espiando a foto do outro lado do balcão.
- Isso não é nada. – Eu retruquei com o sorriso mais cínico do mundo – Você deveria ter visto ela nua. Isso sim era um espetáculo incomparável.
- Eu acredito. – Respondeu Chico balançando a cabeça – E o que o trás aqui, amigo? Um dia difícil?
- Pode se dizer que sim. – Eu falei – Vim resolver uma questão um tanto problemática e acabei parando para relaxar um pouco, ainda mais porque aqui é o único lugar que vende bebidas nessa maldita cidade que não está tentando fazer uma grana as custas dela.
- Nem poderia. – Chico falou, com um ar bastante serio – Ela amava esse lugar aqui mais do que tudo e eu não poderia fazer isso com a memória dela.
- Eu é que sei… – Eu continuei – Você até deixou ela mudar no nome dessa espelunca.
- E ela estava certa. – Chico respondeu – Onde já se viu um clube de jazz com o nome de “Bar do Chico”?
Nós dois nos entregamos a um descontraído riso meio embriagado, que teria chamado atenção do bar todo se ele não estivesse mais vazio do que a cabeça de um estudante bêbado.
- Mas… Me diz, Chico, o que você sabe sobre Julia McRoy? – Eu perguntei, como quem não queria nada.
- A filha do inglês? – Chico respondeu, erguendo uma das sobrancelhas ao olhar para mim – Muito pouco. Até onde eu sei nunca se envolveu com os negócios da família. Nem poderia, sendo uma mulher e ainda por cima adotada. Por que a pergunta?
- Interesse profissional. – Eu falei, fingindo desinteresse – Nada demais.
- Assim espero. Mesmo ela não estando envolvida com os negocio da família, o irmão dela está e eu não acho que ele iria gostar de ver você perto dela. – Chico falou, em tom de aviso – Não agora que ele precisa tomar o controle dos negócios da família.
- Não se preocupe. – Eu falei enquanto me levantava e deixava o dinheiro da conta em cima da mesa – Eu sei o que estou fazendo.
***********
Fui acordado pelo irritante tocar do telefone, que martelava minha cabeça tomada pela ressaca como se fosse um viking. Pensei seriamente em jogar o aparelho pela janela, mas acabei atendendo.
- Senhor Ramirez? – Soou uma voz aflita de mulher do outro lado da linha.
- Eu mesmo. – Respondi, com toda a capacidade de articulação que eu tinha na hora.
- Sou eu, Julia. – Ela continuou – Eu preciso da sua ajuda!
- Eu sei, senhoria McRoy. Espero que seja realmente algo muito serio para me acordar a essa hora da manhã. – Eu falei, com um visível mal-humor.
- Minha casa… Por favor… Eles vieram aqui… – Julia falou, entre soluços – Eu preciso de sua ajuda. Por favor.
- Tudo bem. – Eu falei – Fique calma, já estou a caminho.
Eu desliguei o telefone, olhei para o relógio, que marcava pouco mais de seis e quinze da manhã, e me arrumei correndo, tentando chegar lá o mais rápido o possível. “Negócios são negócios.”, eu fiquei repetindo para mim mesmo por todo o caminho.
Quando cheguei na casa dela a encontrei do lado de fora, o rosto cansado ainda marcado pela maquiagem borrada. Ela vestia um belo vestido preto de luto, já bastante sujo. De longe ela parecia só imensamente cansada, enrolando seus braços ao redor do corpo para se proteger do frio que sempre vem pela manhã, mas ao me perceber chegando tentou adotar uma postura mais orgulhosa, o que só fez com que ela parecesse ainda mais frágil.
- Estou aqui… – Eu falei, hesitando um pouco antes de continuar – Julia. Me diga o que aconteceu.
- Ontem fui ao cemitério colocar flores no tumulo do meu pai. – Falou Julia, claramente contando o choro – Quando voltei encontrei minha casa desse jeito. Vão me matar como fizeram com a senhorita Lune e meu pai, não é mesmo?
- Não comigo aqui. Agora vamos entrar que você precisa de um descanso. – Eu falei a empurrando para dentro através da porta arrombada de sua casa.
Antes de entrar eu dei uma ultima olhada para confirmar se os sujeitos mal encarados dentro do carro preto estacionado do outro lado da rua estavam realmente nos vigiando. De fato estavam, mas eram claramente homens do irmão dela, de modo que eu não me preocupei muito. Aquilo claramente não era serviço deles, porque se fosse ela não estaria mais lá. Eles seriam um problema para mim, mas era algo com que eu poderia lidar depois.
Ao entrar vi que a casa estava toda revirada e que parecia que haviam entrado procurando por algo, exatamente como no apartamento da Erica. Eu tratei de desvirar um sofá para me sentar, enquanto ela foi a cozinha.
- Me acompanha? – Falou Julia, me oferecendo um copo de água – Gostaria de poder oferecer algo mais substancioso, mas o estoque acabou.
Ao dizer isso ela apontou para o armário de bebidas, que agora tinha apenas cacos de vidro, e começou a rir, um riso leve e lindo, que me deixou atordoado como um coelho ao ver os faróis de um caminhão em uma estrada. Aceitei a água com um gesto e ela me entregou o copo e se sentou do meu lado.
- Sabe… Quando eu estava no cemitério eu vi os preparativos para o funeral dela.Tudo tão lindo… – Ela falou, olhando fixamente para mim – Você ainda ama ela?
- Já não faz mais diferença agora. – Eu respondi.
- Você está fazendo isso tudo por ela. Que inveja – Julia falou, aproximando seu rosto do meu, chegando ao ponto de eu sentir sua respiração a cada palavra que ela dizia – Queria ter alguém que fizesse isso por mim, também. Você faria?
- Você é uma mulher muito perigosa. – Eu disse, e então a beijei.
*********
Em algum momento, quando o mundo parecia ser só penumbra, calor, sussurros e desejo, eu ouvi a voz dela, entremeada por sua respiração ofegante.
- Você me ama, não é mesmo? – Ela perguntou.
- Amo. – Eu respondi.
***********
Eu andei na direção do carro preto, que agora tinha outros dois iguaizinhos estacionados ao lado e muito mais sujeitos mal encarados. Eles pareciam confusos ao me ver indo direto na direção deles, mas um, o mais bem vestido e confiante tomou a dianteira e veio falar comigo.
- Você é muito corajoso ou muito burro, detetive. – Ele falou em um tom de escárnio.
- Só sou um homem pratico. – Eu falei, dando os ombros – Vocês iriam me seqüestrar de qualquer jeito, então melhor vir aqui e resolver isso com você, senhor McRoy.
- E o que você queria com minha irmã, senhor pratico? – Ele perguntou.
- Sua irmã está ótima. – Eu respondi, me esforçando para não soltar nenhum risinho cínico – Só peço para que não acordem ela, porque ela realmente precisa de um descanso.
McRoy sorriu, sacou a arma e apontou para a minha cabeça.
- Já descobri que você é dos muito burros, detetive. – Ele falou enquanto engatilhava a arma – Mas eu ainda vou te dar uma ultima chance. Me dê um bom motivo para não espalhar seus miolos por essa rua.
- Não seria pratico, senhor McRoy. – Eu falei – Não com a informação que eu tenho.
************
A praça das flores havia mudado muito desde o tempo em que eu e Erica vivíamos por ali. Em vez dos perfumes do campo havia uma mistura de cheiro de esgoto com fumaça de cigarro e as únicas flores que haviam por ali eram vendidas barato a homens solitários, e raramente cheiravam bem. Julia me esperava sentada em um banco, como eu pedi no bilhete que deixei na cabeceira de sua cama, e olhava nervosamente de um lado a outro tentando me achar.
- Por aqui, Julia. – Eu falei, a levando para perto de uma arvore seca no meio da praça.
- O que significa isso? – Ela perguntou.
- Pensei ter sido bem claro no bilhete, querida. – Eu falei – Aqui é que você vai entender o significado da carta que Erica me deixou.
Ao dizer isso eu apontei para uma parte do tronco onde ainda se podia ver, bem apagado, uma marca de um coração onde estava escrito “J & E”.
- Mas antes eu gostaria de te pedir uma coisa. Pode dizer para o Lima parar de se esconder, por favor? – Eu falei, dizendo a ultima parte bem alto, para que ele pudesse ouvir.
Julia ficou branca como cera, ainda mais quando Lima saiu de seu esconderijo com a arma em punho, apontando para mim.
- Eu disse que não poderíamos confiar nele, Julia. – Falou Lima já rangendo os dentes – Agora me diga onde está a senha!
- Lima, seu idiota! – Gritou Julia.
- Não seja tão dura com ele, querida. – Eu falei, sorrindo – Eu já imaginava que era algo assim.
- Não importa, ele já nos trouxe ao esconderijo. – Falou Lima, sorrindo enquanto engatilhava a arma – Você cometeu seu ultimo erro, Ramirez, vindo aqui sozinho.
- Eu não diria isso… – Eu falei, apontando para os vários homens mal encarados que nos cercavam.
Ao perceber a situação Lima tentou se virar e atirar, mas antes que completasse o movimento foi crivado por inúmeras balas. Julia assistiu tudo isso horrorizada e estremeceu ao ver seu irmão chegando.
- Alberto… – Ela balbuciou.
- Olá, irmãzinha. – Respondeu Alberto – Excelente trabalho, detetive.
- Não, ainda não. – Eu falei, me voltando para Julia – Falta um detalhe ainda. Eu sei que foi ele quem matou Erica e revirou a casa dela, tudo com sua ajuda, claro, assim como foi naquela encenação na sua casa. Mas por que você matou seu pai? Você não é do tipo que se arriscaria tanto só por dinheiro, querida.
- Aquele porco não era meu pai. – Respondeu Julia, seus olhos faiscando de ódio – Ele não me criou para ser uma filha, mas sim uma escrava. Você não tem idéia do que eu tive que passar todos esses anos. E então ele se apaixona por aquela vadia e resolve se aposentar, viver uma vida honesta com ela! Eu não podia permitir, não depois de tudo que ele fez comigo.
- Uma pena que tenha sido assim, irmãzinha. – Falou Alberto – Eu sei que o velho era um porco, mas negócios são negócios. Podem levar rapazes.
- Ramirez, por favor! – Julia falou, se debatendo enquanto era carregada pelos homens de Alberto – Você me ama, eu sei! Não pode deixar eles fazerem isso comigo!
- Eu posso viver com isso, querida. – Eu respondi.
Ao ouvir isso ela parou de se debater e se deixou levar, olhando para mim com uma tristeza que transbordava nas suas lagrimas.
- Ela teve a vingança dela contra o velho. E as economias que ele juntou para essa empreitada eram um bônus. – Falou Alberto quando ficamos sozinhos – Suponho que você já tenha encontrado a senha, detetive.
- Sim, com a dica que Erica me deixou foi fácil. – Eu falei – Estava escondida embaixo do palco do Frank’s.
- Imagino que você não vai me entregar ela. – Ele continuou.
- Considere como sendo meus honorários. – Eu falei.
- Só não entendi uma coisa. – Ele falou – Por que entregar a Julia quando você poderia ter fugido impune com ela e o dinheiro.
- Fiz isso pela mulher que eu um dia amei. – Eu respondi.
- Entendo… Bem, da próxima vez que nos encontrarmos, sugiro que atravesse a rua, detetive. – Ele falou.
- Como se fosse haver uma próxima vez… – Eu resmunguei e então atirei nele.
Alberto ficou caído no chão, me olhando com uma cara de abobalhado, sem condições de chamar seus capangas.
- E isso é pela mulher que eu amo. – Eu falei, antes de puxar o gatilho uma ultima vez.
Inês
Novembro 2, 2009
Inês era uma musa. Acredito que essa seja a única forma fácil de descrever uma mulher como ela, linda como poucas, dona de uma beleza que não parecia ser parte desse mundinho mundano em que vivemos, com seus olhos de um verde profundo emoldurados por seus cabelos negros, eternamente soltos e quase sempre dançando ao sabor do vento. Mas antes disso tudo Inês era um mistério.
Ela havia chegado de repente na cidade, na madrugada de uma noite sem lua, indo morar na casa do velho Emanuel, que estava abandonada desde que ele havia morrido alguns anos antes e não precisou de mais que alguns dias para que toda sorte de boatos surgisse. Apesar do pouco tempo que ela passou, menos de um mês, até hoje se contam histórias sobre ela, dizendo que era uma filha perdida do velho Emanuel, uma amante que ele havia conhecido em suas viagens pelo oriente, ou até mesmo uma feiticeira vinda dos grandes desertos. Todas tinham em comum que ela havia vindo para procurar um tesouro que ele havia supostamente trazido com ele do oriente, as mais ousadas até afirmando com veemência que ela é que teria sido a causa de sua morte, a despeito da discrepância entre a morte dele e a chegada dela. Ela por sua vez sempre achou isso tudo muito engraçado, rindo até quase cair no chão enquanto eu contava essas histórias para ela.
Os garotos da vizinhança, me incluindo entre eles, tinham outros interesses nela. Ela era uma mulher linda e diferente de tudo o que já havíamos encontrado, coisa que o seu mistério só fazia acentuar. Era como se cada olhar dos seus olhos verdes, cada passo do seu andar sensual, cada fragrância que seu corpo exalava, escondesse uma promessa, algo tão fantástico que nem nossa imaginação podia alcançar. Por isso naquele tempo nós dedicávamos todos os nossos esforços para descobrir mais sobre esse paraíso prometido, o que levando em conta nossa idade e hormônios hiperativos invariavelmente envolvia arvores e janelas. Vergonhoso, mas devo admitir que acabou me rendendo algo inesperadamente bom.
Aconteceu em uma noite, pouco mais de vinte dias depois que ela havia chegado. Nós estávamos reunidos para espia-la de cima de uma das arvores mortas que cercavam a casa do velho Emanuel. Éramos sete todos estavam em cima da arvore, brigando por um espaço que permitisse uma vista melhor. Já estávamos fazendo isso a dias e a confiança acabou nos deixando um tanto relapsos, tanto que nem deixávamos mais um vigia. E então ela apareceu ao pé da arvore, com um olhar de reprovação faiscando em seus olhos verdes. “O que vocês pensam que estão fazendo, meninos?”, ela perguntou. Nós reagimos como seria de se esperar, fugindo como uma manada de gnus ao ver um leão, mas eu acabei me desequilibrando e caindo de mau jeito, machucando meu tornozelo. Estava indefeso quando ela se aproximou de mim e me arrastou para dentro da casa. De repente me vieram a mente todas as histórias sobre ela ser uma assassina ou feiticeira vinda do oriente e tudo que eu pude fazer foi balbuciar pedindo para que ela não me matasse. Ela só sorriu em resposta, mas um sorriso tão assustador que eu nem ao menos consegui falar mais nada.
Ela me colocou em um sofá empoeirado e depois examinou meu pé. “Acho que quebrou, mas para sua sorte eu tenho algo aqui que vai cuidar disso.”, ela falou e então saiu da sala. Por um momento eu pensei em escapar dali, mas ela, como se estivesse lendo minha mente, gritou de outro cômodo “E nem pense em fugir! Nosso assunto ainda não acabou.”. Ao ouvir isso tratei de ficar quieto. O ambiente em volta, uma casa antiga com estantes e mais estantes cobertas com relíquias estranhas e armas antigas, sem falar em uma onipresente camada de poeira. Quando ela voltou, trazia consigo um pote cheio de uma pasta malcheirosa que ela prontamente passou em meu pé machucado, o que quase que instantaneamente faz a dor sumir. Ela então se voltou para mim e falou que pelo serviço ela iria cobrar um favor meu, que eu teria que voltar ali todos os dias para ajuda-la a limpar a casa, pois no fim daquela semana ela iria receber uma visita muito importante, e que eu não tinha o direito de recusar. Aceitei sem pensar. Não que eu tivesse escolha. Depois de feito o trato eu corri para casa e fui dormir. Naquela noite tive um sonho estranho, onde o velho Emanuel aparecia e me dizia para tomar cuidado, muito cuidado com ela. Acordei no meio da noite e não consegui mais dormir.
No outro dia eu voltei a casa e logo ela me pôs para trabalhar, como fez durante toda a semana. Era uma casa enorme e havia passado vários anos abandonada, o que me fez ter muito trabalho para deixa-la ao menos apresentável, ainda mais porque ela não me ajudava nem um pouco. Mas isso não significa que aquela semana tenha sido ruim, pois ela sempre estava por perto, observando o que eu fazia e conversando comigo. Bem, não exatamente conversando, já que raramente eu tinha coragem de falar, mas sim contando histórias, as vezes sobre uma peça que eu estava a limpar, as vezes sobre o velho Emanuel e suas viagens, embora ela estranhamente sempre o chamasse de menino. Eram histórias fantásticas, que eu não tenho como acreditar, mas que é impossível para mim não achar que são verdade.
Ela nunca falava sobre si mesma, a não ser vagamente quando eu criava coragem para perguntar algo, como na vez em que eu perguntei se Inês era seu nome mesmo. Ela disse que não mas era “Uma aproximação adequada na sua língua.”. A única vez que ela me respondeu de verdade foi quando perguntei o porquê dela estar ali. Ela me respondeu tirando uma pluma com todo o cuidado de dentro de uma caixa de ferro. Eu sem entender bem peguei a pluma e me surpreendi. Ela era pesada, tanto que eu quase a deixei cair. Ela riu e a pegou de volta, como se ela não pesasse nada. “Eu preciso devolvê-la ao dono e achei que aqui seria um bom lugar.”.
No ultimo dia, depois dela me dispensar não consegui descansar direito. Estava preocupado com o tal convidado, o dono daquela estranha pluma. Resolvi então ir lá para ver se estava tudo bem, me aproveitando da escuridão daquela noite de lua nova para passar desapercebido. Quando cheguei próximo a casa ouvi um uivo, como se fosse de um cão muito grande, vindo da casa. Entrei lá sem cerimônia, mas não havia ninguém, nem nenhuma das relíquias velho Emanuel. Havia apenas um envelope com meu nome escrito nele. Dentro dele estava escrito “Obrigado por tudo, rapaz. Um dia nos veremos de novo.”.
Um dia, anos depois sonhei com ela. Estava em um barco, subindo um grande rio, quando a vi em uma das margens. Ela estava usando um longo vestido vermelho, que dançava ao sabor do vento assim como seus cabelos negros. Ela acenou e sorriu para mim. Um sorriso cheio de promessas, algo tão bom que nem minha imaginação conseguia expressar.
Reminiscencias
Outubro 13, 2009
Eu vejo um dia bonito. Estou em um daqueles parques de filme, com grama bem verde em um dia de verão, onde crianças brincam, homens se divertem com seus cachorros, casais namoram… Tudo isso debaixo de um céu azul de verão sem nenhuma nuvem a vista. Tudo perfeito, mas existe algo me incomodando, embora eu não consiga definir bem o que seja. Tento ignorar e me deito para relaxar na grama, debaixo da sombra de uma arvore, mas algo em meu bolso me incomoda. Eu reviro os bolsos e encontro um bilhete amassado, escrito com minha própria letra. Está escrito “Não se esqueça dela.”. A lembrança vem como um raio na minha mente. Ana!Era ela quem eu deveria encontrar aqui. Me levanto exaltado e começo a procurar em volta, um sentimento de urgência apertando o meu peito.
- Calma, garotão, não precisa ficar tão nervoso. – Soa a voz dela atrás de mim. – Eu só me atrasei um pouquinho.
Eu olho para ela não consigo deixar de sentir uma certa nostalgia, pois ela veste o mesmo vestido do dia em que fomos morar juntos. Sempre fico nostálgico quando a vejo vestida assim.
- Desculpe. – Eu respondo, um tanto sem graça – É que eu não estou me sentindo muito bem.
Ela simplesmente sorri para mim, do mesmo jeito que sorriu quando nos conhecemos, e esse sorriso me amansou como sempre.
Ela me abraça, nós caímos no chão e começamos a nos beijar apaixonadamente, me lembrando de uma vez quando fomos namorar em uma praia deserta. Mas ainda há algo me incomodando, latejando no fundo da minha consciência,
- Você desistiu daquele trabalho? – Eu pergunto, sem entender o porquê.
- Sim. – Ela responde.
Eu sorrio e volto a beija-la. Ela desistiu daquele trabalho perigoso, mesmo com todo o orgulho dela, tudo isso por mim. É tudo que eu queria. Mas não foi assim. Eu a empurro bruscamente e ela nem perde tempo fingindo que não entendeu, assim como todo mundo mais que está no parque. Eu saio correndo e sei que eles me seguem, mas eu nem olho para trás para ver que formas horríveis eles devem ter assumido. Me concentro em achar a porta e quando eu a alcanço pego a chave que está em meu bolso e a abro o mais rápido que eu posso. Não foi rápido o suficiente. Eles me agarram e começam a me arrastar. Eu tento me debater, mas é inútil. Então eu sinto um puxão para dentro da porta aberta.
E tudo fica branco.
Eu me vejo deitado em uma cama, olhando para o teto onde um ventilador gira lento demais para ventilar, sendo muito mais decorativo do que qualquer outra coisa. Típico dela. Sinto ela deitada as minhas costas, seu peito se movendo na lenta cadencia da respiração.
- Mas você, hein? – Ela fala em tom de brincadeira – Grande missão de resgate sua. Nem consegue me “salvar” sem a minha ajuda!
- Isso não tem graça… – Eu respondo, bastante serio, sem desviar o olhar do teto.
- Tem sim. – Ela atalha e começa a rir.
A risada dela me contagia e eu até me permito rir junto, mas a minha risada sai amarga. Acho que ela percebe isso também, porque o riso dela morre também no mesmo instante.
- Enfim, você chegou aqui. Pelo menos me olhe nos olhos e me dê um beijo de adeus. – Ela fala.
- Ainda não. – Eu falo enquanto me levanto da cama e ando em direção a parede oposta do quarto – Ainda não…
- Tudo bem… Não vou te apressar. – Ela responde com uma voz doce – E como vai seu irmão?
- Provavelmente tendo um ataque de pânico nesse instante. – Eu falo – Afinal meu cérebro deve ter quase escorrido pelos ouvidos agora pouco.
- Você devia parar de fazer isso com ele. Vai acabar matando o rapaz. Você sabe que ele tem o coração fraco e… – Ela fala.
- Por que você teve que fazer isso? – Eu pergunto, me apoiando na parede, ainda sem coragem para encarar ela – Mesmo depois de eu tanto te pedir, cheguei a te implorar até. Você foi e tentou esse serviço. E agora você se foi.
- Eu precisava. Haviam coisas muito mais importantes em jogo. – Ela fala em um tom serio.
- Eu sei disso. – Repondo impaciente.
Eles haviam feito esse lugar para ser uma armadilha para gente como nós. Nos enredavam em ilusões enquanto arrancavam nossa consciência e usavam para qualquer projeto que quisessem. Enquanto isso tudo que sobrava era uma casca vazia, que logo morria. Ela veio acabar com isso e apagar todos os dados, “Libertar as almas”, como ela dizia. E no fim esse acaba sendo o meu encargo.
- Todos já apagados. Nem foi tão difícil assim. A segurança aqui não é tão boa quando se sabe o que esperar. – Eu falo secamente.
- E eu ainda aqui… – Ela atalha, dando um longo suspiro.
Eu me viro para encara-la, absolutamente furioso. Que direito ela tem de me tratar com tanta condescendência? Mas ao vê-la finalmente eu tenho um choque. A cama onde ela está é na verdade um leito de hospital e ela está ligada a uma grande maquina como aquelas que usam para manter vivos os doentes terminais.
- Montei isso para facilitar a sua vida. – Ela fala, sorrindo para mim.
Eu ranjo os dentes quando ela diz isso e atravesso rapidamente o quarto na direção do botão de desligar da maquina. Facilitar a minha vida? Ela não entende que isso só torna tudo pior para mim? Ter que fazer isso de novo… Eu Hesito. Olho para ela com esperança. Eu poderia leva-la daqui, coloca-la em um lugar seguro.
- Vamos. – Ela fala – Você tem que me deixar ir.
Eu suspiro e aperto o botão.
Eu vejo tudo branco.
Duat
Outubro 5, 2009
Erick sente que há algo errado quando sai da sala de descompressão e entra na estação, enquanto as escotilhas se fecham atrás dele com seu já familiar estrondo metálico. Havia uma sensação estranha de vazio que exalava dos corredores enquanto ele seguia apressado para a sua cabine na estação espacial de pesquisa experimental Duat, localizada no quadrante espacial de Câncer, na órbita do buraco negro supermassivo Anúbis. A sensação o lembrava de um dia em seu passado que agora felizmente parecia muito distante, e ele balança a cabeça para faze-lo ir embora novamente. Não havia nenhum barulho nos corredores exceto pelo zunido dos purificadores de ar que forneciam o suprimento de oxigênio da nave, o que não era de todo anormal, pois era uma estação enorme e os poucos tripulantes costumavam estar sempre enfurnados em suas salas conduzindo suas pesquisas. Depois de desfazer sua bagagem Erick decide passar pela sala de seu amigo mais próximo, o Dr. Abdul Zayd, gênio responsável pelo desenho da Duat e pioneiro no campo da física multidimensional. Erick encontra o Dr. Zayd em sua sala, como de costume, mas em vez de cercado por assistentes o enchendo de perguntas que só ele conseguiria responder, ele se encontrava sozinho observando as enormes telas dos supercomputadores do seu laboratório processando cálculos incompreensíveis para Erick.
- Dr. Zayd? – Fala Erick, balanceando entre um tom alto para chamar atenção de seu amigo e um tom cuidadoso para não exalta-lo.
- Pois não… – Diz o Dr. Zayd, se virando para encarar o visitante, fazendo Erick se assombrar com sua aparência. Abdul, que havia sempre sido um homem bastante elegante e organizado, ostentava enormes olheiras e uma barba malfeita, o que se somando a expressão abatida em seu rosto denunciava que ele não dormia a varias noites. A única coisa que não combina com isso são seus olhos, que brilham com uma vivacidade e curiosidade que Erick nunca havia visto antes. – Ora, se não é o jovem Erick… Eu já havia perdido as esperanças de vê-lo novamente.
- Não seja dramático, doutor. – Erick responde em um tom casual – Eu só fui fazer uma viagem de rotina para buscar suprimentos para a enfermaria.
- Ah sim, claro… – O Dr. Zayd fala, olhando sombriamente para Erick – Sendo assim, cuidado quando encontrar aquilo do qual você fugiu.
- Como assim, doutor? – Erick pergunta, um tanto assustado com as lembranças que teimavam a voltar.
- Ninguém se lança na imensidão do vazio infinito se não estiver procurando por algo ou fugindo de algo. – Fala o Dr. Zayd com o sorriso de um professor que corrige uma bobagem dita por um aluno – E você nunca foi do tipo curioso, doutor Einkman.
Erick se afasta, indo embora com uma expressão preocupada no rosto enquanto o Dr. Zayd volta a observar as torrentes de cálculos que passavam pelos monitores.
- E eu que vim aqui buscar a verdade… – Fala o Dr. Zayd para si mesmo – Por que tinha que ser algo tão complexo e tão belo?
Erick corre para a enfermaria com o intuito de conseguir ajuda para levar o Dr. Zayd até lá para trata-lo, pois o homem claramente mostrava sinais de transtornos mentais.
- Deve ter passado dias a fio olhando aqueles códigos sem sentido. – Fala Erick para si mesmo – Pobre homem. Deve ter mandado os assistentes embora quando eles tentaram tira-lo de lá. Mas por que deixaram ele lá o tempo todo?..
Erick para ao chegar na porta da enfermaria, pois a sensação que tivera ao entrar na nave o tomou novamente e dessa vez ele percebe que não é apenas uma sensação de vazio. É uma sensação de morte, assim como havia tido quando encontrou sua filha, anos antes. Ele entra na enfermaria com cuidado, não avançando até as luzes automáticas acenderem. O que ele vê lá dentro o deixa zonzo. Ele vê corpos, dezenas deles, todos estendidos nas mesas e no chão da sala, cobertos cada um com um lençol.
- O senhor não teve pressa nenhuma, não é mesmo, Doutor Einkman? – Diz uma voz que soa atrás de Erick.
Erick quase cai no chão por causa do susto, apesar de ter reconhecido a voz de imediato. É o capitão Harris, vestido em seu uniforme de gala e observando Erick com sua impressão impassível de sempre, mais parecendo uma estatua de cera do que um homem.
- O que está acontecendo aqui? – Pergunta Erick apavorado.
- Dever. Esperava que o senhor como medico entendesse. – Responde o capitão com um leve tom de reprovação na voz – Acho que foi esperar demais de um civil. Mas de qualquer modo, um bom capitão não pode deixar nenhum homem para trás.
- Do que você está falando? O que aconteceu aqui? – Pergunta Erick ainda com medo.
- Perguntas, perguntas e mais perguntas! – Responde o capitão, parecendo ofendido – Eu sou um capitão da armada espacial, não um guia turístico, homem! Agora pare de perder tempo com asneiras e vá para sua cabine. Lá você vai achar suas benditas respostas.
- Mas eu não entendo… – Fala Erick, confuso.
- Doutor Einkman, essa é uma ordem simples e eu sugiro que o senhor cumpra. – Continua o capitão com um ligeiro tom de ameaça – E que vocês não demorem muito. O senhor já me fez esperar demais.
Sem entender o porquê Erick segue de volta para sua cabine sentindo como se estivesse voltando para o passado. Era um belo dia de sol na Terra e ele chegava para almoçar com sua filha. A casa estava silenciosa, mas ele não estranhou, pensando que sua filha ainda estava na escola. E então ele a notou, estendida no sofá com um vidro vazio de tranqüilizantes ao lado.
- Eu gostaria de poder esquecer isso… – Fala Erick para si mesmo enquanto abre a porta de sua cabine.
Dentro da cabine, sentada em cima de sua mesa e balançando as pernas no ar como sempre gostava de fazer, está sua filha. Ela olha para Erick, que está paralisado, incrédulo, e lhe dirige um sorriso igualmente carregado de culpa e vergonha.
- Oi papai… – Ela fala.
- Julia, mas como? – Responde Erick – Você não deveria estar aqui, você está…
- Morta? – Atalha Julia – Sim. Justamente por isso esse é exatamente o lugar onde eu deveria estar, pai. Duat… Não é engraçado como os cientistas as vezes acertam as coisas até mesmo sem querer?
- Filha… Não pode ser. – Continua Erick – Eu enterrei você! Eu te deixei morrer!
- Não, pai. Não foi culpa sua. – Fala Julia se aproximando de seu pai e afagando seu rosto – Desculpa por eu ter te feito se sentir culpado. Eu, não queria…
Erick a interrompe abraçando-a fortemente, o que a deixa sem ação por um tempo, mas então ela finalmente retribui o abraço e os dois permanecem assim por longos minutos.
- Agora chega, pai. – Fala Julia, gentilmente afastando o pai e enxugando as lagrimas com as costas da mão – Eu prometi ao capitão que não ia te deixar demorar muito. Você já fez o coitado esperar bastante. Precisamos ir.
- Ir para aonde? – Pergunta Erick – O que está havendo aqui?
- Nós chegamos na entrada certa, pai, mas agora temos que atravessar a porta. Não sei bem o que acontece depois. Acho que temos que falar com ele. – Fala Julia apontando para o buraco negro através da escotilha.
- Do que você está falando? – Insiste Erick.
- Você morreu pai. Sua nave explodiu quando você saia na sua viagem para pegar suprimentos – Fala Julia, em um tom serio.
- Impossível… – Responde Erick, descrente.
- Então me diga, o que você se lembra dessa viagem? – Pergunta Julia.
Erick pensa, mas só se lembra de estar zarpando e então de repente se ver de volta na estação. Há também uma memória vaga entre esses acontecimentos. Uma memória de alarmes disparando e medo.
- Não pode ser… – Fala Erick.
- Vamos, pai. Vai ser mais fácil daqui pra frente. – Fala Julia oferecendo a mão para seu pai.
******
O Dr. Zayd se deleita ao ver finalmente os números parando de correr nas telas de seu supercomputador e serem substituídos por uma mensagem em letras garrafais com os dizeres “Equação Completa”.
- Então finalmente aqueles dois acharam seu caminho…
Ele sorri para si mesmo. Havia desvendado o mistério mais belo e complexo do universo. Havia feito imensos sacrifícios, mas todos eles acabariam entendendo. Havia sido para o bem maior. Ele então tira uma arma de dentro de uma gaveta e aponta para a própria cabeça.
- Que o meu coração pese menos que uma pluma.
Caravelas
Setembro 26, 2009
A brisa salgada leva o seu cheiro embora e o mar leva o teu calor, teu corpo e teu beijo para tão longe, me deixando aqui apenas com o frio do sol do novo mundo. Chega a ser engraçado pensar que o mesmo velho mundo do qual meu bisavô fugiu de um frio que ele nunca mais deixou de sentir na vida seja o mesmo que levou embora o calor da minha cama. Acho que só posso rir dessas pequenas ironias do destino.
Ainda sonho contigo. Ouço ondas e rangidos, como rangia o teu barco a velas a navegar pelo céu. As vezes vejo por cima das nuvens, onde a lua e as estrelas brilham de verdade, as vezes te encontrando, em terras nunca antes vistas, mares nunca antes navegados ou simplesmente nas estranhas terras de meus ancestrais. E as vezes te vejo partir. De novo. Ainda assim, melhor do que antes da tua chegada. Antes de ti só chovia.
Assim fico aqui, nessa casa que já não é mais tão lar, pois aqui não mais ecoa tua voz, teu pranto e até (diabos até disso sinto falta) teu canto desafinado. Mas tu se fez ao mar, que mantém com seus infinitos braços afastados o velho e o novo mundo agora faz o mesmo com eu e você. Fico aqui e espero, com alguns sonhos e uma só esperança, esperando em meu quarto que agora parece tão vazio. Porque a brisa salgada levou teu cheiro e deixou só saudade.
Pulso
Setembro 21, 2009
Ouço algo lá fora, inteligível e distante.
Por que lá fora parece tão longe?
E onde será aqui?
Há uma sensação estranha aqui. Um calor úmido tão familiar quase como uma reminiscência da infância, como se fosse uma volta ao útero. Quase consigo ouvir as batidas do coração de minha mãe.
O barulho continua.
Existem outros sons também. Água. Ondas. Seria o mar? Talvez a chuva carregada por rajadas de vento.
Eu lembro da chuva. Meu primeiro beijo. Chovia tanto e o rosto dela estava gelado, mas os lábios ainda tão quentes. Tinha um gosto doce, distinto e um cheiro absolutamente inebriante. Minhas mãos deslizavam o mais delicadamente o possível pelo seu rosto de pele macia enquanto as mãos dela afagavam meus cachos com a gana de uma condenada.
Minha mãe detestava a chuva. Vejo seu rosto cinzento em um acesso de tosse. Do útero sinto as batidas do seu coração.
Ela nunca ia me buscar quando chovia. Lembro do meu pai acenando de leve. Um sorriso de cumplicidade no rosto. Uma conversa um tanto constrangedora, mas curta. Ele não disse muito. Nunca dizia.
Até o fim.
Há um quê de desespero nesse som estranho.
Me lembra o Tim. Meu cachorro. Um vira latas esperto de pelo alaranjado. Gostava dele. Morreu desesperado sob a roda de um carro.
Foi quando eu conheci a morte.
Sinto falta de ter um cachorro. Ela não gosta então eu faço uma concessão. Também não gosto dos gatos que ela tanto gosta, então criamos um peixinho juntos.
“Skiter é um bom nome, admita.”
Compramos perto da casa de praia. Talvez sejam ondas afinal. Ela sempre gostou do mar. Sorria como uma criança. As vezes eu até me deixava levar. Mas a água era sempre tão fria.
Está frio aqui.
O barulho lembra a voz dela.
Minha mãe sempre elogiou a voz dela, desde que a conheceu. Sempre achei que elas não fossem gostar uma da outra, antes sempre havia sido assim. Por isso eu gostava tanto dos dias de chuva. Minha mãe nunca atrapalhava nos dias de chuva.
Lembro da primeira vez com ela. Foi algo diferente do até então. Intenso. Mas tomando cuidado com o barulho para não acordar meus pais. Por isso eu gostava tanto da casa de praia. Ela sempre dava um sorriso sacana quando eu a chamava para lá.
Definitivamente é a voz dela.
Lá fora parece mais próximo agora.
Tão frio.
Definitivamente é a chuva.
(Acorda, por favor! Você tem que acordar! Vamos, levanta!)
Há um leve calor atingindo meu rosto. Gosto salgado e o cheiro de lagrimas. Elas tem cheiro, sabia? Mas eu nunca gostei delas. Sempre me doeu ver ela chorando.
Ela chora agora.
Vejo o seu rosto acima. Parece tão longe. Ainda assim alcanço com a mão. Tão quente. Um afago de leve.
“Não gosto de te ver assim.”
Acho que é culpa minha.
“Desculpa.”
Fragilidade
Setembro 20, 2009
Ela caminha suavemente, embora isso se deva mais a sua natureza do que a alguma atitude deliberada. Sempre fora uma criatura suave, de traços leves e de passos mais ainda. Mas mesmo isso não a impede de rachar o delicado chão a cada passo seu, deixando pegadas ensangüentadas para trás. Não que ela perceba isso, assim como não percebe o vento que de tão gelado parece cortar, mesmo usando apenas um leve vestido de verão, cujos panos flutuam ao sabor da ventania fazendo-a parecer não com um ser humano, mas sim um fantasma assombrando a paisagem gelada. E ela também não o percebe. Ele se arrasta desesperadamente tentando alcançá-la ao mesmo tempo que tenta não quebrar o chão que o sustenta. Não tem nem de longe a leveza dela, mantendo um equilíbrio precário com seus movimentos bruscos e desajeitados sobre uma superfície que deveria ser gelo, mas na verdade parece ser mais um espelho de vidro. As rachaduras o cercam perigosamente, mas ele continua. Precisa desesperadamente alcançá-la, mas não tem a menor idéia do porquê. Tudo que sabe é que há uma necessidade maior que sua razão, que o fez enfrentar a noite mais fria do ano e se aventurar por cima de um lago congelado e ignorar tudo isso. Ele também tenta ignorar seu reflexo, que não o segue como deveria, mas sim esmurra o vidro do outro lado como se implorasse para ele não seguir, fazendo-o se perguntar se talvez o reflexo não saiba de algo que ele não. Ela então para no centro do lago, olhando para o vazio e de costas para ele, que se aproxima. Ele sente o chão ceder cada vez mais a cada segundo e percebe que apesar de ela não o olhar o reflexo dela o encara, embora ele mal o reconheça como tal. Não havia aquele ar suave de sua contraparte, mas sim um peso, um ar denso. Ao ter essa visão ele finalmente para e o reflexo, com uma gélida e impiedosa expressão, diz uma frase apenas movendo os lábios. “Perto demais.”. O chão cede então, e para ele tudo se torna escuro.
Ele acorda em uma cama quente, sendo amparado por rostos amigos e conhecidos. Eles dizem que o acharam nas águas do lago e perguntam o porquê dele ter feito essa loucura. Ele não sabe responder. Nem isso nem tão pouco porque suas roupas estavam cobertas de cacos de vidro.
Quando Anjos Merecem Morrer
Setembro 15, 2009
É sexta a noite e anjos cantam sobre a minha cabeça, sendo essa uma ironia que eu não aprecio. Tudo o que fazem é desperdiçar seus hinos gloriosos nessa noite encharcada com o cheiro da corrupção dos jovens e da podridão dos velhos. O ar, carregado com o cheiro da luxuria, desce rançoso pela minha garganta enquanto eu respiro fundo para terminar meu dever. Não deveria ser assim. O Senhor não sacrificou seu cordeiro para livrar o mundo de seus pecados? Então por que vejo a corrupção se multiplicar em todas as partes? Cheguei a pensar que fosse um erro meu. Procurei incessantemente por algo que pudesse estar livre da macula até que encontrei meus anjos. Elas eram todas tão puras e tão inocentes que cheguei a acreditar que havia esperança. Tolice. No inicio me deixei levar por essa confortável ilusão, achando que poderia ser assim tão fácil, mas nem essa esperança poderia me cegar por completo. Chega a me doer ouvir meus anjos cantando agora, ressoando bem acima de mim aqui por entre os canos e caldeiras desse porão, pois eu sei que nem elas resistem a macula desse mundo. Eu as vi desmanchadas em risinhos e cochichos para os lobos famintos que as cercam. O padre me diz que é natural, que são coisas da vida. Agora ele sabe o quão errado está. Ele está bem e seguro, pois será minha testemunha perante os homens, testemunha do sacrifício que precisa ser feito para a salvação. Porque eu sei que Ele nos abandonou. É tão claro quanto o dia, que o Senhor deixou esse mundo a própria sorte crendo de que Seu sacrifício tão magnânimo nos salvou, que nós precisamos mais de sua piedade. Por isso eu preciso fazer isso, algo que nem Ele será capaz de ignorar. Por isso eu me sujei, quebrando um de seus mandamentos para trazer os anjos até aqui e irei quebrar outro. Sujo minhas mãos com ferramentas do mal, criadas apenas para ceifar vidas. E choro. Choro quando anjos merecem morrer em meu valoroso suicídio.
Azia
Setembro 5, 2009
Ela me deixa desconfortável, a verdade é essa. Não é um sentimento, faz muito tempo que não chega a isso. Eu penso que provavelmente apreciaria a ironia da situação se não fosse tão irritante, pois algum tempo atrás ela era tudo. Não, não é que ela fosse tudo para mim, é só que eu a havia deixado ocupar tudo que eu via, sentia, diabos até de certo modo tudo que eu era. Uma imensa idiotice, claro, mas eu não estava raciocinando bem naquela época. É como ser atingido por um raio, pode acontecer com qualquer um. Maldita estatística. Voltando ao raciocínio original, depois que tudo que aconteceu, ou melhor, depois que tudo não aconteceu, aquilo foi sumindo, a força no inicio mas logo foi indo embora naturalmente até que só sobrou o que há hoje, uma azia. É ai que entra a tal ironia da vida. Dia desses ela estava em cada pensamento, cada frio no estomago, cada batida do meu coração e hoje… Hoje não passa de um mero desconforto que as vezes eu tenho que agüentar, algo como ter que comer peixe na casa da sua namorada porque é semana santa e a mãe dela é muito religiosa. Algo realmente insignificante. Chega a ser estranho pensar que uma coisa tão ínfima tenha ocupado tanto da minha mente por tanto tempo. E o engraçado é que eu não percebi essa diminuição dela. Um dia eu a vi e simplesmente estava assim. Estranho, mas não importa muito. A vida continua, bem melhor agora ouso dizer, e isso é o que vale. No fim só me ficou essa azia e uma duvida: Será que foi ela quem diminuiu ou eu que cresci?
Portas Fechadas
Setembro 4, 2009
Ele esmurra a porta incessantemente, se concentrando na dor de suas mãos já em carne viva e no seu coração que pulsa tão violentamente que nem mesmo a morte ousaria se aproximar para acalma-lo. Tudo isso na vã tentativa de não pensar, de esquecer o sentimento de impotência que o invade a cada pancada que ele desfere no maciço de madeira a sua frente. Porque ele sabe que nunca conseguiria derrubar aquela porta e, mais importante, porque ele sabe que ela não o ouve. É como sempre foi, ele fazendo tudo o que pode e ela tomando conhecimento apenas para desdenhar com seu silencio. Havia dado tudo o que poderia oferecer, a cercado com toda a esperança que sua alma de menino ainda guardava, pensando que talvez pudesse salva-la. Mas como poderia? Pois não há tolice mais temerária do que a de um rapaz, um simples menino, se achar capaz de aliviar o tormento que fustigava a tempestuosa alma de uma mulher. E ela fez o tolo pagar por sua ousadia, o torturando com seu silencio e uma certeza que sussurrava em nome da morte, por mais que o rapaz se fizesse, e ainda tente se fazer, de surdo para isso. Mas nem toda a vã esperança que ele carrega pode negar os fatos que se erguem a sua frente. Ele sabe que não há como salvar nem ela nem a si mesmo. O que ele busca é apenas uma resposta, um gesto por menor que seja que demonstre que ela ao menos notou sua presença. Mas não há nada.
Apenas uma porta fechada.